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Locadoras de games no Brasil: Mais que diversão, um estilo de vida!

- – Só quem viveu sabe!

Por Raphael Martins → Consoles e jogos de vídeo game no Brasil nunca foram baratos, mas durante os anos 80 e 90, eles eram praticamente inacessíveis. Pouquíssimas pessoas tinham condição de levar um Mega Drive ou um Super Nintendo para casa, e se tinha, era a criança mais popular da sala. Mas o brasileiro, ah, o brasileiro… ele sempre dá um jeitinho.

Para a alegria da molecada, existiam as queridas locadoras de games, que por um precinho bem camarada, te deixavam curtir os jogos mais quentes do momento, não importava para qual console fosse. Em uma época onde ter um vídeo game em casa era difícil, as crianças da época sempre podiam contar com elas para aproveitar a onda. Foi assim que se deu a “formação gamer” de muita gente na casa dos 25 ou 30 anos.

Para essa geração, uma locadora não era só um lugar pra se jogar. Era um templo.

Aqui não tinha cadeira gamer: um assento de plástico e uma TV de tubo eram o suficiente para horas de diversão

A história das locadoras brasileiras começa ainda nos anos 70, quando donos de Atari que moravam em condomínios abriam as portas de casa para deixar a galera jogar, por um preço. Eventualmente, alguém evoluiu a ideia, e nos anos 80 já haviam lugares específicos para isso, abastecidos por vários clones brasileiros do Nintendinho, que ainda não era fabricado no Brasil devido à lei de reserva de mercado.

Mas foi nos anos 90 que a coisa explodiu de verdade. Com o advento do Mega Drive e do Super Nintendo, esse modelo de negócio se espalhou por todo o país, criando toda uma geração de gamers e mudando a vida de muita gente. Eu mesmo, o autor deste texto, talvez nem estivesse aqui no Legião dos Heróis escrevendo isto para vocês se não tivesse frequentado muitas locadoras quando era criança!

Com o crescimento do negócio, a coisa foi ficando mais séria e surgiram as primeiras grandes cadeias de locadoras. A mais famosa delas, a Progames, praticamente padronizou como toda locadora-modelo deveria ser, da estrutura interna a regras de convivência com os clientes. Ela tinha inclusive a própria revista com várias dicas e segredos dos games mais quentes.

Mas como era o ambiente de uma locadora? Para uma criança apaixonada por jogos, era como entrar num mundo alternativo, onde a tecnologia daquelas máquinas de diversão eram indistinguíveis de magia. 

Master System, Mega Drive e Super Nintendo disponíveis para jogar: máquinas de sonhos

Primeiro, uma infinidade de sons invadiam os ouvidos. Os gritos da torcida de International Superstar Soccer, a inconfundível voz de Ryu disparando o seu hadouken em Street Fighter ou trilha sonora de Top Gear. No balcão, doces, salgados e todo tipo de guloseimas pra acompanhar a jogatina. Depois, encarando uma enorme parede com dezenas de jogos enfileirados, era hora de escolher seu destino… que aventura viver pelas próximas horas?

Jogo escolhido e quantidades de horas pagas (o que geralmente não costumava custar muito), era hora de sentar na frente da TV de tubo e encarar sua missão. Mas muitas vezes, não se fazia isso sozinho. Quem ia muito na locadora mais próxima acabava inevitavelmente fazendo amizade com outros frequentadores, formando uma turma de amigos que se encontravam pra se divertirem juntos sempre que sobrava alguma graninha do lanche da escola.

A verdade é que pouca gente ia em locadoras só para jogar. Elas costumavam ser o local onde amigos se encontravam para pôr o papo em dia, rir juntos e compartilharem vitórias e derrotas na frente do vídeo game. Alguns até tinham esses lugares como um segundo lar, um local onde se sentiam mais confortáveis até que na própria casa.

Mas com tanta criança reunida, é claro que deveriam haver regras, senão imperava a anarquia. Gritar era permitido, mas algumas não deixavam nenhum palavrão passar. Derrubou o controle? Menos dez minutos. Saiu na porrada com um amiguinho depois de uma derrota vergonhosa? Um crime passível de banimento, por vezes até por tempo indeterminado.

Campeonatos entre os frequentadores eram o evento da molecada do bairro

Locadoras vinham em todas as formas e tamanhos, da mais simples, com poucos consoles, a lojas enormes com centenas de títulos e produtos relacionados para vender. Não importava. Em todas elas, lá estavam os jogadores, revista de game debaixo do braço, prontos para debulharem um jogo novo.

E eram tantos jogos! Toda locadora que se prezasse tinha que obrigatoriamente ter alguns deles, porque, bem, toda locadora tinha: Aladdin, Top Gear, Mortal Kombat, Street Fighter, Superstar Soccer, Streets of Rage… era praticamente impensável entrar em um desses lugares e não encontrar as caixas desses games na parede, esperando para serem escolhidas.

Para as muitas crianças que viveram intensamente aquela época, frequentar uma locadora era um estilo de vida. Mas como todas as coisas, aquilo não poderia durar para sempre. O tempo foi passando, a economia foi melhorando, o poder de compra do brasileiro também, e os consoles foram começando a ficar mais acessíveis. Assim, pouco a pouco, foi-se perdendo a necessidade de gastar dinheiro para jogar em outro lugar, afinal, o vídeo game de sua escolha agora estava na sua casa, e não fora dela.

Em meados dos anos 2000, as locadoras de games foram sumindo, ou se adaptando aos novos tempos e se transformando em Lan Houses. Mas elas nunca desapareceram de fato, e ainda existem alguns lugares onde, mesmo décadas depois, a tradição continua.

Locadoras na atualidade: elas ainda existem, você só precisa procurar

Algumas coisas são atemporais. Música de qualidade, um bom livro, games feitos com esmero e amizades verdadeiras. Mencionando agora uma experiência pessoal, tive a oportunidade de ver reencontros emocionantes de amigos que há muito não se viam dentro de um desses lugares resistentes ao tempo, que transformaram o ato de se verem para jogar em um hábito recorrente.

Em várias partes do Brasil, ainda há onde se encontrar para jogar, dos clássicos às novidades, do Atari ao PlayStation 4, do passado distante ao movimentado presente. Por vezes, até mesmo com a mesma turma que cresceu junta naqueles anos dourados.

Em Fortaleza, cidade onde moro, posso citar o exemplo da Hamilton Games, que tanto vende jogos e consoles antigos quanto disponibiliza consoles de todas as gerações para quem quiser experimentar pela primeira ver ou reviver um passado cada vez menos distante.

Gerações de jogadores se encontram semanalmente na Hamilton Games, em Fortaleza

Hoje em dia se tem a facilidade de comprar jogos por um bom preço na Steam, de parcelar um console atual ou de simplesmente emular algum game mais antigo. Mas mesmo com todas essas vantagens, quem viveu aqueles tempos simples, mas difíceis, continua lembrando com saudade de tudo o que viveu naqueles lugares cheios daquela mágica infantil que uma vez que se perde, é difícil reencontrar.

Se você é uma dessas pessoas, recomendo fazer aquela busca básica aí na sua cidade. Vai que você encontra uma locadora com algum velho amigo dentro?

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sobre o autor Raphael Martins

Já fui um pouco de tudo: apresentador de TV, repórter, roteirista e hoje sou redator nesse noblário site. Gosto de longas caminhadas na praia, HQs, games, tokusatsu, cinema e filé com fritas. Você pode trocar uma ideia comigo e me ver reclamar da vida no Twitter @aqueleraphael