Capa da Publicação

Emulação: Pirataria ou necessidade?

Por Raphael Martins

No meio dos anos 90, fãs dedicados de games antigos com um talento enorme para a programação conseguiram um feito que pode ter criado a cultura gamer como a conhecemos hoje: transformar computadores em consoles, através de programas que faziam os PCs se comportarem como vídeo games. Eram os emuladores, maravilhas da programação capazes de rodar qualquer jogo, inclusive aquele que você amava quando era criança ou aquele que você sempre quis jogar, mas nunca pode.

Desde então, muito se é discutido quanto a emuladores contribuírem com a pirataria, fazendo grandes empresas e desenvolvedoras perderem dinheiro, mas ao mesmo tempo, mantendo vivo o legado de tudo o que foi feito antes, democratizando jogos antigos e inéditos e preservando a história dos vídeo games. Mas qual dos dois lados está certo?

Jogos como Super Mario 64 estão hoje na tela do seu celular graças a emuladores

Foi na década de 90 que ocorreram as primeiras tentativas de fazer computadores rodarem jogos de vídeo game, mas foi em 1997 que a emulação chegou para ficar. Neste ano, surgia o Nesticle, o primeiro emulador de Nintendinho totalmente funcional, o que fez a alegria de quem se divertia muito com eles na época e não tinha mais acesso fácil ao console e sua extensa biblioteca de jogos.

A partir daí, começou uma verdadeira corrida para emular todos os consoles conhecidos, com resultados aparecendo muito rapidamente. Neste mesmo ano, a Bloodlust, o mesmo grupo de programadores responsável pelo Nesticle, lançou o Genecyst, o primeiro emulador de Mega Drive. Depois vieram o SNES9X e o ZSNES, que transformavam sua máquina em um Super Nintendo. E aí, a coisa nunca mais parou.

A emulação se tornou uma verdadeira febre no final daquela década, gerando suas personalidades, grupos de discussão e até memes. De repente, os programadores da Bloodlust eram tratados como lendas da internet, e canais do Mirc (antigo programa de bate papo da época da internet discada) sobre o assunto se multiplicavam a perder de vista.

Sites especializados, como o Zophar, recebiam milhões de acessos por dia, contendo ferramentas, tutoriais e até mesmo arquivos de som de milhares de jogos, tudo ao acesso de quem quisesse.

O Nesticle em ação: o primeiro emulador 100% funcional de NES

Um dos maiores benefícios que a emulação trouxe foi a oportunidade de jogar games que tinham sido lançado apenas em algumas partes do mundo, como o Japão, fazendo com que muita gente descobrisse pérolas escondidas e tornando-os famosos no ocidente. Muitos deles inclusive chegaram a ser traduzidos por grupos de fãs, deixando esses jogos ainda mais acessíveis.

No Brasil, a emulação também chegou com força na mesma época, graças ao acesso cada vez mais popular à rede mundial de computadores. Canais do Mirc como o #Emuroms eram bastante visitados, fomentando o cenário da emulação nacional. Também haviam grupos dedicados a traduzir Roms de vários sistemas para o português, como a CBT e o grupo Tradu-Roms, cujas Roms traduzidas rodam até hoje pela internet afora.

E assim, um culto ao retrogaming foi se firmando entre a comunidade nerd/geek, que agora poderia celebrar os games mais antigos com outras pessoas, fazendo uma gostosa viagem no tempo ao jogar os preferidos da infância, vivendo novas aventuras com títulos desconhecidos e realizando o sonho de ter, ao alcance de um clique, o que mais queriam: todos os seus jogos preferidos ao alcance de suas mãos. E sem nem mesmo pagar por isso.

E foi aí que começou o problema.

O ZSNES foi um dos primeiros emuladores do Super Nintendo e continua recebendo atualizações até hoje

Isso não passou batido por Sega, Nintendo e companhia limitada, que começaram a caçar e punir sites de emulação e os responsáveis por eles. Havia até mesmo uma tentativa de precaução da parte de quem emulava, na forma de um pedido para que as Roms só fossem baixadas por quem tivesse o cartucho, e que fossem deletadas depois de 24 horas para evitar problemas com a lei.

Alguns grupos dedicados a emulação se tornaram tão audaciosos que tentaram até mesmo fazerem emuladores comerciais, isto é, vender programas capaz de rodar jogos de outros sistemas. Era o caso do VGS e do Bleem!, que prometiam executar com perfeição jogos de Playstation, o console mais poderoso da época. Obviamente, foram combatidos até com uma certa violência por parte da Sony, que processou os responsáveis com multas milionárias e queria até mandar prender os criadores do emulador.

Por um lado, é realmente injusto se apropriar indevidamente do trabalho alheio e disponibilizá-lo de graça para quem quiser, fazendo as empresas e as pessoas que se dedicaram a criar aqueles jogos não receberem seu merecido dinheiro em troca de sua obra. Mas por outro, é bem possível que a história dos games como um todo fosse perdida completamente com o tempo, sem que ninguém pudesse fazer nada para impedir.

O Bleem era vendido por aí e fez muita gente dentro da Sony ficar possessa de raiva

De acordo com Frank Cifaldi, curador da empresa Digital Eclipse, mais da metade dos filmes feitos antes de 1950 se perderam para sempre. E o mesmo poderia acontecer com os games, que sem a possibilidade de serem comprados ou até mesmo conhecidos, simplesmente sumiriam nas areias do tempo. Não existiria uma curadoria, um grupo responsável por guardar toda essa história. E por causa dos “piratas de software” responsáveis pelos emuladores, hoje isso é feito, deixando a história desse mercado e todo o seu legado protegidos.

Com o tempo, a perseguição aos emuladores foi se tornando cada vez mais uma discussão sobre ética, sobre essa ser uma prática válida ou pura pirataria. E essas empresas foram se tornando mais tolerantes à ideia de ter seus sistemas e jogos mais antigos copiados e distribuídos por aí.

Hoje, os emuladores saíram dos gabinetes dos PCs e estão em todos os lugares, dos dispositivos mobile a até mesmo os próprios consoles. As versões mini do Super Nintendo e do Nintendinho, por exemplo, nada mais são do que emuladores embalados em belas carcaças em miniatura de seus consoles bem-sucedidos do passado. O Playstation Classic, um mini-Playstation lançado recentemente pela Sony, usa o PCSX, um emulador de código aberto, para rodar seus jogos, um símbolo de que a empresa reconhece que um programa supostamente amador pode ser tão válido quanto o sistema oficial.

O próprio Virtual Console, serviço que disponibiliza jogos retrô nos vídeo games da Nintendo, não passam de emuladores oficiais. Sim, a mesma Nintendo que até onde manda derrubar sites dedicados a distribuir Roms e demoniza qualquer um que seja adepto dessa prática.

O menu do Virtual Console do Wii U: um emulador criado pela própria Nintendo

Sem o advento da emulação, talvez nem mesmo toda a adoração aos games retrô que vemos hoje em dia existiria. Os mais novinhos, sem acesso aos consoles antigos, não ligariam a mínima, e games como Final Fantasy VII, The Legend of Zelda: A Link to the Past e Super Mario Bros. 3 seriam apenas lembranças distantes e enevoadas de um tempo que não volta mais. Muitas jóias escondidas ou subestimadas desapareceriam para sempre, como um tesouro lendário perdido em algum lugar do mundo, esperando um Indiana Jones da vida para encontrá-lo.

A discussão entre pirataria deslavada ou a proteção de todo um legado continuará por um bom tempo, mas uma coisa é certa: sem os emuladores, talvez nós nem gostássemos mais de games tanto assim.

Leia também:

Imagem de perfil
sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael