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O Último Mestre do Live-Action!

Por Gus Fiaux

Há alguns dias, todos nós ficamos em choque ao descobrir que a Netflix, em parceria com a Nickelodeon, estaria produzindo uma série em live-action de Avatar. Claro que, a princípio, muitos ficaram receosos com a notícia – parcialmente por conta do trauma provocado por M. Night Shyamalan com seu Último Mestre do Ar. Mas, analisando a situação como um todo, temos mais motivos para celebrar do que para nos preocupar.

Antes de mais nada, é preciso dar um contexto mais profundo. Se você esteve em coma nos últimos vinte anos, provavelmente não deve entender bem o fenômeno que é Avatar. A série, criada por Bryan Konietzko e Michael Dante DiMartino, estreou em fevereiro de 2005, transcorrendo por três temporadas até julho de 2008.

A história gira em torno de uma guerra entre as nações elementais – a Nação do Fogo, o Reino da Terra, a Tribo da Água e os Nômades do Ar. Eles eram, há muitos anos, regidos pelo Avatar, um dobrador capaz de controlar os quatro elementos, e cuja função era trazer equilíbrio e harmonia ao mundo. Tudo muda quando a Nação do Fogo, em êxtase por seu poder, se transforma no Império, curvando os demais reinos ao seu domínio.

Para isso, eles promovem uma chacina aos Nômades do Ar, já que o próximo Avatar viria justamente dessa tribo. Contudo, Aang – um jovem menino, que desde cedo descobriu sua função nesse mundo, consegue escapar junto com seu bisão voador, Appa, e passa cem anos congelado em um iceberg, no meio do Polo Sul.

O trio original (e bichinhos fofos!)

A série começa no momento em que Katara (uma dobradora de água da Tribo da Água do Sul) e seu irmão, Sokka (um não-dobrador), descobrem o Avatar, libertando-o e provocando a ira da Nação do Fogo. Logo, Zuko – o filho do Senhor do Fogo, exilado de sua nação devido a um problema do passado – passa a caçar o menino, que por sua vez, precisa terminar seu treinamento, descobrindo sobre as dobras de água, terra e fogo.

A premissa, por si só, é muito interessante. Mas o que realmente pesa aqui é a construção de universo. Com apenas três temporadas, A Lenda de Aang conseguiu uma repercussão tão grande e uma legião tão fiel de fãs que, em 2012, ganhou uma continuação/spin-off com A Lenda de Korra, que por sua vez se passa cerca de setenta anos após os eventos da série original, e aborda temas como o avanço desenfreado da tecnologia e a harmonia entre dobradores e não-dobradores.

Avatar Korra

Claro que a popularidade não seria restrita à televisão. Em 2010, a Paramount lançaria O Último Mestre do Ar, a primeira adaptação live-action da saga, que tentou condensar toda a primeira temporada da série animada – também conhecida como “O Livro da Água”. No entanto, o filme de M. Night Shyamalan logo foi considerado uma das maiores atrocidades já feitas na história do cinema.

São vários os problemas do longa-metragem – a começar por detalhes técnicos, como um elenco sofrível e um roteiro pior ainda, que além de tornar as situações muito corridas, possui diálogos horrorosos. Mas isso é apenas um detalhe, já que o maior massacre provocado pela adaptação foi o esvaziamento do significado cultural da obra.

Apesar de produzido nos Estados Unidos, Avatar: A Lenda de Aang sempre teve uma importante inspiração em animes e na cultura tradicional asiática. Nos cinemas, tivemos aqui a maior prática de white-washing da história, com um elenco totalmente modificado para cair nas graças do padrão hollywoodiano.

Uma atrocidade dessas, bicho

Os únicos que “escaparam” disso foram a Nação do Fogo – o que gera um problema por si só. Em vez de serem chineses, como na série animada, eles foram transformados em indianos. Mas isso é bem problemático, quando consideramos que as únicas pessoas não-caucasianas do filme foram justamente os vilões.

Alguns estudos já foram feitos e os próprios criadores já deixaram bem claro que toda a série é inspirada por culturas reais. A Nação do Fogo representa o Império Chinês em seu auge; os Nômades do Ar são totalmente inspirados pelos monges tibetanos; a Nação da Terra possui uma clara presença da cultura camponesa da China, além de diversas inspirações no Japão feudal; e, por fim, a Tribo da Água é uma grande homenagem às tribos de esquimós do Ártico, como os Inuítes e os Iúpiques.

Crianças tibetanas – maior inspiração para Aang.

Mas não fica só por aí. Toda a mitologia dos elementos é fortemente inspirada por conceitos do hinduísmo, além de outras relações espirituais do oriente. A saga sempre teve a pré-disposição de explorar os mais diversos temas não-ocidentais para um público que cresceu vendo Disney e bebendo Coca-Cola.

É raro – e quase impossível – ver uma série animada que se beneficia desses traços culturais, sendo produzida por um grande estúdio norte-americano. A cultura asiática, tão presente nos animes e mangás, é quase sempre subestimada pelos Estados Unidos – ou então, é usada para catapultar suas próprias experiências, o que sempre promove um esvaziamento cultural em relação às tradições originais.

Quando o live-action se apropriou da história e desses elementos para torná-los uma coisa exótica e distante, é compreensível que os fãs tenham ficado indignados – sendo educado ao usar esse termo. Felizmente, isso não parece ser um problema para a nova série live-action. E a base disso está nos criadores.

Já foi confirmado que DiMartino e Konietzko vão servir como os principais showrunners da série. Juntos, ambos já afirmaram que pretendem se manter fieis à série original, principalmente no que diz respeito à representação étnica e cultural da história. Ou seja, se você é desses que detesta qualquer tipo de mudança de etnia (mas curiosamente, nunca falou nada sobre O Último Mestre do Ar e diversos outros casos de white-washing), pode ficar tranquilo: provavelmente não teremos uma pessoa branca no elenco.

Mas isso é só a ponta do iceberg. Com a série em live-action, a dupla – que nem sequer foi convidada para participar da produção de O Último Mestre do Ar – poderá criar uma atmosfera bem fiel à animação de 2005. Além disso, o formato seriado – em vez de um filme de apenas duas horas – pode trazer mais ritmo e uma trama melhor construída.

Tantos Avatares, tantas possibilidades

Contudo, as coisas não deveriam parar aí. O que muitos fãs querem é que a série não seja apenas um “remake” do material original, mas que ajude a expandir essa mitologia. Passadas as três temporadas que compreendem a trama da animação, poderíamos ter mais histórias que foram deixadas em aberto na animação – por exemplo, a história da mãe de Zuko.

E com isso, também reabre-se o debate a respeito da popularidade dessa franquia. A Lenda de Korra foi muito elogiada pelos fãs, contendo uma das maiores representações LGBT em animações modernas. No entanto, uma série de problemas envolvendo a Nickelodeon acabou atrapalhando o lançamento da série – de forma que, no final, parte da terceira temporada e todo o quarto ano foram lançados na internet, em vez de serem exibidas na emissora.

Mas o potencial de crescimento é muito grande – e a prova disso é que, em breve, serão lançados dois livros focados na Avatar Kyoshi, uma das antecessoras de Aang. Com a série live-action a caminho, temos tudo para ver essa popularidade reacendendo no coração dos fãs, e com isso, poderíamos ter novos spin-offs animados, focados nos Avatares futuros ou até mesmo nos antepassados.

A história não pode estacionar apenas em Aang. Por mais que tenhamos amado esse rapaz careca, otimista e bem-humorado, não podemos nos esquecer que ele é apenas uma parte dessa mitologia vasta, que ainda pode ser expandida de uma forma colossal. Em suas mãos, tanto a Nickelodeon quanto a Netflix possuem um pote de ouro – e se souberem usá-lo, a saga pode muito bem florescer de uma forma duradoura e incessante.

Agora, chegou a era do Avatar.

Abaixo, fique com nossa lista de melhores personagens de A Lenda de Aang.

Ainda não sabemos quando a série live-action de Avatar chegará à Netflix.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux