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Os 20 anos de “A Ameaça Fantasma” – O começo do Começo!

- – Há 20 anos, em uma galáxia não tão distante assim…

Por Raphael Martins → No último dia 19 de maio, Star Wars – Episódio I: A Ameaça Fantasma completou 20 anos de sua estreia, marcando o retorno da saga espacial criada por George Lucas após 16 anos de hiato, iniciando uma nova era de aventuras, mudando a maneira como os filmes eram feitos e, principalmente, fazendo fãs do mundo inteiro se conscientizarem pela primeira vez dos perigos do hype exagerado.

O filme foi um verdadeiro fenômeno cultural, algo como Vingadores: Ultimato foi recentemente, mas em uma escala muito, muito maior. E independente de ter sido bom ou ruim, de ter decepcionado ou não, uma coisa é certa: ele marcou uma época muito boa na vida de muita gente, que viu Star Wars retornar com toda a força (com o perdão do trocadilho) aos holofotes do mundo e pôde praticamente respirar a saga 24 horas por dia.

Se você é mais novinho e não lembra exatamente de toda a febre que se sucedeu na época, ou se é mais velho que gostaria de relembrar aquele verão de 1999, esse texto é para você, escrito por alguém que esteve lá e viveu isso com toda a sua intensidade. Então, vamos do começo…

Primeiro pôster de A Ameaça Fantasma: toda saga tem um começo…

George Lucas falou pela primeira vez sobre continuar sua saga em 1997, na época em que as edições especiais da trilogia clássica estavam em cartaz nos cinemas. Aproveitando que os filmes eram populares de novo, ele anunciou, para a surpresa de todos, que faria toda uma nova trilogia de Star Wars, com os episódios I, II e III da saga, contando todos os eventos que levaram a transformação de Anakin Skywalker em Darth Vader e como a tirania do Império tomou a galáxia. E mais: que o roteiro já estava escrito desde 1994 e que as gravações começariam naquele mesmo ano.

Desnecessário dizer que os fãs foram a loucura com a novidade. Primeiro os filmes antigos voltavam com novas cenas e efeitos especiais, e agora toda uma nova trilogia esperava por eles? Parecia um sonho tornado real, e a internet, que na época ainda engatinhava, começava a sentir, pela primeira vez, o peso do hype e o enorme barulho que só uma franquia como Star Wars era capaz de causar. E como causou.

O primeiro trailer de A Ameaça Fantasma foi lançado em novembro de 1998, e foi aí que a sociedade como um todo começou a reparar que não se tratava só de um simples filme, mas de um evento cinematográfico sem igual prestes a acontecer.

Nos cinemas onde o trailer estava sendo exibido, acontecia um fenômeno interessante: pessoas pagavam o preço do ingresso do filme em cartaz, assistiam ao trailer e iam embora. Simples assim.

A empolgação ganhou ainda mais força quando o segundo trailer chegou, em março de 1999, dois meses antes da estreia do filme. Esse pode ser considerado o primeiro grande desafio da internet como um serviço acessível a todos, fora do campo de uso militar. A nova prévia do filme foi baixada mais de um milhão de vezes só nas primeiras 24 horas, e isso em uma época sem Youtube, sem banda larga e onde a única conexão com a rede era a discada.

Servidores do mundo inteiro não tiveram como aguentar a alta demanda e caíram, gerando uma confusão enorme. E iria aumentar, já que após duas semanas o trailer já tinha mais de 3 milhões de downloads.

Quando chegou maio, mês da estreia do filme, os primeiros brinquedos baseados no Episódio I foram sendo distribuídos nas lojas americanas, na maior ação de marketing da história do cinema até aquele momento. O que não é de se estranhar em se tratando de Star Wars, afinal, a franquia criou o próprio conceito de brinquedos baseados em filmes, e no caso da saga espacial, eles fazem tanto sucesso que a grana arrecadada supera até mesmo a bilheteria dos filmes.

Na madrugada de 3 de maio de 1999, em um evento que ficou conhecido na mídia como “midnight madness” (ou “Loucura da meia-noite”, em português), as lojas de brinquedo dos Estados Unidos começaram a vender os bonecos do novo filme.

Centenas de pessoas formaram filas e mais filas em várias delas, e tão logo os portões se abriram, fãs ávidos por qualquer novidade de A Ameaça Fantasma que pudessem tocar, brincar ou revender pelo dobro do preço entraram apressadamente, gastando rios de dinheiro.

Só naquela madrugada, a rede de lojas de brinquedos americana Toys R’ Us vendeu mais de 1 milhão de brinquedos baseados do episódio I, algo que até hoje não se viu igual com filme nenhum, nem mesmo com O Despertar da Força.

Dois dias depois, George Lucas anunciou que adiantaria a estreia do filme em dois dias, do dia 21 de maio para o dia 19, com a justificativa de que os fãs mais apressados poderiam ver durante a semana, e as famílias, no fim de semana,o que, pelo menos em teoria, agradaria a todos. E foi aí que o fator “fenômeno cultural” atacou de novo.

Milhares de fãs, preocupados em conseguir ingressos para a pré-estreia, começaram a acampar na frente de cinemas de todo o mundo para garantirem um ingresso. Depois, mais próximo da chegada do filme, tornaram a fazê-lo, ficando dias e até semanas morando em tendas para garantirem os melhores lugares da casa.

Quando o grande dia chegou, os apaixonados por Star Wars, sobretudo nos Estados Unidos, se mobilizaram como nenhuma outra fanbase havia feito até então. Foi algo tão numeroso que o próprio bolso do governo americano sentiu. Naquele 19 de maio, mais de 2 milhões de pessoas pediram folga de seus trabalhos só para verem o filme na estreia, gerando um prejuízo de 293 milhões de dólares à economia americana.

Eis que o filme estreou, as pessoas assistiram, o hype imperava e George Lucas estava feliz da vida vendo os cofres da Lucasfilm se encherem de verdinhas. Mas naquele paraíso, havia uma serpente.

Após a estreia, as análises negativas dos críticos, que já haviam assistido ao filme antes dos fãs e dado seu parecer em seus respectivos veículos, começavam a fazer sentido. A base de fãs, pelo menos a princípio e talvez ainda sob efeito de toda a euforia de ter sua amada saga de volta, curtiram. Mas conforme isso ia diminuindo, eles iam começando a notar que tinha alguma coisa fora do lugar. Algo não estava certo. Havia um distúrbio na Força.

Entre as principais reclamações, estavam as famigeradas Midi-Chlorians, que tiraram muito do aspecto místico da Força e mudaram o foco para razões biológicas, as intermináveis e chatíssimas questões burocráticas e políticas que não faziam muito sentido dentro da trama, um Darth Maul que impressionava a princípio, mas que fora muito mal utilizado, a atuação do pequeno Jake Lloyd como Anakin e a presença constante de Jar Jar Binks, que para muita gente, arruinou um filme que já não era lá muito bom.

Jar Jar Binks e seu humor fora de hora foi uma das principais reclamações sobre o filme

Entretanto, nem todos acharam o filme esse desastre todo que os fãs mais velhos pregavam na internet. O público mais novo, as crianças e os adolescentes até a faixa dos 16 anos, gostaram do que viram, elogiando os efeitos especiais inovadores, as batalhas espaciais, os duelos com sabres de luz e até Jar Jar, que caiu no gosto da criançada rapidamente.

Mas no frigir dos ovos, a atenção da mídia acabou se voltando para o lado negativo da Força. Em pouco tempo, havia virado moda atacar o filme e a figura de George Lucas, culpando o diretor por tudo o que deu errado, o acusando de se preocupar mais com vender brinquedos do que fazer um bom filme.

Contudo, nada disso parece ter afetado a bilheteria final de A Ameaça Fantasma, que naquele ano se tornou a segunda maior bilheteria da história do cinema, perdendo apenas para Titanic. Foi o primeiro filme da história a arrecadar 100 milhões de dólares nos 5 primeiros dias de exibição.

Mas o gosto ruim na boca dos fãs perdurou, perseguindo a trilogia prequel durante toda a sua trajetória nos cinemas, de 1999 a 2005. A cada época de filme novo, desde que o primeiro trailer era mostrado, vinha junto uma avalanche de desconfiança, comentários maldosos e uma atitude de certo desdém, algo que contradizia a expectativa, o hype e principalmente o saldo final da bilheteria, que era sempre altíssima. Era aquela coisa que acontecia com franquias como Transformers, por exemplo: todo mundo falava mal, mas lotavam as salas de cinema para ver.

Conforme os anos foram se passando, os filmes da trilogia prequel foram se tornando cada vez mais bem aceitos, talvez porque as crianças daquela época, o público para quem George Lucas dizia que Star Wars havia sido feito desde seu começo e que se encantou com a aventura, foi crescendo, ganhando vez e voz.

Hoje há quem defenda tanto A Ameaça Fantasma quanto suas sequências, suas decisões de roteiro e até Jar Jar, tendo uma memória afetiva e positiva da experiência que tiveram quando mais novos, quando foram introduzidos a aquele universo de aventuras e perigos em uma galáxia muito, muito distante.

Natalie Portman como a rainha Amidala em Episódio I: o filme foi passando a ser mais bem aceito conforme os anos foram se passando

Apesar de a parcela de fãs que não gostou (e ainda não gosta) de A Ameaça Fantasma ter lá sua razão para isso, não podemos nos esquecer de tudo de bom que o filme trouxe. Para os fãs da saga, isso representou uma expansão nunca antes vista da mitologia da série, com novos planetas, aventuras, personagens, acontecimentos e detalhes até então desconhecidos, como o funcionamento da ordem Jedi na época de seu auge, o estilo de combate dos Jedi ou como a república funcionava, por exemplo.

Foi graças a A Ameaça Fantasma que pudemos jogar games com o mais alto grau de refinamento e desafio, como Racer no Nintendo 64 e Jedi Power Battles no Playstation. O filme abriu as portas para toda uma nova era de histórias que não ficaram apenas nos episódios II e III, mas se estenderam pelos livros e quadrinhos do Universo Expandido e deram origem até a séries de TV, como a sensacional Star Wars: The Clone Wars, que prepara a sua volta para muito em breve.

Anakin e Obi-Wan na série de TV The Clone Wars: sem A Ameaça Fantasma, isso não teria sido possível

Fora da base de fãs, Episódio I também foi extremamente importante, mudando a maneira como os filmes eram feitos. Foi neste filme que começou a ser utilizado o método de filmagem com câmeras digitais, algo que hoje se tornou padrão. No campo dos efeitos especiais, A Ameaça Fantasma também revolucionou, sendo Jar Jar Binks o primeiro personagem totalmente feito em computação gráfica para um filme, algo que virou tendência no cinema. Se hoje temos Thanos e Gollum, foi porque Jar Jar veio antes.

Foi uma época tão marcante que teve sua história contada de forma muito bem humorada no filme Fanboys, de 2009. Nele, acompanhamos a aventura de um grupo de amigos decididos a invadir o Rancho Skywalker, casa de George Lucas, para ver o filme antes de todo mundo.

Passados 20 anos desde a estreia, a discussão se ele é um filme bom ou ruim ainda persiste, mas talvez isso não importe muito, no final das contas. Seja pelas inovações tecnológicas que trouxe ou pela febre cultural que promoveu, A Ameaça Fantasma é um filme que jamais será esquecido, não importa quantas trilogias sejam feitas nos anos que virão.

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sobre o autor Raphael Martins

Já fui um pouco de tudo: apresentador de TV, repórter, roteirista e hoje sou redator nesse noblário site. Gosto de longas caminhadas na praia, HQs, games, tokusatsu, cinema e filé com fritas. Você pode trocar uma ideia comigo e me ver reclamar da vida no Twitter @aqueleraphael