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Punho de Ferro: 2ª Temporada – Suave Redenção!

Por Gus Fiaux

No ano passado, era difícil não encontrar um fã da Marvel que não tivesse ficado pelo menos decepcionado com a primeira temporada de Punho de Ferro. Considerada até hoje como a pior série da parceria entre a Casa das Ideias e a Netflix, a série da Arma Imortal de K’un-Lun veio com uma série de problemas grotescos de roteiro e construção personagens, além de lutas e cenas de ação sofríveis.

Agora, o segundo ano da série está prestes a estrear na Netflix, e já tivemos acesso aos seis primeiros episódios. E já para aliviar os fãs, adianto o seguinte: ainda há muito a ser melhorado, mas o Punho de Ferro finalmente foi redimido nesse universo.

A construção de Danny Rand se deu de uma forma bem espaçada dentro das séries do Universo Cinematográfico da Marvel. Se a primeira temporada do programa solo do herói não serviu para apresentá-lo com dignidade, Defensores se provou um primeiro passo na direção certa, e uma breve participação especial na segunda temporada de Luke Cage veio para mostrar o quanto havia potencial de salvação.

E isso finalmente se provou. O primeiro ponto positivo está na caracterização e nos personagens. Agora, todos têm sua própria trama de forma ampla, mas ninguém se sobressai à história principal do próprio Punho de Ferro. Por exemplo, muitos elementos da primeira temporada foram mantidos: a trama corporativa da Rand Enterprises, a provação de Colleen Wing e a vingança de Davos.

No entanto, esses elementos servem à favor da história do herói central – que, graças aos céus, parou de ficar falando o tempo todo sobre como é “o Punho de Ferro, arma imortal de K’un-Lun, inimigo jurado do Tentáculo”.

Aliás, aqui entra outro mérito poderoso: as atuações. Se a primeira temporada da série tinha atores bons, mas mal-aproveitados, e liderados por um Finn Jones nada confiante e muito menos crível em seu papel, o segundo ano vira isso de ponta-cabeça. A começar que Jones está muito mais natural, carismático e interessante. O ator agora traz seu personagem de uma forma mais leve, sem a intensidade extra-dramática do ano anterior.

O mesmo vale para outros membros do elenco. Jessica Hardwick, Jessica Stroup e Sacha Dhawan estão bem mais confortáveis nos papéis de Colleen Wing, Joy Meachum e Davos. Eles representam bem o trio coadjuvante da série, cada um com sua própria trama pessoal amplificada.

Infelizmente, o mesmo não pode-se dizer sobre Tom Pelphrey como Ward Meachum. O personagem provavelmente teve a melhor construção do ano de estreia da série, com um arco de redenção que o deixou bem mais próximo de Danny e mais distante de seu pai, Harold. No entanto, ele parece ter regredido em termos de personalidade, e sua trama pessoal só serve para consolidar o espaço de sua irmã.

Quanto à novata Alice Eve, que está interpretando a aclamada vilã dos quadrinhos Mary Tifoide, há um estranhamento inicial, que nos faz pensar que ela está fora do tom em relação à série. No entanto, isso logo vai se mostrando parte da construção da personagem enquanto uma mulher que sofre de transtorno dissociativo de personalidade.

Tanto que o lado “bom” dela é justamente o mais insosso – e não há nada de errado com isso. Pelo contrário, conforme ela vai revelando suas camadas e se mostrando Mary Walker – sua versão “maligna” –, a personagem fica cada vez mais interessante e única. E é lindo vê-la lutando com seus facões gigantes, sedenta por sangue.

Aliás, aqui está uma melhora significativa que merece ser aplaudida de pé: as cenas de batalha. Se a primeira temporada tinha uma coreografia vergonhosa, agora temos lutas impactantes e que não são apenas bem coreografadas, mas que também são muito bem dirigidas e editadas. Muitas vezes, dá para sentir a ação, ainda que não se aproxime das cenas de luta da primeira temporada de Demolidor, por exemplo.

Por essas e outras, a maior qualidade desse “retorno” de Punho de Ferro é a saída de Scott Buck. O showrunner, não contente em estragar o ano de estreia da série de Danny Rand, também fez a atrocidade chamada Inumanos, e desde então, a Marvel Television fez questão de sumir com ele do horizonte.

Raven Metzner, o novo produtor, pode não ter lá um currículo muito brilhante, tendo escrito o roteiro de Elektra e produzido o revival Heroes Reborn, ambos bombas de crítica e público. No entanto, aqui ele se mostra um condutor competente, que ao menos soube corrigir erros estruturais da série, de forma que a segunda temporada de fato apresente seus personagens de uma maneira digna.

No entanto, nem tudo são flores, pois há alguns pontos em que a série ainda caminha sobre a corda bamba. Por exemplo, há o problema do plot. Em seis episódios, a série parece não ter um “tema central”. Em vez disso, somos apresentados às situações, que levam umas às outras de forma fluida – o que nem é de todo ruim.

No entanto, isso acaba tirando o peso de algumas coisas. Por exemplo, a presença inicial de Davos tira um pouco de sua imponência quando ele passa a migrar para um lado totalmente vilanesco, se tornando o Serpente de Aço. Além disso, falta uma força maligna maior – o que com certeza pode ser “corrigido” nos quatro episódios restantes da temporada. Infelizmente, no entanto, a guerra entre tríades nova-iorquinas não é o suficiente para manter o público atento por muito tempo.

E isso leva à questão da enrolação, típica das séries da Marvel/Netflix. Sabemos que o segundo ano de Punho de Ferro terá apenas dez episódios, mas é quase impossível não sentir que dava para cortar pelo menos um episódio dentre os seis iniciais. E isso acaba consumindo um ritmo e um gás que a série precisava para comprovar sua total redenção.

Além disso, um outro elemento que precisa ser tratado – embora não esteja de todo ruim – é o visual e a estética. Verdade seja dita, a série nem sequer parece fazer parte do Universo Cinematográfico da Marvel, justamente porque ela não tem nenhum apelo visual para o público. Tudo é muito morno, no que diz respeito às cores, figurinos e até mesmo à fotografia.

Isso se junta a outro problema que descende da primeira temporada: a série ainda não consegue aceitar sua própria herança dos quadrinhos. Se houve uma melhora significativa para transformar Punho de Ferro em uma série boa, após um primeiro ano catastrófico, nenhuma tentativa foi feita para dar aos fãs o sentimento de que há algo a mais no ar.

Ou seja, ainda há muita recusa em assumir sua origem quadrinesca. Até mesmo alguns flashbacks passados em K’un-Lun retratam essa cidade mística como um ambiente frio, sem vida e nada imaginativo. Pouparia o esforço se tivessem dito que Danny Rand foi parar em qualquer vilarejo do Tibete.

E isso continua sendo reforçado nas roupas. Por mais que Danny passe a usar um “traje” que lembra a palheta de cores de seu uniforme clássico nos quadrinhos – basicamente, um capuz verde e um pano amarelo no rosto -, ainda faz falta vê-lo usando algum traje de batalha mais cartunesco.

E o mesmo vale, por exemplo, para Davos e Mary Tifoide, que apesar de serem personagens interessantes, são visualmente genéricos e sem personalidade. Mas ainda, vale lembrar que restam quatro episódios, e esses “erros” podem muito bem ser consertados ou não. Só saberemos nesta sexta-feira, quando a temporada inteira for disponibilizada na Netflix.

Assim sendo, vale elogiar o segundo ano de Punho de Ferro. De fato, não parece a mesma série desinteressante, chata e modorrenta que vimos no ano passado. Assim como uma fênix, ela precisou ressuscitar e se transformar em algo novo – algo melhor. E é justamente isso que acontece, com um elenco bem mais preparado e uma equipe técnica que, diferente do showrunner anterior, sabe o que faz.

Ainda assim, há questões que precisam ser melhor elaboradas e trabalhadas com mais calma, para que a série se mostre firme de vez entre o núcleo dos Defensores no Universo Cinematográfico da Marvel. Por ora, o que podemos fazer é esperar que, após o segundo ano, o herói ainda tenha mais uma chance para mostrar seu máximo nas telas.

 

Abaixo, fique com algumas imagens da série:

A segunda temporada de Punho de Ferro estará disponível na Netflix no dia 7 de setembro.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux