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Os Cultos estão de volta!

Por Gus Fiaux

Você já deve ter percebido que, nos últimos anos, um tema bem curioso voltou com tudo para os cinemas – especialmente se é fã de filmes de terror. Longas como Hereditário, Mandy, O Convite, A Casa do Diabo e Kill List têm todos algo em comum: a presença de seitas e cultos religiosos sombrios.

Mas por que diabos esse tema está tão presente no cinema atual?

Não é de hoje que vemos a premissa de uma seita bizarra sendo incorporada a filmes de terror. Vale lembrar que os melhores exemplares do gênero são filmes que, de certa forma, dissecam os principais medos da natureza humana, não apenas para assustar o público, mas também para fazê-lo refletir.

Com isso em mente, o horror se tornou um grande espaço para discutir os males que assolam a humanidade, de uma forma a despertar sensações inconscientes e puras, como o medo, o pânico e, como de costume, o susto.

O culto ao demônio Paimon, em Hereditário.

Quando falamos de seitas, o principal mal a ser dissecado aqui é a manipulação e a alienação. Não há nada mais assustador que uma massa acéfala que tem um único propósito em mente, e está disposto a matar e morrer por ela.

Mas o que isso se diferencia, por exemplo, de um grupo de pessoas que luta em prol de uma mesma causa justa, independente de sua natureza?

A grande diferença está na abordagem. Um culto não procura diálogo ou conversa. Em vez disso, joga-se a política do “nós contra eles”, criando uma sensação de isolamento e reconhecimento como se os internos fossem as únicas pessoas justas e conscientes. Os que são “de fora” não são passíveis de conversas ou conversão – eles devem apenas ser aniquilados.

O paganismo de O Homem de Palha.

Nos cinemas, temos um grande exemplar que funciona bem para exemplificar isso: O Homem de Palha, clássico britânico de 1973, sobre um policial que vai até uma ilha remota investigar o desaparecimento de uma menina. Lá, ele acaba se vendo preso às tradições pagãs do local, e acaba sucumbindo para uma seita que deseja sacrificá-lo como oferenda para uma divindade.

Esse é o mais típico caso registrado em filmes de terror que envolvem seitas: a demonização do paganismo. De certa forma, a cultura cristã-ocidental está tão enraizada no pensamento moderno que qualquer coisa que fuja disso deve ser visto como uma afronta e é digna dos piores vilões do horror – contudo, note como isso, por si só, forma uma sátira e uma auto-crítica aos cultos que propagam intolerância religiosa.

Investigando ainda mais as raízes do paganismo, temos uma outra seita que sempre está presente e que, quando revelada, sempre formam os principais vilões do horror: o satanismo, ou culto ao Diabo. Não há figura que mais carregue nas costas a representação do mal e da perdição quanto Lúcifer, e vários exemplares do cinema conseguem trazer isso muito bem.

Um exemplar típico – e outro clássico do cinema – é O Bebê de Rosemary, sobre uma mãe que lentamente se vê no meio de um culto para trazer à Terra o Anticristo.

O Bebê de Rosemary, sobre uma mulher vítima de uma seita satanista.

Curiosamente, vale ressaltar que o diretor do filme, Roman Polanski, passou por maus bocados na época das filmagens – e tudo por conta de uma seita da vida real. O culto de Charles Manson brutalmente matou Sharon Tate, a esposa do diretor na época, como parte de um ritual. Esse caso gerou uma repercussão tão tenebrosa que, em breve, estará presente nas telonas no novo filme de Quentin Tarantino, intitulado Era Uma Vez em Hollywood.

Mas o caso Manson não teve consequências apenas a longo-prazo. O assassinato de Tate, junto com uma onda de cultos surgidos nos Estados Unidos nas décadas de 70 e 80 geraram o que ficou conhecido como “Pânico Satânico”.

Basicamente, esse era o nome dado à sensação de desconfiança dos norte-americanos com todos ao seu redor, sempre supondo que o vizinho estranho da esquina poderia ter um culto secreto, onde oferecia bebês não-batizados ao demônio.

E é claro que o cinema não ia deixar de se aproveitar disso. Vários filmes foram feitos expondo a temática. Um deles – e que recomendo fortemente – é A Casa do Diabo. Apesar de ser lançado em 2009, o longa recria elementos que fazem com que ele pareça um filme da década de 80, e aborda justamente essa temática.

No longa, uma mulher procura um emprego e é contratada para ser babá. No entanto, ao chegar na casa, ela descobre que vai cuidar de uma senhora idosa – e logo se assusta com seus empregadores, duas pessoas muito estranhas. Aos poucos, vamos descobrindo que tudo não passa de uma armadilha para oferecer um sacrifício a uma entidade diabólica.

Dos anos 90 aos 2000, isso acabou perdendo a força dentro do terror – principalmente porque outras convenções, como o found footage e as franquias de torture porn (alô Atividade Paranormal e Jogos Mortais) foram assumindo a liderança nas bilheterias.

Entretanto, nos últimos anos, notamos uma certa ressurgência frequente desses temas. Alguns dos meus exemplares favoritos são Kill List, Last Shift, The Void e o insano Mandy, que conta com uma das melhores atuações de Nicolas Cage.

No ano passado, também fomos obrigados a repensar nossa noção sobre cultos. Para ter alguns exemplares, tivemos O Ritual, O Culto e o excelente Hereditário. Aliás, o diretor deste último, Ari Aster, em breve lançará outro filme com uma temática similar, intitulado Midsommar – cujo trailer você confere a seguir:

Mas aliás, o que torna esses cultos tão presentes na atualidade?

Bem, se reforçarmos que esses filmes sempre possuem uma simbologia própria para desmascarar manipulação e alienação, a resposta vem de uma forma bem simples: a crise política da década.

O terror político de American Horror Story: Cult.

Independente de seu posicionamento político – afinal, este não é um texto acusatório para nenhum dos lados –, estamos vivendo uma grande instabilidade nessa área. De todos os lados (seja direita, esquerda, centro, cima ou baixo), vemos que a alienação tomou conta do povo, de forma que as relações humanas passaram a ser comprometidas em prol de uma mentalidade de colméia, que segue líderes falsos e os defende até a morte.

Um exemplar que sintetiza e solidifica muito bem esse sentimento é a sétima temporada da série American Horror Story, obviamente intitulada Cult. Tudo bem que a série sempre trabalhou com a ideia de cultos bizarros, mas ao adotar uma postura mais satírica e realista, o criador Ryan Murphy conseguiu estabelecer a noção de alienação política como um dos fatores apresentados em cultos e seitas religiosas.

Por mais que não seja minha temporada favorita da série – na verdade, está bem longe disso –, Cult consegue ser, ao mesmo tempo, caricata e realista ao apresentar o mundo político nos Estados Unidos pós-Trump. E não pense que só os republicanos são demonizados aqui, já que há uma trama bem interessante envolvendo uma personagem democrata que se junta à seita por razões que prefiro deixar de fora para evitar os spoilers.

Outra franquia que tentou fazer algo similar – e conseguiu, de certa forma – foi a série Uma Noite de Crime. Aos poucos, o que era apenas um filme bobinho de invasão domiciliar foi tomando uma proporção maior, trazendo comentários afiados a respeito da política como alienadora de uma massa de manobra.

Claro que alguns dos filmes aqui citados – como, por exemplo, Hereditário, fogem da temática política e sequer tomam o assunto por um viés metafórico, mas a grande parte do que temos visto ultimamente mostra essa preocupação em estabelecer os cultistas como alienados (sejam por parte de um político ou de uma entidade ancestral).

The Void, de 2016, consegue trabalhar bem a relação dos cultos Lovecraftianos.

Há muitos anos, H.P. Lovecraft demonstrava isso ao revelar os membros dos cultos cósmicos como pessoas puramente loucas. Atualmente, alguns filmes e séries também estipulam isso – e um exemplo é Bird Box. Independente se você gostou ou não do filme, basta notar como os “cultistas” da entidade amórfica se apresentam: como pessoas ensandecidas.

Ainda não sabemos se essa onda vai continuar por muito tempo – e o que ela tem a nos oferecer além de segredos obscuros e rituais brutais, mas certamente temos aqui uma nova tendência seguida nos filmes de terror – e eu diria que isso vai além deles, já que alguns exemplares de outros gêneros e formatos midiáticos também são voltados para essa exploração sobrenatural. Basta olhar ao redor e notar filmes e séries como O Mundo Sombrio de Sabrina, Martha Marcy May Marlene, O Mestre e até mesmo Unbreakable Kimmy Schmidt.

De um jeito ou de outro, podemos tirar um tempo para pensar sobre o que isso significa e como o horror molda nossos sentidos a respeito do mundo lá fora. Com sorte, o clima de instabilidade um dia vai passar – e aí, esperamos para ver o que o gênero vai acusar como o próximo grande mal da humanidade.

 

Abaixo, relembre alguns ótimos filmes sobre cultos sinistros:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux