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Mortal Kombat Conquest: A série de TV baseada no game!

Por Raphael Martins

Em 1992, a industria dos games mudou para sempre após o lançamento de um jogo de luta que misturava misticismo, filmes chineses de Kung Fu e sangue, muito sangue. É claro que estamos falando de Mortal Kombat, tradicional franquia de fighting games que, mesmo após 27 anos no mercado, permanece atual e mobilizando cada vez mais fãs.

Mas se hoje a série continua popular, com um novo game a ser lançado dentro de poucos meses, nos anos 90 a coisa atingia níveis estratosféricos. Era simplesmente impossível escapar de Mortal Kombat, que atraía as pessoas tal qual Scorpion usando seu arpão contra um lutador incauto. O ápice de todo esse boom sanguinolento foi o filme, lançado nos cinemas do mundo inteiro em 1995 e lembrado até hoje como uma das adaptações de games mais fieis já produzidas. Como esquecer aquela música tema? Não dá.

Uma sequência foi feita dois anos depois, chamada Mortal Kombat: A Aniquilação, mas essa é uma produção tão ruim e pouco inspirada que os fãs da série preferem esquecer. Apesar do fracasso nas bilheterias e de ser lembrado como uma piada de mau gosto, Aniquilação não foi a última tentativa de contar as aventuras dos personagens do game com atores reais. Um ano mais tarde, chegava às telinhas dos Estados Unidos a primeira (e até agora única) série de TV em live action baseada no jogo, que marcaria a vida de muita gente: Mortal Kombat Conquest.

Mortal Kombat Conquest quis fazer na TV o sucesso que os filmes fizeram no cinema

Anunciada em 1998 através de várias revistas especializadas em games, a série foi produzida pela New Line e a Threshold Entertainment, as mesmas responsáveis pelos filmes para cinema. No começo, era chamada Mortal Kombat: Crusade, mas acabou tendo seu nome mudado durante a produção para que as pessoas não a confundissem com uma outra série de mesmo nome, que também estava sendo veiculada na mesma época.

As gravações começaram no mesmo ano, sendo feitas em um dos parques temáticos do Walt Disney World, em Orlando, chamado Splendid China. Visitantes do parque podiam acompanhar algumas das gravações e até mesmo tirar fotos com o elenco ente um intervalo e outro. As filmagens da primeira temporada duraram cerca de 9 meses, custando aos cofres da Threshold e da New Line cerca de 16 milhões de dólares, um valor bastante elevado para uma série de TV nos anos 90.

Após meses de expectativa e de hype gerados pelas revistas de games e pelos próprios fãs, Mortal Kombat Conquest finalmente estreou nas telinhas americanas em agosto de 1998 no canal TNT, bem depois do WCW Monday Nitro, um popular programa de luta livre, o que para a série era ótimo. Dessa maneira, ela atrairia tanto os entusiastas de luta, que já viriam “quentes” depois do wrestling, quanto os fãs do game.

A premissa da série tinha o objetivo de contar histórias anteriores aos acontecimentos dos filmes, para eventualmente fazer sentido dentro deles. Em Conquest, acompanhamos as aventuras de Kung Lao, antepassado de Liu Kang. Após vencer Shang Tsung no Mortal Kombat e salvar o Plano Terreno por mais uma geração, deve se preparar para o próximo torneio e recrutar outros guerreiros para lutarem pela Terra. Junto com seus amigos, o guarda Siro e a ladra Taja, Kung Lao enfrentará guerreiros mortais de outros mundos e personagens famosos vindos dos jogos, sempre auxiliado por Raiden, o deus do trovão.

O elenco principal era formado por Paolo Montalban, filho de Ricardo Montalban (o Kahn de Star Trek) como Kung Lao; Daniel Bernhardt, famoso dublê de ação, como Siro; Kristanna Loken, que mais tarde faria O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas ao lado de Arnold Schwarzenegger, como Taja; e Jeffrey Meek, que interpretava ao mesmo tempo Raiden e Shao Kahn.

Siro, Taja e Kung Lao: os heróis de Mortal Kombat Conquest

A série trazia vários elementos dos jogos que não puderam ser explorados nos filmes ou sequer foram mencionados por eles, expandindo o universo que eles criaram. O ninja Reptile e a raça dos reptilianos de Zaterra, por exemplo, tiveram sua história contada com muito mais detalhes. Também foi mostrada a origem do clã do Dragão Negro, organização criminosa da qual o assassino Kano, inimigo numero 1 de Sonya Blade, fazia parte. O clã Lin Kuei, de onde vem o ninja Sub-Zero, é mais uma parte importante da mitologia do jogo que foi representada na série.

Mas a produção também tomou certas liberdades criativas com alguns personagens famosos, que tiveram suas origens completamente alteradas. Scorpion, por exemplo, era um dos guardas do pai de Jen, namorada de Kung Lao, que é picado por um “escorpião enfeitiçado” e é tomado pelo espírito da vingança, se transformando no ninja amarelo. É, meio tosco, a gente sabe. Mas era o que tinha naquela época.

Entre os pontos fortes da série, estão as cenas de luta, muito bem coreografadas e executadas de uma maneira que empolga qualquer um. As atuações do elenco principal também são bem acima da média, com destaque para os sensacionais Raiden e Shao Kahn de Jeffrey Meek. Seu deus do trovão é bem mais zoeiro que o de Christopher Lambert, mas pode ser bastante imponente quando está sério. O mesmo pode ser dito de sua interpretação de Shao Kahn, que passa toda a malícia e crueldade que Brian Thompson tentou imprimir ao personagem em Mortal Kombat: A Aniquilação e fracassou.

Jeffrey Meek como Shao Kahn: o melhor ator a encarnar o grande vilão da série até hoje

Uma das maiores preocupações dos fãs de Mortal Kombat era com os efeitos especiais. Afinal, magia, poderes e feiticeiros demoníacos são parte importante da lore da série. Quanto a isso, todos respiraram aliviados ao verem que eles eram bastante decentes para uma produção feita para a TV naquela época. O que não funcionava bem era a sexualização, por vezes forçada, das personagens femininas. A série contou com nada menos que 9 capas da Playboy aparecendo com roupas sumárias em vários episódios, num contexto sensual demais para uma franquia como Mortal Kombat. Isso gerava uma certa estranheza, mas com certeza fez a alegria da molecada mais velha que assistia a série.

O que é curioso, no entanto, é como a série parece ter “previsto” certos acontecimentos que só seriam vistos nos jogos muitos anos mais tarde. O personagem Mestre Cho, por exemplo, pode ter servido de inspiração para Bo Rai Cho, que só apareceria em 2002 no game Mortal Kombat: Deadly Alliance. A própria aliança mortal entre Shang Tsung e Quan Chi, que é todo o mote deste mesmo jogo, aconteceu primeiro em Conquest. Se a série de fato inspirou Ed Boon nos próximos rumos que a franquia tomou, talvez nunca saibamos. Mas que é coincidência demais, ah, isso é.

Bruce Locke como Shang Tsung: as origens do personagem são mostradas na série

Apesar de ter se tornado popular e de ter sido bem recebida pelos fãs, Conquest custava caro demais para os cofres da Threshold Entertainment e da TNT. Assim sendo, a série acabou cancelada depois de apenas uma única temporada, que durou 22 episódios. O final foi bastante polêmico pela maneira com que os produtores decidiram encerrar a história: com a vitória de Shao Kahn e todos os heróis mortos. Embora alguns tenham gostado, é algo que não faz o menor sentido dentro da mitologia de Mortal Kombat, uma vez que é estritamente proibido que o imperador da Exoterra viole as regras sagradas do torneio criadas pelos deuses ancestrais e invada o Plano Terreno.

Negociações para continuar a série em um outro canal foram feitas, mas isso acabou não acontecendo. Para resolver os eventos que o final controverso apresentou e tapar os buracos na história que o cancelamento da série causou, uma linha do tempo oficial foi lançada na internet, revelando que os deuses ancestrais puniriam severamente Shao Kahn por sua traição e fariam tudo voltar a ser como era antes, para que a história pudesse seguir seu curso e, eventualmente, se ligar aos filmes feitos para o cinema.

Com o cancelamento da série, o jeito foi lançar uma linha do tempo oficial na internet para os fãs que ficaram órfãos

Aqui no Brasil, Mortal Kombat Conquest foi exibida pelo Warner Channel e o SBT, deixando saudades nos fãs que viveram aquela época tão especial para a franquia como um todo. Não era uma série perfeita, mas agradava em cheio quem queria ver muita ação com os personagens dos jogos e porradaria da melhor qualidade.

Fique agora com nossa galeria de imagens de Mortal Kombat 11, o próximo game da franquia:

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael