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Escolhas de elenco polêmicas: Precisa esse escândalo todo?

Por Raphael Martins

Primeiro de abril é uma data engraçada. Conhecido mundialmente como o dia da mentira, é nessa data que a gente zoa e é zoado pelos nossos amigos contando aquela mentira básica, aquela mentira do bem, às vezes mais elaborada, às vezes não. Na internet não é diferente. Todos os anos, sites como este publicam alguma notícia fantasiosa no mais puro espírito da zoeira, pra ver se te arranca pelo menos uma reação mais abalizada, que pode virar várias quando a essa notícia viraliza.

Pois muito bem. Nesta última segunda-feira, foi primeiro de abril, e a gente aqui do Legião dos Heróis não podia perder a oportunidade de dar aquela zoada. Publicamos uma notícia falsa que dizia que Robert Pattinson, o eterno Edward Cullen da saga Crepúsculo, havia sido escolhido pela Warner/DC como o novo Batman, para uma nova série de filmes estrelados pelo cavaleiro das trevas. Para a nossa alegria, a notícia viralizou, chegando a figurar nos trending topics do Twitter e até mesmo ser copiada por outros sites, gerando muitas reações diferentes de vocês, leitores.

Mas nesse ínterim, notamos um fenômeno bastante comum nestes tempos democráticos de internet, onde todos podem dar sua opinião: muitas pessoas, tanto as que caíram na pegadinha quanto as que não acreditaram nem por um segundo, odiaram a ideia com todas as forças, bradando aos quatro ventos que a escolha de Pattinson para o papel seria péssima, que a DC estava perdida e que se recusariam a ver um filme do Batman estrelado por esse ator.

Esse tipo de reação acontece bastante, quase sempre com adaptações de quadrinhos ou games. Mas botem a mão na consciência por um segundo ou dois, deixem as emoções de lado, parem e pensem: isso é realmente necessário?

Robert Pattinson como Batman: muita gente caiu no 1º de abril

Sempre que um grande estúdio escala um ator de renome para um papel importante como herói ou vilão, a coisa mais comum de se ver é gente atacando o ator e os produtores do filme até a nona geração da família. Xingam porque o ator não parece o personagem original; xingam porque o profissional em questão “não sabe atuar”, como se o autor da crítica fosse um ganhador de vários Oscars; xingam o diretor por sua visão “errada” do que o filme pode ser, e por aí vai. Mais que isso, essas pessoas passam a desacreditar o projeto inteiro unicamente porque seu protagonista fez um filme, ou vários, que eles não gostaram, e não por sua capacidade como profissional.

Em 2002, quando George Lucas estava procurando quem seria o jovem Anakin Skywalker em Ataque dos Clones, o nome de Leonardo DiCaprio foi cotado e uma multidão virtual se revoltou. Não era porque DiCaprio era um ator ruim, todo mundo sabe (ou deveria saber) que ele é muito bom no que faz. Não. Era porque ele era um astro de filmes de romance, muito populares entre as adolescentes. Assim como Pattinson é hoje. E ele, como DiCaprio, está muito longe de ser um ator ruim.

E esse pensamento comum de manada, que determinou que um ator é “ruim” e não é “digno” de interpretar um determinado papel, se espalha como um vírus e contamina uma multidão de pessoas, que estão tão cegas pelos seus preconceitos ou com o bom senso tão prejudicado por toda a exposição de ignorância e desdém que não são incapazes de refletir com clareza mesmo por um breve momento que seja.

Leonardo DiCaprio como Anakin Skywalker: acreditem ou não, isso quase aconteceu

Essas pessoas esquecem de um fato bastante simples: os estúdios não escolhem qualquer um para estrelar seus filmes. Não basta ser só bonito ou popular entre as garotas. Há muita grana envolvida nesses projetos para eles colocarem tudo a perder. Eles escolhem alguém que sentem firmeza de que vai entregar um trabalho bem feito. Essas pessoas são atores, o trabalho delas é se tornarem alguém que na maioria das vezes é completamente diferentes de quem eles são. Eles de adaptam, se transformam, mergulham de cabeça para entregarem o melhor trabalho que puderem.

Se conseguem ou não, isso é outra história, e nem sempre a culpa é só deles. A questão é que eles são profissionais treinados, que dedicaram anos de estudo e esforço a suas carreiras. Comentaristas de internet, bom… são comentaristas de internet. Então estes profissionais merecem pelo menos o benefício da dúvida.

Alguém poderia dizer que um determinado ator não ficaria bem no papel por não se parecer fisicamente com o personagem que deve encarnar. Isso por si só já é um erro, já que os traços dos personagens de quadrinhos ou games sempre mudam dependendo de quem está responsável pelo desenho ou design. Mas vamos supor que eles estão certos aí, e o profissional realmente não lembre muito seu personagem. Não é o fim do mundo.

Figurino, maquiagem e meses de preparo físico estão aí justamente para isso, para que o ator ou atriz possam ficar mais parecidos o possível com a persona que devem abraçar durante os muitos dias de trabalho que virão pela frente.

Um bom exemplo de pessoas revoltadas por julgarem que um ator não se parecia com o personagem foi quando Zack Snyder escolheu Gal Gadot para interpretar a Mulher-Maravilha em Batman Vs Superman: A Origem da Justiça. Disseram que ela era “muito magra”, que “não tinha jeito de amazona” e até mesmo que sua habilidade de atuação era “fraca”. Aí o filme saiu, a Diana de Gal Gadot convenceu e esses mesmos detratores ficaram de cara no chão, ainda mais depois do sucesso do filme solo da heroína.

A Mulher-Maravilha de Gal Gadot: muita gente apostou contra e quebrou a cara depois

Quando Michael B. Jordan foi escolhido como o Johnny Storm/Tocha Humana no último Quarteto Fantástico, foi outra choradeira. As reclamações foram principalmente quanto a etnia do personagem original, independente de ele ser um ator competentíssimo ou não. Mas no caso desse filme, temos um problema ainda maior, que não é exclusividade só dele: quando um ator leva toda a culpa pelo fracasso de uma produção inteira.

Esquadrão Suicida não é um filme bom, nisso nós concordamos. Mas daí a dizer que a culpa do fracasso do filme foi principalmente de Jared Leto e seu Coringa é absurdo. Vejam bem, não estou defendendo a caracterização do personagem nesse filme ou dizendo que vocês precisam gostar, mas quero ressaltar que a culpa ali não é exatamente de Leto.

Um ator responde a duas forças maiores que ele: o diretor do filme, que comanda toda a ação e extrai a atuação que quer ver do ator, e o roteiro, que amarra o profissional e faz com que ele se atenha a performar o que está escrito ali. Jared Leto é um grande ator, e se seu Coringa é menos popular de todos os tempos, a culpa não é só dele. Demonizar o ator por uma atuação ruim é, além de ridículo, injusto.

Jared Leto como o Coringa: a culpa não foi só dele

Ficar descontente é normal e aceitável, não é legal achar tudo lindo e maravilhoso e bater palma para qualquer coisa. Mas na hora de julgar uma escolha de elenco mais polêmica, é bom parar, pensar e avaliar a carreira do ator ou atriz em questão, para não quebrar a cara, queimar a língua e se sentir um idiota depois. Fazer papel de idiota na internet pra todo mundo ver é bem fácil, e ninguém quer isso, certo?

Os exemplos estão aí. Gal Gadot, Henry Cavill, Heath Ledger e até o amado, idolatrado, salve-salve Robert Downey Jr. foram duramente criticados quando foram anunciados como as estrelas de seus filmes de herói, e hoje são lembrados pelo seu sucesso neles. Alguns atores ficam marcados pela vida inteira, de tão bom que o trabalho foi. Quem quer ser o cara que apontou o dedo e disse que o filme seria desastroso porque escolheram um ator “nada a ver” para o papel? Eu é que não. E prefiro achar que vocês também.

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael