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O que aconteceu com os heróis de ação do cinema?

Por Raphael Martins

Primeiramente, gostaria de começar deixando claro que esse não é um daqueles textões saudosistas da linha “na minha época era melhor”, que gasta parágrafos enormes falando sobre como antigamente tudo era muito bom e que hoje nada mais tem graça. Embora esse tipo de texto tenha lá seu público, a proposta aqui é outra: a de fazer um apanhado sobre um dos gêneros de filmes mais populares dos anos 80, que mudou um pouquinho nas últimas décadas, mas que continua por aí. Hoje vamos falar sobre o cinema de ação.

Se você foi criança nos anos 80 ou 90, lembra bem da época em que esse tipo de filme estava sempre entre os mais esperados pela galera, nem se fosse pra pegar uma exibição na TV aberta. Ninguém ligava muito se o roteiro era bobo ou se as atuações eram questionáveis, desde que o filme acertasse exatamente onde interessava: em divertir quem estava assistindo. Era socão na cara, explosões sensacionais, frases de efeito inesquecíveis, mulheres bonitas, muita testosterona e porradaria da melhor qualidade. Não tinha como não se empolgar e não sair imitando o chute giratório do Van Damme no Tong Po no dia seguinte na escola.

Jean Claude Van Damme em Kickboxer – O Desafio do Dragão

O enredo desses filmes era geralmente simples: em busca de justiça, geralmente por um ente querido sequestrado ou um amigo morto, o protagonista se transforma num verdadeiro exército de um homem só e sai explodindo tudo o que vê pela frente, dando conta de uma verdadeira legião de inimigos armados sozinho, nem que seja só com uma faquinha na mão.

Outros clichês do gênero incluem:

*Guerreiro que participa de torneio de artes marciais obscuro para honrar o mestre ou vingar um amigo, com direito a uma cena de treino ao mesmo tempo torturante e inspiradora;

*Policial durão bate de frente com uma poderosa organização criminosa que domina as ruas da cidade;

*Ex-boina verde do exército americano é chamado de volta para uma última missão;

*Sequestraram a mulher/filha/namorada/cachorro do herói, e por isso ele vai matar meio mundo;

A lista é enorme e os homens que estrelavam esses filmes também. Foram estrelas do naipe de Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis e Jean Claude Van Damme que moldaram o caráter de muita gente na base da porrada bem dada, mas também mostrando que podiam superar qualquer dificuldade, o que geralmente acontecia numa cena de treino super inspirada ao som das melhores power ballads dos anos 80.

Arnold Schwarzenegger em Comando Para Matar: exército de um homem só

Não dá pra esquecer, é claro, da galera menos famosa, da “segunda divisão”, dos filmes B: Mark Dacascos, Lorenzo Lamas, Billy Blanks e Michael Dudikoff também protagonizaram filmes que ficaram na memória, como American Ninja e Esporte Sangrento. Quem aí ficava acordado até tarde para acompanhar esses caras distribuindo bordoada em bandido na saudosa Sessão Kickboxer da Band? Eu sei que eu ficava.

Esses atores se tornaram baluartes do cinema de ação, praticamente avatares desse gênero, como se fossem encarnações do próprio. A história deles de confunde com a história dos filmes de ação. Assim como Sonic ou Mario são associados instantaneamente aos games, Stallone e Van Damme são ligados automaticamente a essa categoria de filme. Mas embora a década de 80 tenha visto uma quantidade absurda dessas produções, elas não surgiram por lá.

Nos anos 70 já havia Harry Callahan, personagem imortalizado nos cinemas por Clint Eastwood em Dirty Harry: Perseguidor Implacável, de 1971. Junto com ele também tinha o sempre sério Charles Bronson em Desejo de Matar. Esses filmes acabaram se tornando algumas das primeiras franquias de ação, os transformando nos maiores heróis da época e sinônimos de masculinidade daquela década.

Clint Eastwood como Harry Callahan: os anos 70 tiveram seus heróis de ação

Na virada dos anos 70 para os 80, houve quem achasse que o gênero iria dar lugar à ficção científica, que estava em alta depois que Star Wars estourou, trazendo uma série de cópias de baixo (e alto) orçamento junto. O que aconteceu foi justamente o contrário. Nos anos seguintes, os filmes de ação dominaram os cinemas com ainda mais força, nos apresentando novos heróis e ajudando a firmar os anos 80 como a década mais criativa do cinema.

Como esquecer O Grande Dragão Branco, onde o Frank Dux de Jean Claude Van Damme encarava a montanha de músculos Chong Li no Kumite para honrar seu mestre e vingar seu amigo? Ou o soldado John Rambo, acuado por policiais corruptos numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos e usando tudo o que aprendeu na guerra para se defender? Não dá pra não ouvir Marion “Cobra” Cobretti falando “Você é uma doença e eu sou a cura” sem pensar por um momento o quanto você adoraria dizer isso pra alguém. Tem coisas que só os filmes de ação fazem pra você.

Stallone Cobra ganha de muito filme por aí no quesito “frases de efeito”

Mas a coisa mudou um pouquinho de figura na década seguinte.

Conforme os anos 90 iam passando, os filmes desse gênero foram saindo com cada vez menos frequência, talvez por saturação, quem sabe. Eles nunca pararam de vez de serem feitos (e como poderiam, certo?), mas foram aos poucos dando lugar comédias românticas ou filmes adolescentes. Nos anos 2000, os filmes de super-heróis foram se tornando a nova tendência, que hoje é responsável pelas maiores bilheterias do mundo. Desse modo, alguns dos atores que brilharam nos anos 80 foram ficando pelo caminho… e outros surgiram em seu lugar.

A nova geração de heróis de ação tem representantes de peso, embora num numero bem menor do que era visto na década de 80. Vin Diesel, Dwayne Johnson, Jason Statham e Liam Neeson – que não era muito desse tipo, mas que tomou gosto pela coisa – são ótimos exemplos. São atores polivalentes, carismáticos, preparados e não ficam apenas nos filmes de ação, encarando um drama ou uma comédia de vez em quando. Franquias como Busca Implacável, John Wick e Velozes e Furiosos, que já tem 8 filmes e um derivado a caminho, lotam salas de cinema no mundo inteiro, provando que esse modelo de filme continua firme e forte. Literalmente.

 

Dwayne Johnson e Jason Statham juntos em Hobbs & Shaw: a nova geração dos heróis de ação bem representada

Sem falar que Stallone e Schwarzenegger ainda estão por aí, mostrando que dá para sentir saudade do passado e ao mesmo tempo olhar com esperança para o futuro. Quem sabe até fazer um novo Os Mercenários de vez em quando só para celebrar os bons e velhos tempos, que tal? O importante é que, no frigir dos ovos, eles podem dormir tranquilos à noite sabendo que seu legado está em boas mãos. E nós também.

Confira algumas imagens de Velozes & Furiosos Apresenta:Hobbs & Shaw na nossa galeria:

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael