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Há sim espaço para o sombrio e realista nos cinemas!

Por Gus Fiaux

Recentemente, os fãs tiveram a oportunidade de ver o primeiro vislumbre do filme solo do Coringa, graças ao teaser trailer lançado mundialmente pela Warner Bros. Já de início, o que nos pegou de surpresa foi a aura sombria e realista do próximo filme da DC Comics, que não vai se ambientar no mesmo universo compartilhado por franquias como Mulher-Maravilha e Aquaman.

O filme, dirigido por Todd Phillips (responsável pela trilogia Se Beber, Não Case!) vai mostrar uma vertente mais adulta do Palhaço do Crime, explorando a origem daquele que viria a ser conhecido como o maior vilão da história do Cavaleiro das Trevas.

Coringa chegou abrindo as portas para o sombrio e realista da DC nos cinemas.

Contudo, não é a primeira vez que alguém tenta trazer esse tom mais maduro para os filmes da DC. Se, de um lado, já tivemos a excelente trilogia do Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, que soube explorar o Batman como um herói humano em um mundo mais próximo do nosso, Zack Snyder por sua vez envisionava um universo bem mais sombrio do que estamos tendo agora, após sua saída do Universo Estendido da DC Comics.

O resultado disso pode ser visto em dois filmes, acima de tudo: Homem de Aço, que apresentou uma nova origem para o Superman, transformando-o em uma figura com falhas e defeitos, ainda no seu caminho para se tornar um verdadeiro super-herói; e Batman vs Superman: A Origem da Justiça, que dava continuidade a essa história além de nos apresentar a uma nova versão do Cruzado Encapuzado.

Ambos os filmes compartilham uma similaridade no que diz respeito à sua recepção: embora tenham sido bem elogiados e abraçados por uma parcela dos fãs, foram rechaçados na crítica, garantindo reações polarizadas e até mesmo afastando uma parte do público que estava acostumada com o colorido e divertido Universo Cinematográfico da Marvel.

Batman vs Superman não apenas dividiu os heróis, mas também a opinião do público.

E embora esses filmes tenham lá sua dose de qualidades e defeitos (sobretudo no que diz respeito aos seus roteiros e arcos dramáticos de personagens), uma crítica sempre pairava em comum: “o sombrio não combina com a DC ou com filmes de super-heróis no geral”.

E isso não é bem verdade. Ao menos, não por completo.

O grande problema dos filmes que seguiam a “onda Snyder” (e nesse sentido, Liga da Justiça é um caso à parte por ser um verdadeiro Frankenstein no que diz respeito à sua pós-produção e edição) foi justamente a ideia de sedimentá-los como os pilares de um universo compartilhado.

É um equívoco sem tamanho dizer que quadrinhos são todos bobos e alegres. Já tivemos diversos exemplares que comprovam o contrário e mostram como a mídia pode ser utilizada para compor tramas maduras, adultas e cheias de simbolismos que não são muito fáceis de entender para um público mais jovem.

Entretanto, quando pensamos no quadro geral dos universos compartilhados em cada editora – seja Marvel ou DC Comics –, a ideia por trás do cânone principal geralmente pende para algo mais leve, especialmente por conta do público-alvo. Pegue, como exemplo, as HQs clássicas da Liga da Justiça, do Superman e do próprio Batman. Todos eles sabem abraçar uma dose de ridículo e de divertido, sem comprometer as apostas emocionais e a densidade dramática.

Além disso, o papel dos super-heróis na mitologia ocidental sempre foi mais voltado para um elemento que andava em falta no Universo Estendido da DC Comics em seus primórdios: a esperança. O super-herói, a figura endeusada que lida com problemas avassaladores e vilões maléficos, sempre foi um arauto da esperança e da salvação.

Quando você destitui isso da representação desses personagens – em uma franquia estendida, que englobaria personagens amados do cânone dos quadrinhos – você também destrói por completo a ideia de que o mundo pode ser um local seguro, contrariando a regra Nº 1 do escapismo das HQs.

Não é à toa que histórias com um teor mais pessimista e adulto geralmente façam parte de universos paralelos ou toquem apenas tangencialmente a cronologia principal das editoras: Reino do Amanhã, Watchmen, O Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal e, fugindo um pouco da DC, Os Supremos e O Velho Logan são alguns dos exemplos.

Histórias adultas geralmente vão para selos mais isolados, como é o caso de Hellblazer, que faz parte da Vertigo.

Claro que isso não significa que as editoras não abraçaram algumas histórias pesadas em seu cânone central – basta ver exemplos como A Morte de Gwen Stacy, A Noite Mais Densa e diversos outros exemplares que lidam com temas definitivamente não recomendados para menores. Mas ao mesmo tempo, podemos perceber que a maior parte das histórias de teor mais adulto é relegada à “porta dos fundos”, seja em selos alternativos como a Vertigo e o Universo Ultimate, ou até mesmo ao luxuoso formato das graphic novels.

E tudo isso – principalmente a ideia de esperança – tem a ver com o público-alvo. Não adianta você, colega que afirma ter lido HQs desde 1900 e guaraná com rolha, exigir que os filmes, séries e até mesmo os quadrinhos atuais correspondam à sua maturidade e conhecimento de causa. O alvo das principais editoras (Marvel e DC) sempre esteve focado nas crianças e adolescentes.

Então, quando falamos de um universo compartilhado – franquias que podem se interligar formando uma teia de histórias – que envolve grande investimento de dinheiro por parte dos estúdios, precisamos levar em conta que o sistema cobra, como retorno, lucro pelo que é depositado em orçamentos, divulgação e marketing.

Ou seja, eles precisam de um público maior e mais amplo – e querendo ou não, tornar um longa em um “filme para toda a família” é quase sempre a garantia de que esse retorno financeiro vai acontecer.

Isso não significa, é claro, que a DC ou qualquer outra editora precisa seguir à risca a cartilha da Marvel Studios. Basta ver como a Fox, mesmo entre seus altos e baixos, sempre conseguiu se distinguir da Disney, criando filmes para todos os públicos, mas com propostas diferentes.

Agora, se você realmente quer ver franquias interligadas que possam continuar gerando lucro para serem produzidas, não tem como enfiar o “sombrio e realista” a torto e direito.

E é por isso que Coringa é uma ideia genial. O filme definitivamente vai abraçar temas e tramas que jamais teriam espaço em uma franquia voltada para um público mais amplo, gerando a possibilidade de que, no futuro, longas como Reino do Amanhã e talvez até mesmo A Piada Mortal possam ser totalmente incorporados aos cinemas.

A fórmula para isso é simples: basta isolá-los ou criá-los de uma forma que não dependam tanto do universo compartilhado, em vez de transformá-los no pilar de base dessas franquias. E não pense que isso significa que eles só podem existir à parte do universo compartilhado – Logan e Deadpool, por exemplo, são inseridos no Universo dos X-Men, mas não dependem da franquia central e nem a afetam de forma drástica.

Logan: a medida perfeita entre uma trama sombria e um universo de super-heróis.

Assim sendo, podemos ter espaço para vários tipos de filmes, sem que a proposta acabe sendo nublada pelo público-alvo ou pela crítica. Basta dar “casinhas” a cada uma dessas franquias, que podem explorar um pouco de tudo.

Ou seja, há sim espaço para o sombrio e realista nos cinemas – desde que seja feito da maneira certa. Com isso em mente, a DC agora pode prosperar, contando suas histórias para os mais diversos públicos, ao mesmo tempo em que tenta estabelecer um universo cada vez mais coeso, único e original.

 

Na galeria abaixo, fique com imagens de Coringa:

Coringa chega aos cinemas em outubro de 2019.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux