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A indicação já é uma vitória!

Por Gus Fiaux

Podem já ter se passado alguns dias desde que as indicações da nonagésima primeira edição do Academy Awards – popularmente conhecido como Oscar – foram reveladas, mas nós ainda estamos nos recuperando do choque. Com sete indicações ao total, Pantera Negra foi o primeiro filme de super-heróis da história a entrar na disputa para Melhor Filme. E isso é um grande motivo a se comemorar.

Há anos que a cerimônia – realizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – não reconhece o papel dos blockbusters dentro do cinema “de arte”, como é distinto. No entanto, algumas edições anteriores já mostraram pequenos passos de como isso poderia acabar ganhando uma nova dimensão.

Se, há exatos dez anos atrás, a cerimônia enfureceu os fãs por ter completamente esnobado Batman: O Cavaleiro das Trevas da categoria principal – por mais que o longa tenha recebido oito indicações e inclusive levado para casa o prêmio póstumo de Melhor Ator Coadjuvante para Heath Ledger, hoje temos uma mudança perceptível no que diz respeito ao caráter da Academia com os filmes mais “populares”.

Uma edição que marca essa mudança foi justamente a de 2016, que premiou os longas do ano anterior. Muitos podem até não se lembrar, mas um dos filmes mais populares e fortes da noite foi Mad Max: Estrada da Fúria, que em sua essência, é um blockbuster de alto calibre e adrenalina.

Desde então, os grandes arrecadadores de bilheterias parecem estar cada vez mais presentes. Mas ainda faltava a honra de ver um filme de super-herói indicado ao prêmio da noite. E a indicação de Pantera Negra é o reflexo dessas mudanças, da adição de novos membros à bancada de votantes, da percepção mundial sobre os filmes baseados em quadrinhos e até mesmo sobre o momento cultural em que vivemos.

Enquanto pautas como diversidade, representação e igualdade racial estão cada vez mais em alta, o filme surpreende justamente por mesclar todo o aspecto social à ação e pancadaria que já esperamos de uma luta entre bem e mal – por mais que os limites aqui sejam bem mais tênues.

Óbvio que isso foi um dos fatores importantes para a sua seleção, tendo em vista o quanto o Oscar preza por esse tipo de história. Ao mesmo tempo, no entanto, a simples escolha de um filme que conseguiu conquistar a crítica e o público enquanto fez rios de dinheiro é um óbvio indicativo de que a Academia está realmente voltada para o apelo mais pop e menos pedante. E Pantera Negra está longe de ser o único exemplo disso – basta ver as indicações de filmes que, em outras edições, jamais teriam chance, como Bohemian Rhapsody.

Por conta dessas questões, surpreende ver tantos ditos fãs de quadrinhos negativando a escolha do filme e citando-o como “uma ode à lacração” – como se qualquer modelo que deriva do padrão e milita por uma causa fosse algo pejorativo e indesejável.

O que Pantera Negra fez para os filmes de super-heróis foi justamente colocá-los em enfoque em mais de uma esfera, tirando-o de uma categorização chula para transformá-lo em um filme que pode ser apreciado em festivais e em grandes premiações.

Claro que outros filmes, como o já citado Batman: O Cavaleiro das Trevas, já haviam feito isso antes, mas uma conquista não diminui a outra. Com Pantera Negra, é a primeira vez que vemos uma mídia que tanto amamos sendo lançada para além de um “nicho”, e ganhando um status artístico que sempre mereceu ter – afinal de contas, apesar dos pesares, o Oscar continua sendo, aos olhos da mídia e do mercado cinematográfico, um atestado de qualidade.

E em vez de criar revoltas porque o filme não atende aos pré-requisitos da norma – como se já não houvessem centenas de outros que tenham feito isso – ou é “superestimado” aos olhos de alguns, a comunidade nerd deveria se rejubilar, pois pela primeira vez um filme de super-heróis conseguiu tamanha conquista.

E não pense que Pantera Negra é o único destaque. A indicação de Homem-Aranha no Aranhaverso em Melhor Animação e a de Vingadores: Guerra Infinita em Melhor Efeitos Visuais, por mais que previsíveis, são um atestado de como os “cabeças” de Hollywood prezam por um “gênero” que ainda é mal-visto pelo “cinema de arte”.

Mas agora, mas do que nunca, podemos esfregar na cara e dizer que super-herói também é arte. Que adaptações de quadrinhos podem render ótimos filmes e que, mais do que nunca, há espaço para inovações em uma premiação que há anos era engessada e careta. A nossa hora chegou!

Na galeria abaixo, fique com imagens de Pantera Negra:

A cerimônia do Oscar ocorrerá no dia 24 de fevereiro de 2019.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux