Capa da Publicação

Hokuto no Ken: A Lenda do Salvador do fim do século!

Por Raphael Martins

“Ano 199x O mundo foi destruído por uma guerra nuclear. Os oceanos secaram. A terra rachou. Quase todas as formas de vida foram extintas. Porém, a humanidade sobreviveu. A pessoas, desesperadas, rezavam por um salvador que pudesse trazer a luz de volta a aquele desolador fim de século…”

Assim começa Hokuto No Ken, ou “O Punho da Estrela do Norte”, um dos mangás mais influentes já feitos em toda a história, inspirando praticamente todos os animes do gênero shonen que vieram depois. Isso mesmo: Dragon Ball, Naruto, Cavaleiros do Zodíaco, Jojo’s Bizarre Adventure e outros grandes sucessos dos “shonen de lutinha” talvez nunca tivessem existido se Hokuto não tivesse vindo antes.

Com roteiro de Buronson e desenhos de Tetsuo Hara, o mangá começou a ser publicado pela antologia Shonen Jump em 1983, totalizando 245 capítulos e 27 volumes encadernados quando terminou, em 1988. Misturando elementos de Mad Max, filmes de Bruce Lee e com fortes influências de filmes pós-apocalípticos americanos, Hokuto No Ken rapidamente tornou-se um sucesso avassalador, que até hoje não perdeu força no japão, onde é visto como um dos maiores clássicos de todos os tempos.

Os personagens principais de Hokuto No Ken: quase todos os shonen de luta que vieram depois foram fortemente influenciados por este mangá

A história acompanha as aventuras de Kenshiro, um homem solitário que anda pelo que sobrou do mundo após uma devastadora guerra nuclear, espalhando a justiça por onde quer que vá. Em seu caminho estão gangues de motoqueiros musculosos e com muito pouco apreço pela vida humana, tribos de canibais, conquistadores sanguinários e outros artistas marciais, que promovem a violência, o mal e a injustiça.

Mas toda a valentia deles se quebra diante da força de Kenshiro, e não a toa: o herói da história é herdeiro de uma arte marcial milenar chamada Hokuto Shinken, que consiste em acertar os pontos vitais do adversário para causar diversos efeitos. Com suas técnicas, Kenshiro pode curar ferimentos e doenças e salvar vidas, mas também pode matar da maneira mais cruel possível: ao acertar os pontos de pressão de seus inimigos, eles explodem de dentro para fora, em cenas grotescas de violência. Mas apesar de sua pouca piedade para com o mal, Kenshiro é um homem gentil e de bom coração, que ajuda os fracos e os inocentes sem jamais pedir algo em troca.

Kenshiro não tem piedade de seus inimigos!

Além de sua descomunal força, Kenshiro também é conhecido por outra particularidade: ele ostenta em seu peito sete cicatrizes, que juntas formam a constelação da ursa maior. E assim, de povoado em povoado, enfrentando tiranos e libertando povos, a lenda do guerreiro vai se espalhando, inclusive entre lutadores tão poderosos quanto ele, que desejam tomar o mundo para si e o moldarem à sua imagem e semelhança.

Mas Kenshiro não é de todo solitário. O acompanhando em sua jornada estão duas crianças: Lynn, uma menina a quem Kenshiro devolveu a voz com uma de suas técnicas, e Bart, um garoto desbocado e problemático, mas que nunca foge da raia quando o assunto é ajudar seus companheiros. Juntos, os três encaram vários perigos e vão propagando a mensagem de que as pessoas podem voltar a ter esperança, pois Kenshiro está lutando por elas.

O sucesso do mangá foi tamanho que no ano seguinte do início do mangá, em 1984, um anime foi produzido pela Toei Animation. Logo na abertura, a série já dizia a que vinha ao som de Ai Wo Torimodose, da dupla de cantores Crystal King, que se tornou um clássico no Japão e está sempre ganhando regravações com cantores famosos da terra do sol nascente.

Assim como no mangá, o primeiro arco do anime mostra Kenshiro em busca de vingança contra Shin, o homem que o traiu e lhe infligiu as sete cicatrizes que tem no peito, roubando também Yuria, a amada do herói. Ele então sai em busca de Yuria, enfrentando o exército de Shin pelo caminho até chegar ao próprio, o derrotando em uma batalha violentíssima.

Após a derrota de Shin, Kenshiro descobre que seus irmãos de criação, também treinados pelo mesmo mesmo mestre na arte do Hokuto Shinken, continuam vivos, mas nem todos eles seguiram o caminho do bem. É então que entra em cena o poderoso Raoh, o grande vilão da história, que tenciona usar suas habilidades sem igual para devolver a ordem ao mundo através da força e do derramamento de sangue. Ah, quem pensou que ele também quer Yuria para si, acertou.

Além de toda a violência e técnicas de luta bizarras e sanguinolentas, Hokuto No Ken conquista principalmente por seus personagens. Até mesmo os vilões esbanjam carisma e presença de espírito, de modo que não é difícil ver alguém passando a torcer por Raoh, por exemplo. Entre uma luta e outra, Kenshiro se emociona, chora, dá discursos motivadores sobre força, esperança, amizade e amor, mas sem deixar de bater doído, é claro.

Outra coisa que conquista na hora no anime são suas peculiaridades. A trilha sonora é sensacional, mas é a dublagem que brilha. Ao dar seu golpe mais famoso, o Hokuto Hyakuretsu Ken, Kenshiro grita como o lendário Bruce Lee, respondendo a descrença de seus inimigos quanto a sua técnica com sua frase de efeito mais conhecida, que até virou meme recentemente: “Você já está morto!”

Tanto o anime quanto o mangá acabaram em 1988, mas a popularidade da série não morreu junto. Muito pelo contrário: assim como o próprio Kenshiro, ela só se tornava mais forte. Foram feitos inúmeros jogos de vídeo game, longa-metragens animados, histórias derivadas, livros e produtos de toda sorte. Ainda hoje, Hokuto No Ken tem projetos em andamento no Japão, como uma peça de teatro focada nos soldados rasos que Kenshiro mata pelo caminho e mangás spin-off com novas histórias com personagens consagrados.

Nos últimos anos foram lançados vários animes baseados na história original, como um conjunto de cinco filmes recontando os principais acontecimentos do anime, e a série animada Ten No Raoh, inteiramente focada no passado do maior e mais adorado vilão da história, ainda construindo seu nome e formando seu exército para conquistar a Terra.

Hokuto No Ken também foi a principal influência para quase tudo o que foi visto em outros mangás de ação voltados para meninos nos anos que se seguiram. O conceito da existência de uma energia espiritual de batalha visto em Dragon Ball ou as estrelas guardiãs tão faladas em Cavaleiros do Zodíaco, por exemplo, surgiram lá.

O estilo de desenho de Jojo’s Bizarre Adventure, com homens musculosos e expressões austeras e por vezes exageradas, foi claramente inspirada em Hokuto, como o próprio Hirohiko Araki já até cansou de admitir em incontáveis entrevistas. O drama da batalha com direito a lágrimas masculinas visto em várias obras do gênero também foi feito primeiro no mangá de Kenshiro.

Se aqui no Brasil a nossa referência de “anime de luta” é Cavaleiros do Zodíaco, lá no Japão é Hokuto No Ken. Caso você não conheça a obra mas curta o gênero, fica aqui a minha forte recomendação. Será uma jornada cheia de emoções, lágrimas e sangue como você nunca experimentou na sua vida. Siga a luz da constelação da ursa maior e testemunhe você mesmo a força invencível do Hokuto Shinken!

Imagem de perfil
sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael