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Versões Estendidas – Uma prática incentivável ou propaganda enganosa?

Por Gus Fiaux

Imagine-se na seguinte situação: você está louco para ver um grande filme, que está prestes a sair nos cinemas em alguns meses. Você conta os dias, junta seu suado dinheiro e tenta conseguir o melhor lugar da primeira sessão, confiante de que terá uma das melhores experiências da sua vida. Mas ao sair do cinema, você se sente frustrado e desencantado, pois o filme não é nada como você esperava. Na verdade, ele é bem decepcionante e aquém das suas expectativas.

Mas não se preocupe! Pois antes mesmo de sair de cartaz, o diretor e o estúdio já confirmaram: vai ter uma edição estendida! Serão mais trinta minutos de filme, que com certeza vão melhorar a experiência e trazer mais sentido para a obra! E você poderá comprá-la daqui a cinco meses, em Blu-Ray. E não se preocupe, pois também teremos vários extras e bônus do filme, cada um melhorando ainda mais a experiência!

Mas afinal… será que isso é justo?

Primeiro, nos permita analisar o fato de que edições estendidas não são coisa nova. Você pode até ter achado que Batman vs Superman: A Origem da Justiça foi inovador nesse quesito, mas muitos filmes ganham versões aumentadas desde o surgimento e a popularização do home video. Posso citar até mesmo algumas fitas cassetes que tinha em casa, com “cortes do diretor” de filmes famosos.

Basicamente, a ideia de uma versão estendida surge de vários princípios diferentes. O primeiro deles diz respeito ao estúdio e seus interesses comerciais. E antes que você jogue pedras dizendo que “estúdio X só pensa no dinheiro ou estúdio Y não se preocupa com o público”, gostaria de lembrar-lhes que é assim que funciona o mercado. É óbvio que é importante fazer algo com uma boa qualidade, mas de nada adianta se esse filme não terá um bom alcance entre o público.

Quando o longa passa na sala de edição e montagem, temos basicamente três grandes opiniões que influenciam a obra: a opinião do montador – que é o especialista nessa área, e possui uma visão bem menos influenciada pela obra –, a opinião do diretor – que às vezes até sabe o que é melhor para o filme, mas que pode ter ideias parciais devido ao trabalho nos outros estágios do projeto – e, por fim, a opinião dos executivos do estúdio.

Basicamente, os executivos analisam o filme e sua potência comercial. Nesse sentido, eles precisam tomar algumas decisões para que o alcance seja grande o bastante para pagar o projeto e render lucros ao estúdio. E nesse sentido, tempo é dinheiro.

Pense bem: se seu filme é menor, maior será a quantidade de sessões que ele poderá ter por dia em uma sala de cinema. Dessa forma, o lucro potencializado é bem menor. O contrário também é válido para filmes muito grandes. É quase impossível imaginar Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei tendo mais que três sessões diárias em uma sala de cinema que tenha o funcionamento “normal”, das 12h às 00h, por exemplo.

Assim sendo, muitos executivos demandam, na sala de corte, que algumas cenas sejam cortadas para que o longa fique menor e, consequentemente, tenha mais sessões diárias, alcançando um público potencialmente maior.

No entanto, nem tudo são flores. As opiniões dos executivos podem ir totalmente contra a visão original do diretor ou até mesmo o trabalho do montador. E é geralmente assim que começam os problemas. Se paramos para pensar em filmes como o já mencionado Batman vs Superman, Esquadrão Suicida, Cruzada, Liga da Justiça e até mesmo Demolidor (de 2003), temos aí filmes que foram destroçados em sua versão cinematográfica, devido à interferência executiva.

E por mais que o diretor não concorde com isso, ele não deixa de ter sua parcela de culpa.

Quando trabalhamos com cinema, somos ensinados a ser econômicos em tudo o que podemos ser. Dessa forma, é muita loucura crer que um filme de 3 horas e meia poderá ser lido como um blockbuster e vendido com esse mesmo formato para os cinemas. São raríssimas as ocasiões em que isso ocorre, ainda mais em uma época onde são vários os lançamentos semanais, e os estúdios precisam competir pela atenção de seus projetos.

Assim sendo, por que diabos você, como diretor de um filme aguardado, o filmaria como um “épico” de quatro horas, sabendo que o formato não é aceitável pelos estúdios e é até mesmo menosprezado pelo público geral, que não constantemente não dispõe de tempo – e nem paciência – para ver uma obra tão grande, por melhor que ela seja.

É então bem inconsequente da parte de alguns diretores criarem filmes dessa proporção, e planejá-los de uma forma que eles só funcionem com suas três horas garantidas. Mais inconsequente ainda é se apoiar na edição estendida, corte de diretor ou versão definitiva para entregar algo que deveria estar com o público desde a primeira ida aos cinemas.

Não entenda mal. Edições estendidas são interessantes, mas apenas em alguns casos específicos. Vamos considerar, por exemplo, as versões de O Senhor dos Anéis, os dois primeiros filmes de Harry Potter, Homem-Aranha 2 e até mesmo Aliens: O Resgate.

O que todas as edições desses filmes têm em comum? Elas não mudam a história do longa como foi produzido originalmente. Em vez disso, temos aqui acréscimos irrisórios, que servem apenas para dar ao público um gostinho a mais da história. No caso de Homem-Aranha 2 e Aliens, temos mais cenas de ação. E para As Duas Torres e A Câmara Secreta, por exemplo, temos mais cenas tiradas exatamente dos livros em que são baseadas, alegrando os fãs do material original.

Ainda assim, quem pagou para ver esses filmes no cinema não será lesado por perder algo importante da obra. Analisemos, por exemplo, o caso de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido. O público passou meses vendo pôsteres, cartazes e até mesmo trailers com a Vampira. Porém, pouco antes do lançamento, foi revelado que a personagem não estaria no filme, mas seria o foco de sua própria edição estendida, lançada meses após o lançamento do longa.

Isso só não é completamente desonesto com o público porque ao menos foi avisado que ela seria cortada antes do lançamento. Ainda assim, não é todo mundo que acompanha notícias a respeito desses filmes, e não deixa de ser o caso onde você precisa comprar um “DLC” para ter uma obra completa.

Além disso, vale lembrar outro fator importante: essas versões estendidas geralmente são lançadas apenas em Blu-Ray, que é uma mídia relativamente mais cara que o DVD normal. E, pensando em um mundo hipotético onde a pirataria não existe, isso basicamente força o público a pagar muito mais caro por uma obra que lhe foi prometida de uma forma e ele agora recebe de outra.

Em breve, teremos uma versão estendida de Deadpool 2 para o Blu-Ray. Se trará apenas acréscimos pontuais ou se mudará essencialmente a história, ainda não sabemos. Precisamos ver o filme para descobrir. Mas isso não muda o nosso questionamento: afinal, será que essa versão precisava existir?

O mesmo questionamento assolou os fãs na época do lançamento de Liga da Justiça. Até hoje, muitos clamam pelo lançamento de um Snyder Cut – e até mesmo o próprio diretor parece ficar contente com a ideia (o que abre margem para um novo texto que deve ser publicado em breve). Contudo, até onde isso é uma iniciativa realmente importante, já que o diretor teve, supostamente, sua obra original deturpada pelo estúdio, ou até onde isso é apenas mais uma forma de extorquir dinheiro de um público que não ficou satisfeito com uma versão que devia estar em excelente estado já nos cinemas?

Isso, é claro, fica a cargo de cada um. Por mais que tenhamos opiniões contraditórias a respeito de versões estendidas, não há como negar que algumas possuem sua máxima importância… do contrário, Blade Runner: O Caçador de Androides e Cruzada seriam até hoje consideradas atrocidades da sétima arte.

E você, o que pensa sobre isso?

 

Abaixo, fique com uma lista de 10 versões estendidas que fizeram a diferença nos cinemas:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux