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As Crônicas do Jovem Indiana Jones!

Por Raphael Martins

Indiana Jones e a Última Cruzada, lançado em 1989, começava de uma forma muito parecida com os outros dois filmes anteriores. Conforme os primeiros minutos iam se passando, a história ia envolvendo o espectador em uma atmosfera de aventura e perigo. Mas no caso deste filme, a cena inicial tinha uma surpresa: quem nós vemos de jaqueta de couro e chapéu na cabeça não é o herói Indiana Jones. Ele é na verdade o garoto que o observa encontrar a Cruz de Coronado, um tesouro há muito perdido.

O jovem Indy (vivido por River Phoenix), que como a cena mostra, se mete em enrascadas desde a mais tenra idade, rouba a cruz dos ladrões, e então começa uma cena de perseguição frenética envolvendo o herói, que tinha na época apenas 13 anos de idade. E é uma das melhores cenas de todo o filme.

Passado todo o hype da estreia de A Última Cruzada, parecia que as aventuras do arqueólogo vivido por Harrison Ford haviam chegado ao fim. Tanto o ator quanto o diretor Steven Spielberg achavam que três aventuras eram o bastante e que não havia mais nada a ser contado. George Lucas discordava. Aquela primeira cena do filme, que para ele era uma das mais divertidas, não saía de sua cabeça. Foi então que ele decidiu que contaria as aventuras de Indiana Jones desde seus primeiros dias, mas desta vez, nas telinhas da TV.

Nascia aí a série The Young Indiana Jones Chronicles (ou “O Jovem Indiana Jones”, como ficou conhecida no Brasil), que exploraria com detalhes todo o passado do herói do cinema, passando pelos maiores acontecimentos do século XX.

Nos anos que se seguiram, George Lucas traçou uma linha do tempo extensa e cheia de detalhes com toda a vida do herói, desde o ano de seu nascimento, em 1899, até 1934, onde começa Indiana Jones e o Templo da Perdição, que é, cronologicamente, o primeiro filme. O diretor de Star Wars levou então o projeto para o canal americano ABC, que prontamente topou a empreitada. Ninguém diria não para Lucas, um homem cuja a palavra “sucesso” estava diretamente associada à sua pessoa.

Para ajudá-lo a produzir a série, Lucas chamou Rick McCallum, que anos mais tarde trabalharia com ele novamente na trilogia prequel de Star Wars. A intenção de Lucas a princípio era fazer uma série educativa, com Indy encontrando as maiores personalidades históricas do século XX e participando ativamente de alguns dos eventos que mudaram a história do mundo, como a primeira guerra mundial e a revolução russa. Tudo isso com muito humor e aventura, é claro, marcas registradas da franquia.

No papel do Indy criança, tínhamos o ator Corey Carrier, que trazia um ar de inocência e um senso de descobrimento ao personagem. Já a versão adolescente, dos 16 aos 21 anos, ficou a cargo de Sean Patrick Flannery, que precisava usar uma maquiagem emulando a cicatriz que Harrison Ford tinha no queixo em todos os episódios para fins de continuidade. Havia ainda um terceiro ator interpretando o personagem. George Hall fazia um Indiana Jones já idoso, aos 93 anos, que narrava a aventura da vez a cada começo e final de episódio.

Corey Carrier, Sean Patrick Flannery e George Hall: diferentes rostos, mesmo Indy

Ao longo de 28 episódios e 4 telefilmes, acompanhamos a jornada de crescimento do jovem Henry Jones Jr., sempre ao lado de alguma grande personalidade histórica. Vimos um Indy criança caçando ao lado de Theodore Roosevelt, tentando descobrir o real significado do amor com Sigmund Freud e Carl Jung e aprendendo sobre o egito antigo com T.E. Lawrence; acompanhamos um Indy um pouco mais velho em meio a revolução mexicana cavalgando com Pancho Villa, sendo colega de quarto do futuro detetive Elliot Ness na faculdade e se apaixonando pela espiã Mata Hari durante a primeira guerra mundial, entre outras grandes aventuras com grandes nomes da história da humanidade.

A produção da série não custou nada barato para a ABC. Ela foi filmada em 23 países diferentes, durante 152 semanas e teve mais de 15 mil figurantes, com cada um dos 28 episódios tendo um orçamento semelhante a o que um Game of Thrones custaria hoje em dia e levando cerca de 3 semanas para serem gravados. Um esforço que foi reconhecido tanto pelo público quanto pela crítica, fazendo um sucesso arrebatador e se transformando em uma máquina de ganhar prêmios.

Vários atores famosos de ontem e de hoje participaram da série, incluindo Daniel Craig, Catherine Zeta-Jones, Christopher Lee, Vanessa Redgrave e Max Von Sydow. Clark Gregg, o agente Coulson dos filmes da Marvel, e Sean Pertwee, o Alfred de Gotham, também aparecem em episódios da série.

Alguns atores dos filmes também estão no seriado, mas em papéis diferentes. Paul Freeman, por exemplo, que em Os Caçadores da Arca Perdida interpretou o inescrupuloso arqueólogo Renée Belloq, participou de alguns episódios.

A trilha sonora, composta por Lawrence Rosenthal e Joel McNeely e performada pela orquestra sinfônica de Munique, era um show a parte, capturando com uma perfeição quase mágica toda a aura do século XX, sempre se adaptando ao local onde a aventura em questão se passava. Ganhou um Emmy em 1993, um reconhecimento mais do que justo.

Infelizmente, todo esse sucesso não foi capaz de salvar a série do cancelamento. Apesar da boa audiência, a produção era simplesmente cara demais para os padrões da época, o que fez a série ser interrompida para nunca mais voltar ainda na segunda temporada. Das 70 histórias que George Lucas tinha escrito para serem mostradas na TV, apenas 31 foram produzidas, não restando tempo para ligar a série aos filmes.

Em entrevistas posteriores, Lucas falou que, caso a série tivesse continuado, personagens como Abner Ravenwood (o pai de Marion de Os Caçadores da Arca Perdida) e Renée Belloq teriam aparecido, deixando a história mais em sintonia com o que foi visto no cinema.

Ainda assim, a série é canônica, como uma certa cena de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal mostra. Na cena em questão, Indy fala a Mutt Williams (Shia Labeouf) sobre a vez em que foi sequestrado por Pancho Villa, algo que aconteceu na série de TV.

Falando em Harrison Ford, alguns de vocês devem estar se perguntando: ele participou da série de alguma maneira? Felizmente, a resposta para isso é sim! O ator dá vida novamente ao seu personagem mais famoso no episódio O Mistério do Blues, da segunda temporada. Ele aparece de barba, mas isso tem um motivo: Ford estava no meio das gravações do filme O Fugitivo na época, e não podia tirar sua barba por questões contratuais.

Em lançamentos posteriores para o mercado de home video, algumas modificações foram feitas por decisão do próprio George Lucas para deixar a narrativa da série mais palatável e não interferir com ideias para futuros filmes da franquia. Assim sendo, todos os episódios foram reeditados e condensados em 22 filmes de uma hora e meia cada, e todas as participações de George Hall como o Indy idoso foram sumariamente cortadas, como se nunca tivessem existido.

Isso acabou sendo benéfico para o bem da continuidade, já que na série ele menciona que tem uma filha, uma neta e uma bisneta, e em O Reino da Caveira de Cristal, vemos apenas Mutt Williams como o único filho de Indy.

No Brasil, a série foi exibida pela Rede Globo no começo dos anos 90, no horário ingrato da madrugada, após o Jornal da Globo. Pouca gente pôde acompanhar, mas quem encarava o desafio de dormir até tarde se deleitava com aventuras da melhor qualidade estreladas pelo primeiro e único Indiana Jones.

A série completa foi lançada em DVD nos Estados Unidos em 2008, coincidindo com o lançamento do quarto filme, em 3 boxes. Cada um deles vinha com um documentário sobre a produção da série e o contexto histórico dos episódios, o que agrega mais valor ainda à coleção. Infelizmente, esses DVDs nunca foram lançados no Brasil.

Se você é um grande fã das aventuras do arqueólogo que é sinônimo de aventura, vale a pena adquirir a coleção completa de DVDs ou procurar pelos episódios na Internet. Além de acompanhar tramas encantadoras cheias de emoção e humor, você pode acabar aprendendo valiosas lições de história. E buscar por conhecimento nunca é demais, como o bom Dr. Jones nos ensinou.

Fique com algumas imagens de O Jovem Indiana Jones abaixo:

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael