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Lendas das Artes Marciais – Jean-Claude Van Damme!

Por Raphael Martins

Jean-Claude Camille François Van Varenberg, ou simplesmente Jean-Claude Van Damme, fez parte da vida de muitas crianças e adolescentes que cresceram nos anos 90. O astro de ação mais quente daquela estava em todo lugar, seus filmes eram grandes sucessos de bilheteria e não era difícil ver algum moleque tentando dar seu famoso chute voador na escola, empolgado depois de ver algum longa do ator.

Hoje ele não faz o mesmo sucesso que fazia no passado, mas nunca foi esquecido e continua tão popular quanto sempre foi, principalmente aqui no Brasil. Filmes como O Grande Dragão Branco, Kickboxer: O Desafio do Dragão e Soldado Universal marcaram época com suas inúmeras reprises na TV aberta e são sempre lembrados com saudade como os grandes clássicos que são. A trajetória do ator é cheia de altos e baixos, de momentos de glória e tragédias pessoais, uma vida tão intensa que por si só daria um filme.

Se você era jovem nos anos 90, com certeza já viu Van Damme quebrando tudo

Jean-Claude Van Damme nasceu em Berchem-Sainte-Agathe, na Bélgica, em 18 de outubro de 1960. Um garoto mirrado, começou a praticar karatê shotokan aos dez anos por influência do pai, que logo notou que ele levava jeito para a coisa. Aos 12, já fazia parte da seleção belga de Karatê,  Participou de vários campeonatos pela Europa, conquistando vitória atrás de vitória e se tornando campeão europeu. Aos vinte anos, sua contagem oficial era de 44 vitórias e 4 derrotas, em campeonatos disputados entre 1976 e 1980.

Além do Karatê, Van Damme também praticou Taekwondo e Muay Thai, mas a característica pela qual ele é mais lembrado, sua incrível flexibilidade, veio do balé. Aos dezesseis anos ele começou a praticar a dança, a qual se dedicou por cinco anos ininterruptos. Segundo ele próprio, “o balé é uma arte, mas também é um dos esportes mais difíceis de todos. Se você puder sobreviver a um treino de balé, pode sobreviver a qualquer treino em qualquer esporte.”

Mas a Europa se tornou pequena demais para Van Damme, que tinha o sonho de brilhar em Hollywood como um astro de filmes de ação, inspirado por seus ídolos Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e Charles Bronson. Assim, em 1982, com apenas $150 dólares no bolso, ele vai com um amigo para a América, decidido a deixar sua marca por lá. Seu primeiro trabalho no cinema foi como um figurante em Breakin’, de 1984, um filme com muita música e dança, onde é visto demonstrando seus dons de dançarino no fundo de uma das cenas.

Pouco tempo depois, ele se torna um bom amigo da lenda Chuck Norris, com quem passa a treinar. Sempre disposto a ajudar quem quer que fosse sem nunca exigir nada em troca, Norris dá uma força para Van Damme, primeiro lhe arranjando um emprego como segurança em seu bar, depois como um dos extras de seu maior sucesso, Braddock: O Super Comando, de 1984.

No ano seguinte, veio sua primeira grande chance com o filme Retroceder Nunca, Render-se Jamais, onde ele vivia o vilão, um lutador de aluguel russo que derrota o pai do protagonista e destrói sua academia. Treinado pelo espírito de Bruce Lee (!!), o garoto Jason desafia o personagem de Van Damme em um duelo final explosivo. O filme não foi exatamente um sucesso arrasador de bilheteria, mas agradou em cheio seu público alvo e e colocou o ator definitivamente no mapa.

Foi apenas após uma malfadada participação como dublê em O Predador, onde interpretaria o monstro do título, que Van Damme finalmente alcançou seu tão sonhado estrelato, no clássico supremo das artes marciais O Grande Dragão Branco, de 1988.

A maneira como a qual o ator conseguiu o papel principal é bem pouco ortodoxa, mas funcionou: em uma manhã comum de terça-feira, o aspirante a astro surpreendeu o produtor Menahem Golan, da Cannon Films, enquanto este almoçava em um restaurante perto de onde ele morava.

Van Damme o levou para fora e começou a mostrar a ele todo seu repertório de golpes e sua desenvoltura. O produtor ficou impressionado, e sem nenhuma cerimônia, contratou o ator na mesma hora. Meses depois, O Grande Dragão Branco, estrelando Jean-Claude Van Damme, era um enorme sucesso de bilheteria, levando multidões ao cinema. Nascia ali o novo grande herói de ação das telonas.

Daí para frente, o rapaz de 28 anos não parou mais, emplacando sucesso atrás de sucesso e se tornando cada vez mais famoso, alcançando o mesmo nível de seus ídolos do passado. Entre seus grandes sucessos que se seguiram, estão Kickboxer: O Desafio do Dragão, Leão Branco: O Lutador Sem Lei, Duplo Impacto e Soldado Universal, sendo este último um de seus maiores sucessos de bilheteria de toda sua carreira.

Ele entrou nos anos 90 como um dos atores mais procurados e bem pagos de Hollywood, e como todos nós sabemos, isso tem seu lado negro. Foi naquele período que o ator começou a entrar em contato com drogas pesadas, sendo o álcool e a cocaína. Em uma entrevista dada após sua recuperação, ele chegou a dizer que gastava cerca de $10 mil por semana com cocaína e que cheirava 10 gramas por dia.

A própria personalidade do ator não ajudava em nada. Conhecido por ser narcisista, ele tirava a camisa e mostrava seus dotes físicos em toda oportunidade que podia, fossem eventos ao vivo, entrevistas na TV e até mesmo em tapetes vermelhos, o fazendo estampar as capas dos maiores e mais escandalosos tabloides do mundo.

Aqui no Brasil ele também aprontou: em uma participação no Domingo Legal, ele protagonizou uma cena no mínimo constrangedora ao lado da cantora Gretchen, algo que o brasileiro nunca conseguiu esquecer e que até hoje rende memes.

O estrelismo exacerbado e o vício em drogas tornaram sua vida pessoal e profissional muito difícil. O infame Street Fighter: A Batalha Final teve uma produção conturbadíssima, onde o ator se atrasava todos os dias para as gravações (isso quando aparecia), usava drogas no intervalo das gravações e tornava a vida de todos em sua volta um inferno.

O filme saiu, ninguém gostou e a carreira do ator começou a entrar lentamente em parafuso depois disso.

Van Damme como o coronel Guile em Street Fighter: comportamento do ator transformou a gravação em um inferno

Foram anos e anos de fracassos seguidos e nenhum estúdio grande queria mais se envolver com Jean-Claude Van Damme. Ele estava acabado… até finalmente organizar sua vida e dar a volta por cima.

Depois de vários filmes feitos direto para o mercado de home vídeo o ator lança JCVD, um drama semi-autobiográfico onde ele interpreta a si mesmo e mostra sem nenhum pudor seus problemas com as drogas. O filme humaniza o astro de ação de uma maneira tão real que dói.

Não foi um sucesso de bilheteria, nem foi pensado para ser. Mas a crítica especializada se derreteu em elogios e o filme se tornou uma verdadeira máquina de ganhar prêmios, arrancando aplausos de pé em todos os festivais de cinema pelo qual passou. Van Damme era querido de novo.

Na década de 2010, ele continuou produzindo e estrelando seus próprios filmes para o mercado de home video, que além de ação, também carregavam muito drama. Mas não deixou de fazer grandes participações em filmes de orçamento multimilionário. Em 2011 ele dublou o Mestre Crocodilo em Kung-Fu Panda 2, e em 2012 foi o vilão de Os Mercenários 2, onde finalmente teve a chance de contracenar com Sylvester Stallone, um de seus grandes ídolos do passado.

Hoje, aos 59 anos, limpo e se levando bem menos a sério, Jean-Claude Van Damme faz filmes menores e de baixo orçamento, mas cheios de ação, drama, humor e coração. O ator vez por outra também participa de reality shows, comédias e comerciais, como o vídeo da Volvo onde ele faz um espacate épico entre dois caminhões, algo que viralizou na internet há alguns anos.

Um de seus trabalhos recentes mais divertidos é a série Jean-Claude Van Johnson, onde ele interpreta uma versão fantasiosa de si mesmo, um ator de ação que na verdade é um agente secreto treinado e superequipado.

Por seus sucessos no cinema e por sua história de vida, Jean-Claude Van Damme mereceu figurar entre as lendas das artes marciais, sendo um dos mais inesquecíveis heróis de ação que o cinema já teve. A cultura pop será grata para sempre a ele, e fica a nossa torcida para que ele não pare de trabalhar tão cedo e volte a emplacar sucessos, no cinema ou no Blu-Ray. Vida longa ao grande dragão branco!

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael