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A Morte na cultura pop: O único mal irremediável?

Por Raphael Martins

“Ele cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a Terra. Aquele fato sem explicação, que une tudo o que é vivo num só rebanho de condenados. Porque tudo o que é vivo… morre.”

Assim escreveu Ariano Suassuna em O Auto da Compadecida, definindo, com poucas palavras, a inevitabilidade do fim, que mais dia menos dia, virá para todos nós. A morte não poupa ninguém, e nas palavras de um outro grande sábio, “talvez seja o segredo desta vida”. Mas na ficção, mais precisamente nas histórias envolvendo nossos heróis e vilões preferidos, ela não é mais levada tão a sério assim. A pergunta é: ela deveria?

Pensar em morte nos quadrinhos, para muita gente, é pensar nesta imagem

Nas histórias em quadrinhos, é comum personagens morrerem e voltarem. Tanto que, quando uma editora anuncia com pompa e circunstância um grande arco envolvendo um personagem que morrerá ao final dele, não há uma sensação de perigo real, do “mal irremediável” que Suassuna tão sabiamente ressaltou. Todos nós sabemos que, uma hora, aquele personagem retornará e tudo voltará a ser como era antes. Mas isso não era tão comum assim há algumas décadas.

Tomemos como exemplos Gwen Stacy e Ben Parker, duas pessoas extremamente importantes na vida e na formação pessoal do Homem-Aranha. Uma era o amor de sua vida, morta em um infeliz acidente envolvendo o Duende Verde, um dos maiores inimigos do herói. O outro era seu grande exemplo, sua bússola moral, seu ídolo maior, o homem que o tornou o que ele é. Os dois morreram para nunca mais voltar. E não, realidades alternativas não contam neste caso.

Às vezes, personagens que servem como apoio para os protagonistas da história encontram um fim definitivo pelo bem do avanço da narrativa, e isso é compreensível. Mas ao mesmo tempo, a suspensão da descrença meio que cai por terra: em um mundo onde heróis revivem como se nunca tivessem morrido, por que não pode acontecer o mesmo com um Ben Parker da vida? Onde está a justiça para o pobre Peter Parker?

Toda morte é reversível no universo Marvel… a menos que seu nome seja Ben Parker

Personagens cujas mortes são revertidas nunca foram uma novidade nos quadrinhos, mas um evento em especial pode ter engatilhado essa banalização: A Morte do Superman, que em 1993 chocou o mundo inteiro, tendo sido noticiado até mesmo em grandes telejornais, como se se tratasse de um acontecimento real.

Todos conhecem essa história: um monstro chamado Apocalipse, cuja força é irresistível, chega no nosso planeta e deixa um rastro de morte e destruição por onde passa. A única coisa entre ele e o fim da vida na Terra é o Superman, que luta com todas as suas forças para impedir a criatura, acabando por perder a própria vida para conseguir isso. Depois daí, tudo mudou.

O Superman estava morto. O maior herói do mundo se fora. Um sentimento de perda real se apoderou de muita gente, como se tivessem perdido um amigo ou um ente querido. Não havia na época aquela certeza que hoje se tem de que a morte, mesmo na ficção, poderia ser reversível. Até que, eventualmente, ele voltou, fazendo todos respirarem aliviados… ou se sentirem traídos, as reações foram bem diferentes de pessoa para pessoa. Mas a morte do Superman teve seu preço.

Com o sucesso das vendas de A Morte do Superman e todo o barulho que o acontecimento tinha feito ao redor do mundo, reverberando até mesmo no mundo real, tanto Marvel quanto DC viram aí uma ótima oportunidade de sacudir seus universos, mudar o status quo de vários personagens e ganhar milhões de dólares no processo. A partir de então, várias sagas grandiosas foram desenvolvidas e lançadas ao grande público, sempre terminando com a morte de algum nome importante no universo dos quadrinhos.

A Morte do Superman: um dos eventos mais marcantes dos anos 90, dentro e fora do universo das HQs

Daí para frente, não parou mais, e muitos heróis contabilizam várias mortes. O Capitão América já morreu duas vezes. Jean Grey, três. Jason Todd e Damien Wayne, dois Robins, também já morreram e voltaram. Houve até uma vez em que o Coringa, com os poderes do Mister Mxyzptlk, matou o Batman milhares de vezes só para revivê-lo e matá-lo de novo.

Quando nós vamos para os mangás, aí é que a coisa sai do controle mesmo. Quantas vezes os Cavaleiros do Zodíaco já morreram e voltaram como se nada tivesse acontecido? E os personagens de Dragon Ball, que morrem e ressuscitam como se atravessassem a rua? Eu sempre imaginei como seria alguém ligado para a casa do Goku e perguntando por ele…

-Alô?
-Alô?
-Aí é da casa do Goku?
-É sim, quem gostaria?
-Aqui é o Dunha, será que eu posso falar com ele? É sobre uma cápsula com uma câmara de gravidade que ele queria comprar…
-Então, o Goku não tá podendo falar agora, ele morreu. Será que o senhor pode ligar daqui a uma semana?

Goku morreu? Sem problemas, já já tá de volta… como todo mundo em Dragon Ball

Dito tudo isso, não dá para condenar aquele fã que não verteu nem uma única lágrima sequer quando um monte de heróis morreram no final de Vingadores: Guerra Infinita. Os “corações de pedra” tem um ponto. Se todos aqueles heróis já tem filmes confirmados para o futuro, por que se importar? Seu retorno, pelo menos em teoria, é líquido e certo. Mas essa não é a questão.

Voltemos a aquela pergunta do começo desse texto: a morte deveria ser levada tão a sério assim nessas histórias? A resposta, meus amigos, só vocês podem dar. É algo que tem a ver com gosto pessoal, com o tipo de experiência que cada um quer ter. Mas eu gosto de pensar que não.

Essas histórias são muito mais que simples formas de escapismo de um mundo cruel e impiedoso, que nos testa dia após dia. Heróis são criados para nos inspirar, para fazerem com que queiramos ser a melhor versão de nós mesmos. Eles nos dão a esperança de que vale a pena lutar pela causa em que acreditamos, e que se seguirmos seus exemplos e fizermos sempre o que é certo, este mundo pode se tornar, finalmente, melhor.

Um herói tombar é algo que tem a ver diretamente com esse sentimento de esperança, que se abala e se apaga, mas que nunca morre, mostrando que não existe nenhum mal que não possa ser remediado, contrariando Ariano Suassuna. Heróis de verdade não morrem, assim como as esperanças e sonhos de vocês não deveriam morrer.

A morte vem para todos nós, mas existem coisas que nem mesmo o poder dela pode eliminar.

Veja também algumas fotos da versão animada de A Morte do Superman:

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sobre o autor Raphael Martins

Redator, apresentador e roteirista. Gosto de longas caminhadas na praia, Star Wars, tokusatsu, anime e filé com batata frita. Deixo as pessoas constrangidas. Você pode trocar uma ideia comigo no Twitter: @aqueleraphael