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[CRÍTICA] Projeto Gemini – Refém de sua própria ambição!

Por Gus Fiaux

Famoso por projetos como O Segredo de Brokeback Mountain, O Tigre e o Dragão As Aventuras de PiAng Lee está de volta aos cinemas com Projeto Gemini, um longa ambicioso protagonizado por Will Smith – que, por sua vez, interpreta tanto o pistoleiro Henry Brogan quanto seu clone mais jovem.

O filme parte de uma ideia muito ousada, envolvendo o uso de tecnologia de ponta para criar um 3D revolucionário, além de efeitos de rejuvenescimento aplicados ao próprio Will Smith. Infelizmente, boa parte dos cinemas não está capacitada para abrigar essas inovações – mas será que o filme compensa em sua trama e personagens? Resposta curta: não.

Ficha Técnica

Título: Projeto Gemini (Gemini Man)

Direção: Ang Lee

Roteiro: David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke

Ano: 2019

Data de lançamento: 10 de outubro (Brasil)

Duração: 117 minutos

Sinopse: Um franco-atirador em busca de paz acaba tendo seu mundo revirado de cabeça para baixo quando precisa enfrentar seu próprio clone jovem.

Will Smith é um nome que, durante muito tempo, era sinônimo de lucro garantido em Hollywood. Infelizmente, seu mais novo lançamento, Projeto Gemini, está vindo para mostrar que os dias de glória do ator podem estar indo embora – esteja ele interpretando um ou mais personagens. O novo filme de Ang Lee (O Segredo de Brokeback Mountain) chegou aos cinemas refém de sua própria ambição.

Com uma tecnologia jamais vista na indústria cinematográfica, um uso pesado de efeitos de rejuvenescimento, um 3D “revolucionário” e um frame-rate de 120 quadros por segundo, o longa tinha tudo para ir na mesma onda de Avatar (James Cameron, 2009) e se provar um baita sucesso por conta da curiosidade do público pelo avanço digital. Contudo, sua história não sustenta tamanha ousadia tecnológica.

O longa segue o franco-atirador e assassino profissional Henry Brogan (vivido por Will Smith), que após se encontrar em uma conspiração governamental com a empresa Gemini, acaba se aliando a velhos e novos amigos, na forma da agente especial Danny Zakarweski (Mary Elizabeth Winstead) e Baron (Benedict Wong). As coisas vão de mal a pior, principalmente quando Henry encontra seu maior inimigo, um clone mais jovem de si mesmo.

Assistir a Projeto Gemini é uma experiência excruciante do começo ao fim, por conta de um roteiro mal-escrito e cheio de furos. Porém, quando analisamos os nomes por trás do texto-base, entendemos o motivo. O roteiro foi encabeçado por David Benioff (infamemente conhecido pelos roteiros da oitava temporada de Game of Thrones), Billy Ray (que chegou a produzir obras boas, como Capitão Phillips) e Darren Lemke (que apesar de ter escrito Shazam!, também foi responsável pelos filmes de Goosebumps e pela pior continuação de Shrek).

A trama, diferente de toda a produção técnica, não se esforça para sair do campo do genérico, o que torna a história parecida com mais duzentas obras que já vimos aqui e acolá. Toda a exploração do tema do “duplo” é rasa e não traz um toque subversivo sequer, o que é uma vergonha, especialmente quando comparamos obras recentes como O Homem Duplicado (Denis Villeneuve, 2013) e a série televisiva Orphan Black (2013-2017).

Surpreende mais ainda ver o nome de Ang Lee associado a essa bagunça. O diretor que já havia nos proporcionado O Segredo de Brokeback Mountain O Tigre e o Dragão entrega seu filme mais genérico até o momento – um longa que, inclusive, parece ter mais cara dos filmes processados e sem alma lançados todos os meses pela Netflix do que uma grande superprodução cinematográfica. De muitas formas, Projeto Gemini está mais perto de outra bomba do criador: Hulk, de 2003.

Aliás, todo o filme é uma grande questão de interrogação, conforme vemos artistas talentosíssimos entregando um trabalho muito aquém de seu potencial. Por exemplo, o diretor de fotografia do longa, Dion Beebe, é conhecido por ter ganho um Oscar por Memórias de uma Gueixa (Rob Marshall, 2005) e por ter sido indicado por Chicago (Marshall, 2002) traz aqui uma das fotografias mais esquecíveis e “sem sal” do cinema nos últimos anos.

O elenco também é notoriamente desperdiçado. Will Smith pode não ser um grande ator, mas já entregou papéis carismáticos no passado – vide o espetacular À Procura da Felicidade (Gabriele Muccino, 2006), mas aqui parece ter ligado o botão de automático. As cenas mais “emocionais” do astro são vergonhosas, já que o ator parece não estar disposto a entregar um mínimo de emoção, mesmo quando seu rosto está lavado de lágrimas.

O elenco coadjuvante composto por Mary Elizabeth Winstead, Benedict Wong Clive Owen (que interpreta o vilão Clay Verris) tem seus momentos, mas em vez de serem usados como suporte para o avanço de Henry Brogan, estão lá na maior parte do tempo para fazerem exposição de uma trama que os roteiristas parecem achar muito complicada – mas que o público já consegue matar desde os primeiros segundos.

Claro que nem tudo são problemas – embora a quantidade de coisas ruins ofusque os poucos momentos de brilhantismo do projeto. A trilha sonora de Lorne Balfe, por exemplo, é um dos destaques, conseguindo passar a emoção e o senso de urgência que falta nos personagens e na trama. De muitas formas, é um dos únicos pontos que realmente vale a menção honrosa.

Quanto aos avanços tecnológicos, será que eles compensam? Bem, é difícil dizer. Os cinemas mundiais – e os brasileiros, principalmente – não estão totalmente equipados para receber Projeto Gemini como originalmente planejado. O que acabamos vendo em tela é uma versão “editada” para salas normais – e até aqui podemos ver problemas graves.

Os efeitos de rejuvenescimento são, em sua maioria, irregulares. Há cenas em que a computação gráfica é boa, mas na maior parte das vezes, o rosto de Júnior (a versão jovem de Brogan) fica um pouco distorcido e isso afeta completamente a reação do público. Até a série melodramática This is Us (2016-), que usa apenas maquiagem, tem efeitos de rejuvenescimento mais críveis.

Outros segmentos afetados pelo uso de CGI são as sequências de ação. Embora haja muito parkour e alguns efeitos práticos notáveis, as cenas de combate corpo-a-corpo usam muita computação gráfica de baixa qualidade. Fica bem nítido a hora em que vemos Will Smith e os momentos em que ele é substituído por um boneco digital que não respeita nem as leis básicas da física.

A montagem do filme também é problemática – e lembra um pouco outro trabalho de Benioff… a sétima temporada de Game of Thrones. Os personagens viajam pelo mundo inteiro em poucas horas, indo de um ponto A a um ponto B em questão de segundos, mesmo quando isso é incoerente com a narrativa ou com a lógica geográfica e da própria dramaturgia do roteiro.

No geral, o filme até tem seu valor de entretenimento, se você quer ver Will Smith atirando para todos os lados e em dose dupla. Mas isso não é o suficiente para que esse projeto se justifique por si só – ainda mais com um roteiro cheio de furos e incongruências (algumas inclusive que entram no terreno de spoilers da trama).

De forma geral, Projeto Gemini até merece um esforço por conta da ambição de Ang Lee e sua equipe. Infelizmente, o filme não entrega metade do que promete e ainda nos presenteia com uma produção problemática e que nem sequer faz com que nos importemos com os personagens – o que é um crime para qualquer filme que nos faz investir duas horas de atenção.

É de se espantar que o mesmo cineasta premiado por As Aventuras de Pi – um filme que mistura uma trama envolvente com efeitos especiais inacreditáveis – consiga produzir um longa tão esquecível e pífio. A culpa principal por isso, é claro, está no roteiro – e aí, não podemos nos espantar ao ver o nome de David Benioff no meio.

Projeto Gemini, no fim das contas, não se sobressai em meio ao cenário atual. Talvez, ele até sirva como uma metáfora de si mesmo – alguém que era o melhor em seu ramo sendo sobrepujado e enfrentado por uma versão sua, mais jovem e “melhorada”. Mas isso seria estender demais o propósito do filme. No fim das contas, o longa é um franco-atirador que mira e não acerta o alvo.

Na lista abaixo, relembre os 10 melhores personagens interpretados por Will Smith:

Projeto Gemini está em cartaz nos cinemas!

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux