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Representação e Orgulho: Uma luta constante!

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Por Gus Fiaux

Junho é um mês muito importante para a comunidade LGBTQ+, considerando que é considerado o Mês do Orgulho. É uma celebração da diversidade, e uma época em que podemos nos lembrar da luta contínua por mais representatividade e espaço não apenas na mídia, como também no mundo. No mundo nerd, essa batalha é constante, já que o espaço garantido por esses personagens em filmes, séries e HQs ainda é muito pequeno.

Como um homem bissexual, que sempre teve essa identificação de orientação sexual e afetiva, sempre foi difícil encontrar rostos com os quais pudesse me identificar. E não, isso não impediu que eu me encontrasse em personagens heterossexuais. Quando criança, não deixei de ser fã do Homem-Aranha, do Homem de Ferro, do Batman e até mesmo do Ciclope.

Porém, a questão da representação de fato muda a perspectiva de qualquer um sobre seu local no mundo. No meu caso, as coisas passaram a mudar no momento em que pude comprar X-Men Extra #104. A minha história com esse título específico, na verdade, é bem curiosa. Foi a primeira revista dos X-Men que pude comprar nas bancas, já que era grande fã da trilogia original dos heróis mutantes, mas até então nunca tinha lido uma história completa dos personagens.

No mix selecionado da edição, estava escondida uma história que mudaria minha percepção sobre o papel midiático na normalização e aceitação daquilo que é diferente: X-Factor #45. O título trazia o beijo de Rictor e Shatterstar, e eu nem sequer sabia antes de comprar a edição. Foi o primeiro beijo gay da história da Marvel Comics, e um dos passos mais importantes na jornada de representação da editora.

Hoje, quase dez anos após ter comprado aquela primeira revista, Rictor e Shatterstar continuam sendo um dos meus casais favoritos das HQs, por mais que eles não estejam mais juntos. Foi também um momento muito importante da minha formação pessoal. No ensino médio, cheio de dúvidas e sem poder conversar muito com outras pessoas sobre o assunto, foi ali, em um quadro, que percebi que também podia reconhecer personagens como eu nas HQs.

Com isso, a fome por ler mais histórias que trouxessem personagens LGBT aumentou. Aos poucos, eu conheci mais sobre os Jovens Vingadores, uma equipe que até hoje, mesmo depois de desfeita (podemos ver um padrão aqui), continua sendo meu grupo de super-heróis favorito. Através desse grupo, pude conhecer personagens como Wiccano, Hulkling, Miss América e até mesmo uma versão bem diferente do Loki, todos personagens que ajudaram não apenas a mim, mas a várias outras pessoas, trazendo um forte ideal de aceitação.

E eu não me restringi à Marvel. Em pouco tempo, estava lendo The Authority, em busca das histórias do Meia-Noite com o Apollo e até mesmo algumas HQs mais “fora de circuito”.

Resumo esse texto às HQs, mas o processo de libertação foi muito maior que isso. Foi vendo filmes e séries que possuíam personagens como eu que pude entender, aos poucos, que estava tudo bem em ser quem eu sou, mesmo com exemplos latentes de preconceito e intolerância por vários lugares.  

Foi inclusive, através desse espaço, que pude me encontrar no lugar onde estou hoje, escrevendo para vocês. Por ter visto personagens que nem eu, e logo ter me interessado mais sobre o assunto, encontrando pessoas que também compartilhavam de experiências parecidas. Aqui na Legião dos Heróis, trabalho em uma redação composta, em boa parte, por pessoas LGBTQ+.

Por isso continuamos batendo na tecla da importância da representação. Para a maior parte do público hétero, isso nunca sequer foi uma questão, porque exemplos de representatividade nunca faltaram nesse sentido. Crescemos todos envoltos pela típica representação de heróis heterossexuais e seus interesses românticos coadjuvantes.

Se você parar para pensar em um contexto mais amplo, não é apenas o núcleo LGBTQ+ que é afetado por essa norma padrão da mídia. Se pensarmos que super-heróis estão no imaginário popular há quase um século, e que filmes do “gênero” são produzidos em larga escala desde 1978, com a estreia de Superman: O Filme, podemos observar que a representação de heróis negros só está ganhando destaque agora, através de filmes como Pantera Negra e séries como Raio Negro e Luke Cage – ainda que a representação tivesse ocorrido de forma muito escassa no passado, com Blade e Aço.

No campo feminino, as coisas são igualmente complexas. Após os fracassos de Supergirl, Elektra e Mulher-Gato nos cinemas, as heroínas só voltaram a ter destaque no ano passado com Mulher-Maravilha. Com sorte, as séries de TV sempre tiveram um espaço um pouco mais consciente, se lembrarmos da série da Princesa de Temíscira na década de 70, Aves de Rapina, Supergirl, Agente Carter e Jessica Jones.

A inclusividade inclusive gera um retorno positivo para os estúdios de cinema – já que, teoricamente, você está alcançando um público bem maior e mais diverso. E se há qualquer tipo de dúvidas sobre isso, basta ver as inúmeras matérias sobre o sucesso do filme de Diana Prince ou do Rei T’Challa – ou até mesmo fugindo da dimensão dos heróis, o caso de Star Wars: O Despertar da Força, que teve uma das maiores bilheterias de todos os tempos, mesmo sob a ameaça de um boicote.

O ponto principal desse tipo de discussão é que, muitas vezes, por sempre terem sido agraciados com personagens que os representam, boa parte do público “tradicional” menospreza e rejeita iniciativas de inclusividade em filmes e séries.

Vocês provavelmente já leram – e alguns até escreveram, talvez – comentários aqui mesmo, que dizem que a ideia de um espectador se ver refletido nos filmes é “coisa de gente doida”, e que por conta disso, “ninguém que é LGBTQ+, negro ou mulher precisa necessariamente de personagens assim para se sentir representado”.

Isso traz uma retórica bem clara: se representatividade não é importante, qual o problema de se conectar com personagens que estão fora do padrão midiático de Hollywood? Porque é tão difícil ao menos tentar estabelecer um diálogo e ouvir as necessidades alheias às suas? Muitos dizem que não se trata de um preconceito – ou melhor, de um pré-conceito. Mas como você pode ter a certeza de que não é uma ideia pré-concebida se nunca ou quase nunca teve contato e experiência com vivências diferentes às suas?

É mais triste ainda notar que esse tipo de preconceito às vezes parte da comunidade nerd – um núcleo historicamente perseguido e marginalizado dentro de escolas e até mesmo de boa parte da era anterior à explosão dos Vingadores, Guardiões da Galáxia e da Liga da Justiça nos cinemas. Às vezes, falta uma empatia que é necessária para qualquer um, mas que não justifica sua ausência em um grupo tão análogo.

Finalizo este texto com três recados. O primeiro deles destinado não apenas às editoras de quadrinhos, como também aos estúdios de cinema, emissoras televisivas, produtoras de games, empresas de marketing e todo tipo de setor que almeja alcançar um bom público: não usem a comunidade LGBTQ+ apenas como trampolim, apenas para trazer uma audiência maior sem que algo seja dado em troca.

Chega de campanhas que se vangloriam da presença de personagens com esse tipo de representatividade que, ao mesmo tempo, não são representativos. Estamos exaustos de exemplos como o LeFou de A Bela e a Fera e a Ranger Amarela de Power Rangers, onde sempre é criado todo um auê em cima da participação LGBTQ+ para, no fim, apenas nos oferecerem migalhas.

Aos amigos e aliados que fazem parte tanto do meio nerd quanto do meio LGBTQ+, fica o pedido que nunca deixemos de esquecer o que realmente importa em nossa luta diária, e que demandar e exigir representação é uma batalha construída aos poucos. Ao mesmo tempo, peço que exista mais paciência em algumas discussões e debates – por mais que estejamos acostumados com o contrário, há pessoas fora do meio que apenas querem – ou só precisam – se informar mais.

Por fim, ao público hétero que consome os mesmos tipos de produtos midiáticos que nós: nós definitivamente não queremos tomar seus lugares. Por mais que nunca faltem memes e zoações do tipo, tudo o que pedimos é uma chance para termos o mesmo espaço que você sempre teve em filmes, séries, HQs e qualquer tipo de produto que lide com personagens e histórias.

Sempre que lutamos por mais representatividade de gays, lésbicas, transgêneros e todo tipo de pessoa que não se encaixa em um meio “padrão”, tudo o que queremos é poder nos ver em nossos heróis. É ver que esse tipo de narrativa não é exclusivo para um grupo seleto, e que há diversidade na hora de encontrarmos rostos que nos motivam – afinal de contas, o parquinho é um lugar melhor quando há bastante gente para brincar.

E se você está disposto, depois de tudo isso, a pelo menos tentar entender melhor o assunto ou então discutir com respeito e honestidade, sinto que fiz minha parte em uma comunidade que, muitas vezes, só precisa de mais conversa e menos guerras civis.

Aproveitando o assunto, conheça aqui 10 heróis LGBTQ+ que gostaríamos de ver nos cinemas:

E se você busca representação LGBT em filmes e séries de super-heróis, aqui vão algumas dicas: Luke Cage, Os Fugitivos, Jessica Jones, Legends of Tomorrow, Supergirl, Raio Negro e Thor: Ragnarok.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux