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Game of Thrones – Pegando o bonde tarde demais!

Por Raphael Martins

Vocês já se perguntaram como nasce um novo fã de alguma coisa? Geralmente isso acontece quando aquela série já terminou há algum tempo, ou aquela trilogia de filmes já foi encerrada. Mas e quando o bonde está andando, e quando o trem do hype já está a toda felicidade, com a história próxima do fim?

É bem chato chegar atrasado na festa e perceber que ela já está terminando e os convidados estão todos indo embora, sabendo que você perdeu a oportunidade de curtir com seus amigos e que vai ter que aproveitar sozinho dali pra frente. É mais ou menos assim que as pessoas que começaram a curtir Game of Thrones só agora, como esse que vos escreve, se sente. Será que vale a pena tentar entrar na onda só agora?

O elenco de Game of Thrones em sua oitava temporada: é tarde demais para quem começou a ver a série agora?

Quando Game of Thrones começou, em 2011, era uma série com bastante potencial, que foi aumentando de popularidade a medida que um novo episódio saía. Ao final da primeira temporada, quando Ned Stark é assassinado em uma reviravolta covarde causada pelos Lannister, foi quando eu percebi que, de fato, a série estava fazendo barulho. Ninguém falava de outra coisa e eu não conseguia entender o porquê. “Vou dar uma conferida nessa série depois”, eu dizia para meus amigos. Não conferi. Deixei passar.

Apesar de o interesse estar lá, por um motivo ou por outro, não fui atrás de assistir a primeira temporada. Não queria ter que comprar os DVDs de uma série que eu nem mesmo sabia se era para mim, a exibição na HBO já havia passado e baixar um episódio de cada vez era, além de errado, trabalhoso. Então, deixei para lá. E os episódios foram se acumulando.

Então veio a segunda temporada, e com ela um hype ainda mais forte que o da primeira. Game of Thrones foi se tornando um assunto cada vez mais corriqueiro nas redes sociais e nas rodas de amigos, algo tão constante que, com o tempo, minha ideia sobre começar a acompanhar a série mudou. Eu acabava sabendo tudo o que estava acontecendo com todos os detalhes sem nem mesmo precisar assistir aos episódios, então por que acompanhar?

E o tempo foi passando. Nomes como Khaleesi, Sansa, e Arya foram fazendo cada vez mais parte do meu cotidiano, mesmo sem eu nunca ter visto um único episódio sequer. Os memes com Jon Snow, o homem que nunca sabia de nada, me faziam rir. O desejo de ver estava lá, mas a preguiça de ver tantos episódios acumulados de uma série que ainda estava rolando só me deixava ainda mais indolente quanto entrar nesse bonde. Só que nesse meio tempo, um outro sentimento foi crescendo: o da frustração por ficar de fora da festa.

Daenerys e um de deus dragões: mesmo sem ter visto nenhum episódio, eu sabia exatamente quem ela era e o que ela fazia

Eu só fui começar a assistir a série a partir da sexta temporada, totalmente por acaso. Costumava passar os fins de semana na casa de uma ex-namorada, e como a irmã dela e o namorado eram fãs da série e não perdiam um episódio todo domingo, passei a assistir junto com eles. Conhecia alguns personagens de ouvir falar, mas não sabia quem diabos era Ramsey Bolton e por que ele era tão odiado. E a tal da Khaleesi, era mãe dos dragões mesmo? E por que diziam que o Jon Snow nunca sabia de nada, quando ele parecia ser o único ali tentando fazer a coisa certa? Os episódios foram passando, semana após semana, e pela primeira vez, eu me sentia parte daquela enorme comunidade… mas ainda não me considerava um fã. Ainda faltava alguma coisa. Mais conhecimento, talvez.

Depois da batalha dos bastardos que encerrou a temporada, eu comecei a estudar mais sobre a série. Não cheguei a ler nenhum dos livros, mas fiz a lição de casa, me preparando para a sétima temporada agora munido do conhecimento de que não seria adaptada de nenhum dos livros, já que a série os havia alcançado. Algo muito comum de se acontecer com animes, por exemplo, um território mais conhecido para mim. Aos poucos, fui me tornando cada vez mais interessado, suando a camisa enquanto corria atrás do trem do hype, que já estava à toda velocidade.

Acompanhei a sétima temporada com um conhecimento maior do que tinha acontecido até ali, mas ainda sem ter visto nenhum episódio antes da sexta. Eu não precisava, meus amigos estavam ali para sanar todas as minhas dúvidas. Talvez por isso eu nunca tenha me considerado um fã: nunca senti a necessidade de assistir todos os episódios que ainda não tinha visto e estava bem assim. Mas desta vez, a história foi diferente.

As pessoas começaram a reclamar bastante da série, com o argumento de que ela estaria se tornando cada vez mais inclinada ao fanservice, contrariando tudo o que havia sido construído até ali. Ouvia-se muito sobre Game of Thrones ter se tornado uma enorme fanfic, mas eu não entendia o porquê. E assim, eu me vi perdido novamente, como se fosse o cego do tiroteio. E justo agora que eu estava começando a me sentir mais confortável dentro daquela base de fãs.

Ramsey Bolton na batalha dos bastardos: mesmo sem entender muita coisa, deu pra se emocionar

Essas reclamações continuam na oitava temporada, e eu continuo sem entender o porquê. Não vi os episódios anteriores para comparar, não li os livros, mas ainda assim, me vi capturado por aquele mundo de intrigas políticas, traições dolorosas, mortes inesperadas, dragões e guerreiros mortos-vivos. Não é isso que é o mais importante, a diversão? Eu gosto de pensar que sim. Enquanto uma pessoa puder se divertir com uma obra, ainda que ignorante sobre muitos aspectos dela, ela terá cumprido seu papel de entreter e se manterá fresca nas mentes das pessoas. Mas assim como um novo problema apareceu diante de mim na sétima temporada, isso tornou a acontecer na oitava. Um problema que trouxe uma sensação de vazio incômoda: a do fim de festa.

Como foi dito no começo desse texto, a sensação de desperdício e de vazio que se tem quando se chega numa festa onde todos já estão indo embora é algo bem angustiante. Eu não vivi toda a expectativa junto com a enorme comunidade de fãs temporada após temporada, não sofri com as mortes de personagens queridos, não fiquei cheio de raiva com uma traição covarde e nem fiz coro com a internet quando ela determinou que a série tinha perdido seu brilho genial de outrora. Mas vendo isso pelo ponto de vista do copo meio cheio, mesmo com todas essas desvantagens, eu tenho algo que qualquer fã da série daria tudo para ter.

Quando Game of Thrones acabar e eu finalmente acompanhar tudo desde o primeiro capítulo, estarei vivendo tudo aquilo pela primeira vez. Todos os detalhes que eu ainda não conheço, todas as emoções que eu ainda não vivi, será tudo novo para mim. Quem aí nunca quis ter o prazer de experimentar algo que se ama pela primeira vez novamente, para ter aquela sensação que só existe por aquele breve momento de uma nova paixão que começa a crescer dentro do seu peito? Não sei vocês, mas eu adoraria poder ter a experiência de me assustar com o Psycho Mantis de Metal Gear Solid novamente, como se aquilo fosse inédito. E acho que sentirei algo parecido com Game of Thrones. Mesmo sendo o atrasado do rolê.

O emblemático pôster da primeira temporada: para quem já viu é passado, mas para quem vai ver é futuro

O que é ainda mais legal é que, mesmo com o fim da série, a história ainda não acabou. Restam mais dois livros, que ainda não foram lançados, para que a saga se complete. E com a popularidade que a série conquistou, é bastante provável que a base de fãs se engaje tanto quanto quando a trama era contada nas telinhas da TV. Quem sabe até não façam novas temporadas inteiras, dessa vez mais fiel aos livros?

Talvez não seja tarde demais para ser um fã, afinal.

Veja também várias imagens do próximo episódio da oitava temporada:

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael