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Não há vergonha nenhuma em jogar no Easy!

Por Raphael Martins

Jogar vídeo game é uma das maneiras mais eficientes e divertidas de se relaxar, passar o tempo ou até mesmo se sentir melhor depois de uma grande decepção. É claro que você poderia dar longas caminhadas na praia, fazer aquele exercício básico, estudar pra passar direto sem ficar de recuperação ou ver aquele mesmo cara do violão tocando Raul Seixas na praça da sua cidade, mas vamos ser sinceros: se você está aqui lendo isso, provavelmente “jogar vídeo game” seria sua primeira opção.

Ou pelo menos deveria ser. Não anda sendo lá muito fácil ser gamer nos últimos tempos. Se você mora no Brasil, é ainda mais difícil: quase tudo é muito caro, beirando o inacessível. Mas tudo bem, preços elevados nunca nos impediram antes, meu ponto não é esse. A questão é que, com o advento da internet, qualquer pessoa com uma conexão decente em casa ganhou vez e voz, mas nem todas usam isso exatamente para o bem. Parte da comunidade gamer, que é uma minoria, mas que existe, mostrou que pode ser bem tóxica com toda e qualquer coisa que lhes desagrade, mesmo que não exista muito motivo pra isso.

Você gosta de um vídeo game e quer que todo mundo saiba? Se prepare pra ouvir, porque sempre tem tem um fã radical do console rival do outro lado pra xingar até a última geração da sua família. Não acha que o jogo que todo mundo está falando que é incrível seja tudo isso? Cuidado, pode vir um exército pra tentar de convencer do contrário na base da ignorância ou até mesmo duvidar da sua inteligência. Entrou naquele Fornite maroto ou Lolzinho da galera pra dar uma relaxada ou pra mandar ver no competitivo? Pode ter um moleque mal-educado só esperando um erro mínimo da sua parte pra encher o seu saco e fazer sua vontade de jogar ir pro espaço. Se você for uma garota, então…

Sempre aparece um desses durante a partida online…

Hoje parece existir a cultura do “currículo gamer”, onde para você ser mesmo um fã de games “de verdade”, é preciso provar constantemente que realmente joga. Tem que mostrar quantos jogos zerou, quantos troféus conquistou… ah, e não pode jogar no easy.

Se vocês jogam no modo mais fácil, meus caros leitores, eu tenho uma má notícia para dar a todos vocês: vocês são uma farsa. São fracos, patéticos, não merecem segurar um controle nas mãos e deveriam voltar para o colo da mamãe… pelo menos segundo essa galera. Na opinião desse pessoal, jogar no easy é uma humilhação passível de cyber-bullying por tempo indeterminado.

Mas quando exatamente jogar no modo mais fácil se tornou uma pena capital? Quem foi que determinou como e de que maneira você deve experimentar seu jogo preferido? Por acaso existe uma lei da internet que criminaliza a seleção da opção “easy“? Bem, eu não tenho a resposta para essas perguntas, mas tenho algumas considerações sobre isso.

Quando está só você e a tela, controle na mão, olhos parados sobre o menu principal, tudo o que acontecer dali em diante será inteiramente com você. VOCÊ decide como quer passar suas próximas horas. Se quer ter o prazer de um bom desafio ou simplesmente acompanhar uma boa história, saboreando os aspectos técnicos do jogo, controles, ambientação, trilha sonora. Ao contrário do que você pode ter lido ou ouvido por aí, não há nada de errado em jogar no modo fácil, se é como você acha que vai se divertir mais, ter um quality time melhor. Não há certo e errado no mundo dos games, aliás. Pisar em tartarugas na rua ou arrancar a cabeça de um desafeto com espinha dorsal e tudo é de boa em um jogo, mas vocês não fariam isso na vida real, certo (não respondam)?

Dando um testemunho pessoal, eu amo Mega Man. A franquia do robô azul da Capcom é famosa principalmente pela sua dificuldade enlouquecedora, por vezes até injusta. Do primeiro ao recente Mega Man 11, eu terminei todos, mas confesso que o que me conquistou não foi a dificuldade. Ao chegar no final, é claro que eu sentia aquela sensação boa do dever cumprido, da vitória suada… mas ao mesmo tempo, que eu não precisava ter sofrido tanto, gritado mil palavrões a plenos pulmões sem nenhum pudor, arremessado o controle contra a tela e passado muita, mas MUITA raiva.

Ninguém precisa disso na vida. Não. Os motivos pelos quais eu continuo voltando aos jogos clássicos de Mega Man são outros. É o design de fases genial, os inimigos criativos, os comandos simples, as mecânicas de jogo -o sempre multitarefa cãozinho Rush é sensacional- e principalmente a trilha sonora, sempre envolvente, empolgante e gostosa de se ouvir. Para mim, essas são as coisas que tornam Mega Man uma franquia única.

Mega Man: muito mais que apenas um jogo difícil.

Mega Man, pelo menos os jogos mais antigos, não te dão a opção de escolher o modo mais fácil, mas se tivessem, acho jogaria desse jeito sem nenhuma vergonha de admitir. Claro que eu não descartaria as dificuldades mais elevadas pelo resto da vida, mas é sempre bom ter a opção. Jogar vídeo game é uma das experiências mais pessoais que existem, e nem sempre você está com cabeça pra desafios e só precisa de um pouquinho de diversão pra se sentir melhor. E se te dá mais prazer experimentar um game com uma dificuldade menor, quem pode te julgar?

Outro bom exemplo é a franquia Dark Souls, igualmente celebrada pela dificuldade impiedosa. Pra galera que curte um desafio realmente grande, com uma ambientação sombria e opressora, é um prato cheio. Você anda de mãos dadas com a morte a cada passo da jornada, e depois de morrer tantas vezes por horas a fio, você se acostuma, encara numa boa e tenta de novo. Ou quebra o controle no chão antes de voltar a jogar, aí vai de cada um. O ponto é: quem joga Dark Souls sabe no que está se metendo. E gosta. E não devia ser julgado e taxado de “masoquista” por isso, assim como a galera que joga no easy não deveria ser perseguida. Não existe bobo no futebol e nem nos games, e não precisa apresentar a carteirinha do clube dos mini-gameiros pra provar isso.

Dark Souls é uma referência em dificuldade impiedosa

A lição que fica, meninos e meninas, é uma só: não sejam babacas. Nem nos games, nem na vida. É bom, saudável e conserva os dentes. Sua sanidade mental, e a nossa, agradecem.

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael