Matrix: Relembrando dias de um futuro ilusório

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Matrix: Relembrando dias de um futuro ilusório

Por Raphael Martins

Sabe aquele filme ou música que te faz lembrar de uma época distante da sua vida, algo tão intimamente ligado a aquele tempo que é até difícil desassociar um de outro? Assim é Matrix, uma série de filmes feitos entre 1999 e 2003 que marcou aquela geração, mas que parece ter ficado por lá. Mas como uma franquia que já fez tanto sucesso e que rendeu milhões de dólares para a Warner Bros pôde ter simplesmente ficado pelo caminho? É o que nós vamos, pelo menos, tentar entender.

No dia 21 de maio de 1999, há quase 20 anos, Matrix estreava nos cinemas do mundo inteiro como gosto de novidade. Envolvendo ao mesmo tempo um futuro distópico, máquinas assassinas, filosofia oriental e muito Kung Fu, o filme era algo original em meio há muitas adaptações de livros e revivals de franquias consagradas do passado, como Star Wars e sua trilogia prequel. E tanto público quanto crítica souberam reconhecer isso.

A crítica, aliás, se derreteu de elogios para a produção. Palavras como “genial” e “intenso” eram comuns em resenhas críticas sobre ela. Mas nada poderia se comparar à reação do público, que se engajou ao filme de tal forma a ponto de mergulhar de cabeça no enredo e questionar a própria realidade. Isso mesmo, levar o enredo de um filme a sério nesse nível não é algo que se vê sempre por aí.

Matrix chegou ao boca-a-boca da escola, às discussões da roda de amigos no barzinho e às mesas redondas de filósofos. Todo mundo falava sobre o que tinha visto e como tinha compreendido a história, e cada pessoa parecia ter uma opinião diferente sobre. Mas afinal, o que era a Matrix? Tal qual o mundo real das telas, era algo que tinha que ser visto por si mesmo para ser digerido, assimilado e compreendido.

Matrix misturava conceitos filosóficos e a porradaria do oriente com a ação explosiva do ocidente

Vamos relembrar a história: o programador Thomas Anderson, que na internet era mais conhecido como o hacker Neo (Keanu Reeves), sente que há algo de muito errado acontecendo com o mundo e sempre se depara com o termo “Matrix” na internet. É então que ele é contactado por uma mulher misteriosa chamada apenas de Trinity (Carrie-Anne Moss), que lhe diz que um tal de Morpheus (Lawrence Fishburne) tem todas as respostas para os seus problemas. Após ser perseguido pelo implacável Smith (Hugo Weaving) e seus agentes, Neo finalmente encontra Morpheus e descobre a verdade: o mundo onde ele viveu sua vida inteira não passa de uma ilusão criada pelas máquinas, que venceram uma guerra contra a humanidade e mantém os humanos presos em casulos, se alimentando de sua energia. Diante dessa verdade, Neo decide abandonar a vida que conhecia e se unir à rebelião de Morpheus, que acredita que ele é o escolhido que acabará com a guerra e salvará a humanidade.

Muito se discutia sobre o filme, em todos os seus aspectos. Os efeitos especiais e a direção de arte, por exemplo, eram algo nunca visto antes até aquele momento, com mudanças sutis de cor para separar o mundo da Matrix do mundo real e o uso constante de câmera lenta para aumentar a carga dramática das cenas de ação. A cena em que Neo se esquiva em câmera lenta das balas disparadas de um agente, num efeito que ficou conhecido como “bullet time”, se tornou emblemática e foi copiada a exaustão por praticamente todos os filmes e séries de comédia da época. As cenas de luta de tirar o fôlego, com muito Kung Fu e uso de cabos para fazer os atores quase voarem enquanto lutavam, foram coreografadas pelo chinês Yuen Woo Ping, uma das figuras mais influentes do cinema de ação de Hong Kong.

“Eu sei Kung Fu!”

Mas o que mais chamava atenção eram as questões filosóficas que permeavam a história, o dilema da escolha versus o controle, da liberdade, ainda que difícil, contra uma vida confortável enquanto escravo de um sistema opressor, indagações bastante pertinentes no mundo real desde o início dos tempos. As pílulas vermelha e azul oferecidas a Neo por Morpheus durante o filme, uma representando o despertar para a verdade e outra significando a segurança de uma vida falsa, se tornaram símbolos culturais.

Verdade dolorosa ou ilusão conveniente? A escolha é só sua.

Essa combinação nada comum de filosofia e ação deu muito certo e o filme rendendo $463 milhões de dólares ao redor do mundo, para a alegria da Warner Bros. Isso fez com que o estúdio desse carta branca para que os irmãos – hoje irmãs – Larry e Andy Wachowski desenvolvessem dois novos filmes, fechando uma trilogia. E foi aí que as coisas começaram a sair um pouco dos trilhos.

Em 2003, quatro anos depois do primeiro filme, Matrix Reloaded chegava ao mundo não só como um filme, mas como um projeto multimídia. Acompanhando o filme, havia uma série de quadrinhos e um jogo chamado Enter The Matrix, que serviria como um Tie-In do filme, se passando em paralelo a ele e deixando a história mais clara. Tanto o jogo quanto o filme foram, como era de se esperar, um sucesso… mas havia alguma coisa errada.

Muitos consideraram Matrix Reloaded uma experiência, embora divertida, pesada e angustiante. Não que o filme tivesse um tom mais pesado, não era isso. Todo o hype do público e a ambição do estúdio pareciam ter transformado o que era uma ficção científica concisa e bem amarrada num espetáculo de grandiloquência, com um tom épico inexistente no filme original, o que resultou em uma produção que se dava mais importância do que realmente tinha. Essa grandiloquência podia ser sentida no roteiro, que apresentava elementos demasiadamente complexos e se levava a sério demais em praticamente todas as suas duas horas e dezoito minutos de duração. A cena em que Neo encontra o Arquiteto da Matrix vivido por Helmut Bakaitis é um excelente exemplo disso.

O arquiteto: diálogos prolixos dignos de uma máquina e várias perguntas sem respostas

Apesar da sensação de estranheza, as pontas soltas que o filme deixou serviram para por mais lenha na fogueira da imaginação dos fãs mais teóricos da conspiração, o que manteve Matrix ainda na boca do povo. Como assim existiram outras versões da Matrix? Como assim Neo não era o único escolhido? Como assim Zion já havia sido destruída três vezes? Então o mundo real também não é real? Todas essas perguntas queimavam como fogo selvagem nas mentes dos fãs da franquia, que tinham a esperança de serem esclarecidos quando o terceiro filme da série, Matrix Revolutions, chegasse. Até lá, o público pôde conferir Animatrix, uma série de curtas animados com histórias separadas passadas naquele universo, algumas explicando com detalhes o que aconteceu durante a guerra entre os humanos e as máquinas.

Pois bem, o filme chegou e… não respondeu nada. Muito pelo contrário, deixou ainda mais perguntas no ar, perguntas essas que até hoje seguem sem resposta. O final também foi considerado insatisfatório, com Neo se sacrificando para acabar com a guerra sem que fosse esclarecido como ele podia usar seus poderes fora da Matrix. Não conseguindo segurar a bola de neve de hype e antecipação que a franquia se tornou, Matrix Revolutions acabou sendo uma experiência vazia, sem o frescor do primeiro filme e a sensação de perigo iminente do segundo. Essa insatisfação do público se refletiu na bilheteria, onde o filme faturou $288 milhões de dólares, menos que o primeiro longa da série.

A batalha final de Neo contra Smith é digna de um episódio de Dragon Ball Z e é um dos pontos altos do filme

E assim, Matrix terminou. A história continuou no game Matrix Online, que continuava a partir dos eventos ocorridos no terceiro filme, mas ninguém deu muita atenção e os servidores foram fechados menos de 4 anos depois. E essa franquia, que tinha tanto potencial para ser a próxima série duradoura dos cinemas, o próximo Star Wars, ficou para trás, no começo da década de 2000. Sua popularidade nunca esteve tão em baixa, não há nenhum projeto envolvendo esse universo, ninguém mais comenta sobre ela, ou faz cosplays, ou publica fanarts na web. Matrix está morta. Ou será que não?

De acordo com o roteirista Zak Penn, um novo filme de Matrix estaria sendo desenvolvido pela Warner, embora não se saiba se seria um prequel, um reboot ou uma sequência da trilogia. Keanu Reeves e Hugo Weaving disseram que estão dentro, desde que o roteiro seja bom e que ele receba a benção das irmãs Wachowski, que a princípio não estariam envolvidas do desenvolvimento. Se realmente isso vai acontecer, nós não sabemos, mas esperamos que, se Matrix voltar, que volte com aquele mesmo frescor, emoção e imersão que fez o mundo parar pra ver quando tudo começou.

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael