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A compra da Fox pela Disney não é algo tão bom assim!

Por Evandro Lira

Com muitas expectativas e idas e vindas, finalmente aconteceu. A Disney é detentora de um dos maiores estúdios de Hollywood, a 21st Century Fox. E isso, é claro, significa muito para os fãs de quadrinhos, que há anos sonham em ver os personagens de X-Men e do Quarteto Fantástico integrados aos super-heróis da Marvel Studios. Mas o que isso realmente significa para o seu lado consumidor? É totalmente compreensível que seu lado fã fique animado, mas vários analistas da indústria dizem que você também deve ficar preocupado.

A fusão da Fox e da Disney, que sempre foram dois grandes e tradicionais estúdios de Hollywood, tira do mercado cinematográfico uma das possibilidades de concorrência. Se na última década, a Disney vinha se tornando a dona dos maiores blockbusters do ano (é só olhar o calendário da Disney em 2019, que tem pelo menos um grande lançamento ao mês), agora ela também se torna dona de franquias como Alien, Planeta dos Macacos, Kingsman, Avatar, A Era do Gelo, Percy Jackson e claro, X-Men. Sem falar em produções de médio orçamento da Fox que costumam atender a uma parcela específica do público mas que também é importante para movimentar a indústria.

E o que deve acontecer com todas essas franquias e produções? Elas provavelmente serão espalhadas e modificadas para atender ao calendário inflado da dona Disney, que é óbvio, não vai querer concorrer com ela mesma.

Algo que muitos analistas também apontam é como a hegemonia da Disney pode afetar também o mercado exibidor de cinema e como isso reflete diretamente no consumidor. Segundo uma publicação da The Antlantic, a Disney agora possui 35% do mercado cinematográfico, o que é mais que o dobro da segunda empresa mais bem colocada, a Warner. E isso pode fazer com que a Disney tome algumas liberdades com os exibidores. Algo até que ela já tinha experimentado fazer antes.

Com o lançamento de Star Wars: Os Últimos Jedi em 2017, a Disney pressionou que os cinemas norte-americanos exibissem o filme em suas maiores salas por quatro semanas consecutivas e ainda pagassem 65% do valor dos ingressos, quando o normal é o estúdio levar de 40 a 55% de cada venda. Algo parecido a empresa já havia feito com Star Wars: O Despertar da Força, onde a Casa do Mickey pediu 64% do valor dos ingressos e exclusividade de 2 semanas nas maiores salas dos multiplex.

E se a Disney sentir que pode fazer isso sempre, especialmente agora que domina o mercado com anos luz de vantagem, o cenário pode não ser bom, afinal os cinemas precisarão pagar mais para um único estúdio e ainda terão que ocupar suas maiores salas por várias semanas sem ter qualquer decisão sobre isso. Certamente é algo que pode acarretar em aumento no valor dos ingressos e em menos espaços para filmes menores ou não relacionados a Disney.

Outro caso que corrobora tudo isso repercutiu no Brasil em 2017. A Disney estava prestes a lançar o filme da Pixar, Viva: A Vida É uma Festa, quando exigiu que as salas de cinema brasileiras repassasem 52% do faturamento do filme, quando há pelo menos duas décadas, o lucro vem sendo dividido meio a meio. Isso deixou vários donos de cinema revoltados e eles ameaçaram boicotar o filme por aqui.

Além do aumento dos ingressos, uma prática como essa, caso volte a se repetir, pode prejudicar os pequenos cinemas e até mesmo fazer com que grandes filmes tenham mais dificuldade de chegar até nós.

Em um outro momento, a Disney chegou até a vetar um jornalista do Los Angeles Times da sessão de imprensa de Star Wars: Os Últimos Jedi depois que ele publicou uma reportagem tecendo uma crítica a empresa. A polêmica foi tão grande na época, que diversas associações de crítica e imprensa ficaram do lado do jornalista acusando a Disney de censura, ameaçando até mesmo boicotarem qualquer produção do estúdio.

Esses são casos realmente questionáveis, mas ainda vale refletir e colocar na balança o que pode significar para a nossa cultura ter toda uma safra de grandes filmes sendo feitos a partir de uma mesma empresa, com suas ideologias e interesses reinando sobre todo o mundo.

Como fãs de quadrinhos, mas também de cinema, nos resta torcer para que a Disney entenda o tamanho da responsabilidade que ela tem nas mãos e se esforce para ser cada vez mais um exemplo de estúdio que acompanhe o seu tempo. Atitudes autoritárias como as mencionadas não combinam nada com uma empresa que sabe ganhar dinheiro se reinventando e criando alguns dos maiores legados do cinema.

O filme mainstream deve ganhar um novo rosto a partir da próxima década, e sim, Dona Disney, estamos realmente ansiosos e desejando que ele seja mais original, diverso, e claro, de qualidade. É o que todos deveríamos querer.

 

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sobre o autor Evandro Lira

Bacharel em Cinema e Audiovisual, potterhead das antiga, filho dos filhos do átomo, fã de mais coisas do que deveria, frequentemente falando sozinho no Twitter. Segue: @evandroslira