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Aquilo que você mais gostava envelheceu mal. E agora?

- – A nostalgia é algo perigoso.

Por Raphael Martins → O passado é um bom lugar para se visitar de vez em quando. Assistir a aquele filme que fez sua infância mais feliz e você já viu mil vezes e não enjoa, ou jogar aquele seu game preferido quando mais novo pra dar aquela relaxada são diversões plenamente válidas a qualquer dia, hora ou lugar.

Mas vamos combinar de que as coisas eram longes de serem perfeitas há uns quinze ou vinte anos. Ter que sair de casa para alugar um VHS tinha lá sua diversão, mas era chato quando o filme já estava alugado, ou só estava disponível dublado ou legendado – não dava pra ter os dois, você tinha que escolher -e ainda tinha que rebobinar tudo antes de devolver, sob risco de perder uma grana.

Usar memory cards para salvar seu progresso nos jogos também eram uma coisa bem chatinha de se fazer na época do Playstation, algo que era vendido separadamente, aliás. Mais chato ainda era comprar cartuchos de expansão de RAM para jogar certas coisas no Nintendo 64 ou no Saturn, ou não fazer isso e se contentar com gráficos mais pobres. E colocar cabo RF na antena da sua TV para poder jogar? Que saco que era.

Falando em antena, sinal digital era coisa de ficção científica há menos de 15 anos. Muita gente já teve que brigar com o sinal analógico, mudando a antena de posição, tendo que fazer gambiarras para pegar sinal para ver seu programa preferido e de vez em quando até tomando uns choques quando a TV resolvia revidar. Se você sente falta disso, pode estar sofrendo de um caso sério de nostalgia desmedida.

Memory Card do primeiro Playstation: vendido separadamente e com uma memória bastante limitada, só tendo um para salvar seu progresso

Mas apesar de todas as coisas que davam aquela dor de cabeça básica, sempre tem algo daquela época que lembramos com carinho e levamos no nosso coração. Algo que, nas nossas memórias, era perfeito, sublime e acima de qualquer julgamento. Especialmente quando é algo que você não tem vê há muito, muito tempo.

Como um amigo de infância com o qual perdemos contato há anos, mas sentimos vontade de nos aproximarmos novamente, sentimos saudade, lembramos só dos bons momentos e queremos retomar aquela amizade perdida, numa tentativa de, quem sabe, voltar a um tempo onde tudo era mais simples e divertido.

Então, você encontra aquele filme no seu serviço de streaming preferido, ou compra aquele jogo que marcou uma época boa da sua vida, e se prepara para viver tudo de novo. E aí, vem o choque: aquilo é ruim. Bem ruim. Não é nada do que você se lembrava.

Certas coisas são produtos de seu tempo, e com o passar deste, acabam não envelhecendo tão bem, ou até envelhecendo mal mesmo. Na verdade, aquela série, filme ou jogo que você amava era lotado de problemas, que você acabou ignorando pela nostalgia que a lembrança deles te trazia ou se tocando disso só agora, depois de crescido.

E simplesmente não conseguimos entender os porquês. Como conseguíamos gostar daquilo? Da onde que aquilo tinha alguma graça? Isso realmente era tão ruim assim ou fomos nós que mudamos demais? Perguntas que só podem ser respondidas se nos aprofundarmos mais no que nos fazia feliz há tanto tempo atrás.

Power Rangers: Os efeitos especiais eram risíveis e as tramas, bobinhas, mas tem gente que ama até hoje (e não há nada de errado nisso)

Citando exemplos nos games, peguemos Shenmue, um grande clássico do Dreamcast, fruto da mente de uma verdadeira lenda dos arcades da Sega, Yu Suzuki. Foi o jogo mais caro de sua época e apresentava um conceito revolucionário: em um mundo aberto com total liberdade exploração, você deveria interagir com as pessoas da sua cidade e conhecê-las melhor para descobrir pistas, entrar em combate contra vilões e até trabalhar, tudo em um ambiente onde os dias se passavam em tempo real.

O jogo foi relançado recentemente e não envelheceu muito bem. A câmera é travada, a movimentação é dura, a mecânica de combate é confusa e por vezes frustrante e os gráficos, que tanto encantaram há 20 anos, não são mais tão impressionantes assim para os dias de hoje.

Shenmue revolucionou o mercado em 1999 e ainda é um bom jogo, mas envelheceu mal

Outro exemplo dos games que podemos citar é Goldeneye 007, um dos games mais famosos do Nintendo 64, mas que é difícil de se jogar hoje em dia. Apesar de revolucionar o multiplayer local com seus quatro controles e quatro telas divididas, os gráficos já eram estranhos para a época, com personagens excessivamente quadrados, e a jogabilidade era dura e engessada, com a arma mirando sozinha no inimigo mais próximo.

É claro que entendemos as limitações da época e nos divertimos bastante com ele nos anos 90, mas para os padrões de hoje, não é lá um jogo muito bom.

Goldeneye era altamente divertido de se jogar com os amigos, mas com FPSs mais modernos, ele foi se tornando ultrapassado

Com os filmes, isso também acontece. Como uma produção de seu tempo, certos detalhes presentes na trama de vários clássicos do cinema seriam alvo de problematização e críticas hoje em dia. Mas o aspecto mais gritante nesse caso são os efeitos especiais.

Alguém mais novinho que por um acaso do destino pegue algum filme antigo de Star Trek para assistir pode rir dos efeitos ultrapassados para os padrões de hoje e se sentir desencorajado a continuar. Mas nem precisamos voltar tanto assim no passado para citar exemplos de como isso pode envelhecer mal.

Em Matrix Reloaded, de 2003, há uma cena em que Neo (Keanu Reeves) luta contra centenas de clones do Agente Smith (Hugo Weaving). Ela funciona bem quando os atores estão fazendo seus golpes e acrobacias, mas o bicho pega na hora em que eles são substituídos por personagens digitalizados. A sensação de estar vendo um boneco sem vida se mexendo gera muita estranheza e acaba estragando um pouco a experiência se você assistir hoje em dia.

Nesses casos em que algo que você costumava ter adoração acaba envelhecendo mal, o que fazer? Bem, isso depende bastante da sua própria personalidade e da sua disposição em aceitar essa dura realidade.

Alguém mais saudosista, com um forte apego ao passado, pode continuar dizendo para si mesmo que aquilo é perfeito e vai defender seu ponto de vista com unhas e dentes, por mais que os argumentos daqueles que pensam o contrário sejam contundentes. O amor por aquela série, filme ou jogo é maior do que qualquer coisa.

Se for alguém com um pouco mais de senso crítico, mas ainda apaixonado por aquele produto de entretenimento que tanto marcou sua vida, ele vai continuar gostando e indicando para as pessoas como algo incrível, mas lá no fundo ele saberá que aquilo não é mais o que costumava ser.

Agora, se for alguém mais desapegado e de mente aberta, essa pessoa vai continuar gostando do que gostava antes, mesmo reconhecendo todos os problemas presentes. Essa pessoa até rirá deles, admitindo que o produto em questão não envelheceu bem, mas que ainda assim, mora em seu coração. É como aceitar um velho amigo do jeito que ele é, mesmo com todos os defeitos.

Se você entender que os amigos mudam, você não precisa mudar de amigos. E essa lógica também se aplica a qualquer conteúdo audiovisual que você costumava amar e que hoje já não é mais tão legal assim. A vida e a arte caminham de mãos dadas, e o que aprendemos em um pode ser usado no outro, num equilíbrio perfeito. Só depende de você.

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sobre o autor Raphael Martins

Já fui um pouco de tudo: apresentador de TV, repórter, roteirista e hoje sou redator nesse noblário site. Gosto de longas caminhadas na praia, HQs, games, tokusatsu, cinema e filé com fritas. Você pode trocar uma ideia comigo e me ver reclamar da vida no Twitter @aqueleraphael