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E se a TV brasileira tivesse seu próprio universo compartilhado?

Por Raphael Martins

Os filmes estrelados por super-heróis são a nova tendência de sucesso do cinema, e o Marvel Studios é um dos principais responsáveis por isso. Ao final do primeiro Homem de Ferro, em 2008, o estúdio deu o pontapé inicial para uma fórmula que vários estúdios adotariam, ou pelo menos tentariam adotar: a fórmula do universo compartilhado.

Ao pegar personagens amados e reconhecidos por milhões e colocá-los todos dentro do mesmo mundo, fazendo aparições esporádicas em vários filmes antes de terem o seu próprio, a Marvel criou um universo coeso, exatamente como é o dos quadrinhos. Os fãs aprovaram com louvor e, filme após filme, lotam sessões de cinemas por todo o mundo, enchendo os cofres da Marvel/Disney de dinheiro.

Tentando seguir a nova receita do sucesso, outros estúdios quiseram fazer o mesmo. A Universal tentou começar um projeto reunindo seus famosos monstros em um mesmo mundo, mas fracassou e desistiu. A Warner/DC, aos trancos e barrancos e por vezes metendo os pés pelas mãos, tocam para frente seu universo DC nas telonas, que continuará muito em breve com Shazam!, que parece estar bem legal. Até mesmo a japonesa Toei, famosa pelos seriados tokusatsu, está unindo seus heróis nos mesmos filmes, através do projeto Space Squad. Todo mundo quer seguir a luz que a Marvel apontou no céu.

O Marvel Studios vem ditado a tendência do que é sucesso nas telonas desde 2008

Mas agora esqueçam esses grandes estúdios milionários por um momento. Pensem menor. Pensem mais perto. Pensem no Brasil. E se os personagens famosos das nossas telinhas vivessem todos no mesmo universo, aparecendo um na série do outro, vivendo aventuras juntos? Como se daria essa dinâmica? O resultado seria no mínimo curioso e no máximo sensacional. Já pararam pra pensar como seria o encontro do Boça do Hermes e Renato com o Caco Antibes de Sai de Baixo, por exemplo? E se o Cirilo de Carrossel se apaixonasse pela Milli de Chiquititas? E se os Trapalhões dividissem o banquinho da praça com o Carlos Alberto de Nóbrega?

Este que vos escreve pensou em tudo isso, e não parou por aí. Empolgado com a ideia, desenvolvi todo um roteiro de como seria uma versão “TV brasileira” de Os Vingadores, chamando alguns dos personagens mais inesquecíveis das nossas telinhas para encararem todos juntos uma grande ameaça, algo que eu carinhosamente batizei de BRCU, ou “Brazil Cinematic Universe”. E antes que vocês sugiram uso de drogas nos comentários, eu lhes asseguro que nunca estive tão lúcido. Mas se preparem: esta será uma viagem e tanto. Eu vou mostrar para vocês que um filme assim seria inesquecível… para o bem e para o mal, aí já depende de vocês.

Todos prontos? Vamos lá.

O espírito do mal Alexandre (Guilherme Fontes, de A Viagem) quer tomar o reino dos vivos pra si, e seu primeiro passo rumo a dominação mundial é atacar o país de Kubanacan e possuir o corpo de Esteban Maroto, o Pescador Parrudo (Marcos Pasquim). Conseguindo o corpo de Esteban, ele deixa um um rastro de destruição e morte por onde passa, até ser impedido pelo destemido espadachim da frança medieval Jean Pierre (Edson Celulari, de Que Rei Sou Eu?). Ele é ajudado por Juba e Lula (Kadu Moliterno e André De Biase, de Armação Ilimitada), que estavam de passagem por ali. Após uma grande cena de ação, eles livram Esteban do controle do vilão e lhe dizem que o que aconteceu com Kubacanan pode acontecer com o resto do mundo se eles não impedirem.

Alexandre: O espírito obsessor seria a grande ameaça do filme

Juba, Lula e Jean Pierre levam Esteban até o quartel general dos Salvadores – porque “Vingadores” ia dar muito na cara e a Disney, como vocês sabem, está sempre de olho. Lá, seu chefe, Didi Mocó (Renato Aragão), lhes diz que Alexandre conseguiu abrir um túnel ligando o mundo dos vivos ao purgatório e que está reunindo um exército de espíritos do mal para invadir a Terra, e que só eles juntos podem impedi-los. A professora Helena (Rosanne Mulholland), conselheira de guerra e estrategista da equipe, que até então treinava as crianças da Patrulha Salvadora, uma espécie de “Justiça Jovem” dos Salvadores, se une à força-tarefa e juntos começam a traçar um plano pra impedir o avanço de Alexandre e sua armada.

Sim, a Patrulha Salvadora e os demais personagens de Carrossel pertenciam originalmente ao universo cinematográfico do SBT, mas para contornar isso, a Globo firmaria uma parceria com a emissora de Silvio Santos em troca de parte dos lucros da bilheteria, após uma negociação dificílima que duraria meses e terminaria vazando antes na imprensa.

A Patrulha Salvadora: participação dos jovens heróis no BRCU seria fruto de uma parceria entre Globo e SBT

O plano dos heróis não é fácil: eles precisam da lendária Cruz de São Sebastião, um artefato sagrado (quem aí lembra de Vamp?), para selar a passagem, mas ela está na posse dos poderosos vampiros Vlad (Ney Latorraca) e Boris (Tarcísio Meira), resultando em um crossover dentro de um crossover entre Vamp e O Beijo do Vampiro, as duas novelas vampirescas da Globo.

No caminho para o covil dos vilões, eles recrutam a vampira Natasha (imortalizada por Cláudia Ohana em Vamp) para a equipe. Eles invadem o castelo dos vampiros e após uma luta que eu só posso definir como “excêntrica”, nossos heróis conseguem pegar a cruz, bem na hora em que Alexandre e seu exército começam a atacar o Rio De Janeiro. A casa da Família Silva é destruída durante o ataque, mas Agostinho Carrara (Pedro Cardoso) consegue salvar toda a família ao fugirem em seu táxi com a ajuda de Joselito, o sem noção (Adriano Pereira, do grupo Hermes e Renato), que estava vendendo cachorro quente com chumbinho perto dali.

A Família Silva faria uma ponta no crossover

O time se apressa rumo ao Rio de Janeiro a bordo de seu veículo de combate, o Ogromóvel Mark IV. Ao chegarem, descarregam todas as armas que sua máquina de guerra possui contra o exército de desmortos, mas eles são muitos. Eles então se unem em um círculo e começa a tentar conter o avanço das forças de Alexandre.

Juba e Lula desmembram zumbis com suas pranchas de surfe. Jean Pierre corta a todos com sua invencível espada, feita com o material mais caro que o Projac pode criar. Professora Helena quebra cabeças com sua poderosa régua. Esteban muda de personalidade, se tornando Dark Esteban, aumentando ainda mais sua força e destruindo tudo o que vê pela frente, para o desespero de seus inimigos. Natasha rasga a carne de seus adversários com suas poderosas presas e garras. Mas os soldados do exército do mal não param de chegar.

Enquanto isso, a Patrulha Salvadora se dirige até o túnel que liga os dois mundos e tentam fecha-lo usando a cruz, mas Alexandre aparece, possui o corpo de Mário (Gustavo Daneluz) e o faz chamar Jaime de gordo, que fica possesso de fúria e começa a esmurrar o garoto sem piedade. As outras crianças tentam impedi-lo. Valéria (Maysa Silva) tenta apelar para a razão. Maria Joaquina (Larissa Manoela) o chama de burro. Nada adianta. Todos caem diante da ferocidade do grande Jaime Palilo (Nicholas Torres), o rei brutal da Escuela Mundial. Alexandre finalmente se revela, possuindo o corpo de Jaime logo em seguida, pegando a cruz e indo ao campo de batalha confrontar seus inimigos em pessoa.

Os Salvadores unidos: a última esperança do Brasil… e da humanidade

Jaime e Esteban começam a lutar, destruindo metade do Rio de Janeiro em um combate que deixaria O Homem De Aço de Zack Snyder com inveja e um pouquinho assim de vergonha alheia, já que tudo é feito na base do croma key e Sony Vegas 14. Todos os salvadores lutam de uma vez contra Jaime/Alexandre, que em meio ao combate, não perceberia que a cruz não está mais com ele. Do nada e para a surpresa de todos, surge Joselito, com seu indefectível óculos escuro, um radinho de pilha tocando funk em uma mão e a Cruz de São Sebastião na outra. Envolto pelo poder da cruz, ele destrói o espírito de Alexandre com um pescotapa, uma rasteira e um cuecão, salvando Jaime e a cidade. Após confiar a cruz a Jean Pierre, jogando-a na cara do herói, Joselito vira as costas e vai embora, dançando ao som de “Chatuba de Mesquita”.

Joselito: ele não sabe brincar

Os heróis vão até o local do túnel, proferem as palavras de poder e o fecham para sempre usando a magia ancestral da cruz. Eles voltam ao quartel general e comemoram sua vitória com uma grande festa, embalada por um show ao vivo das Empreguetes e da Vagabanda. Longe dali, em uma dimensão localizada fora do tempo e do espaço, o verdadeiro inimigo trama seu contra-ataque: é ninguém mais, ninguém menos que o mago Ravengar (Antônio Abujamrra, também de Que Rei Sou Eu?), que olha para uma manopla sobre um altar e fala sobre uns tais “Globos do Infinito”.

Ravengar: o verdadeiro inimigo trama seu plano diabólico sem que os heróis sequer saibam de sua existência

E assim, o filme terminaria, despertando reações diferentes do público nos cinemas. Algumas pessoas aplaudiriam de pé. Outras, com a infeliz característica do “complexo de vira-lata” inerente do brasileiro, odiaria tudo sem nem sequer  assistir, afinal, se é feito no Brasil, é um lixo. Lendas seriam contadas sobre a primeira sessão de Os Salvadores, como a de que várias pessoas entraram em uma onda de histeria coletiva durante o filme, rindo e chorando ao mesmo tempo, falando em línguas e entrando em combustão espontânea depois de tudo o que testemunharam. Nada disso importaria: o Brasil, a partir daquele momento, teria um universo cinematográfico para chamar de seu.

Ah, claro, não podemos nos esquecer da cena pós-créditos, certo? Então lá vai: A Grande Família está toda apertada dentro do Táxi de Agostinho, presos em um engarrafamento enorme de pessoas tentando fugir da cidade. Agostinho então começaria uma briga com Lineu dentro do táxi, dizendo que se o sogro lhe desse mais dinheiro, teria comprado um carro maior.

Pronto, agora acabou. De nada.

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael