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Não, o diretor não tem controle total de seus filmes!

Por Guilherme Souza

Depois das recentes polêmicas em relação às mudanças solicitadas pelos estúdios em filmes de grande orçamento, mudanças estas que muitas vezes acabam resultando na saída do diretor, um grande debate se instaurou nas redes sociais, onde fãs acreditam que as recepções negativas são resultados das mudanças feitas pelos executivos e que os diretores deveriam ter liberdade criativa, mas será que isso existe em filmes de grande orçamento?

Primeiramente, vamos nos recordar brevemente da função de um diretor em um filme. Por mais que o diretor não seja de fato responsável pela execução do roteiro, figurino, fotografia e todos os demais processos que compõem a produção, o diretor possui a função de supervisionar todos esses processos e solicitar alterações de acordo com sua visão, o que significa que o diretor possui a maior parte do mérito de um filme, seja ele um sucesso ou um fracasso.

Dito isso, devemos considerar que nenhum filme acontece sem o envolvimento do diretor em todos os passos da produção, entretanto, quando falamos sobre filmes de grande orçamento, a coisa muda e uma outra figura, ou melhor, figuras, entram em cena. Como o próprio nome diz, filmes de grande orçamento são produções que custam verdadeiras fortunas, tais produções possuem o objetivo básico de elevar o lucro às alturas, mesmo que isso sacrifique um pouco da essência artística básica do cinema.

Dado o valor exorbitante dessas produções, é óbvio que o estúdio espera que a receita gerada por elas seja muito maior do que o investido, com isso, os executivos tomam certas medidas para se certificarem de que o produto irá agradar o público-alvo, conquistar a crítica e ser bem-sucedido. Além de inúmeras exibições-teste feitas para um público selecionado, as produções também são exibidas para os executivos e investidores, a fim de solicitarem alterações no projeto para deixá-lo mais atrativo comercialmente.

Mas se você acha que as intervenções do estúdio são feitas somente após as exibições-teste, pense novamente. Em muitos casos, o estúdio toma para si o controle da produção muito antes dela ser iniciada, tendo o diretor somente como um porta-voz da visão dos executivos. A prova de que isso realmente acontece são os registros de inúmeros diretores que abandonaram o projeto por não se sentirem confortáveis com tal situação e não conseguirem passar sua visão para a película.

Se pararmos pra pensar, não é de hoje que isso acontece. Depois de ter feito um sucesso estrondoso com o primeiro filme do Superman, era óbvio que Richard Donner seria escalado para comandar a sequência, entretanto, a visão de Donner para o segundo filme do herói não estava de acordo com a visão do estúdio, o que fez com que a Warner demitisse o diretor antes do projeto ser concluído e colocasse outro em seu lugar. O caso se repete em filmes como Blade Runner, Solo: Uma História Star Wars, Deadpool 2, Liga da Justiça e por aí vai.

Muitas vezes, a intervenção acaba dando certo e sendo algo necessário, como é o caso do Universo Cinematográfico Marvel, que apesar de dar bastante liberdade para seus diretores, possui um rígido planejamento feito por Kevin Feige, algo que tornou possível a construção de um universo de filmes interligados, um evento que jamais havia sido feito na indústria do cinema e muitos outros estúdios sofrem para tentar imitar.

Não estou dizendo que os executivos estão certos em tirar a liberdade do diretor, nem que as ideias deles são garantia de sucesso, entretanto, às vezes o diretor possui uma visão que é mais forte em termos artísticos e limitada em termos comerciais, o que é algo negativo para o estúdio. Sejamos sinceros, Hollywood não faz filmes por caridade, como dito acima, os blockbusters são feitos para tirar o máximo de lucro possível da indústria, com isso, é óbvio que os estúdios irão intervir se algo não estiver lhes agradando.

A conversa muda um pouco quando o estúdio tenta intervir em projetos de diretores que possuem um bom histórico comercial ou que são renomados e premiados. Durante a turnê promocional de Mulher-Maravilha, Patty Jenkins revelou que os executivos não queriam que a cena da Terra de Ninguém fosse incluída no longa, porém Jenkins “bateu o pé” para que ela acontecesse e a cena acabou sendo uma das melhores coisas da produção.

A história de Jenkins mostra que existe um limite para a intervenção do estúdio, basta que os diretores sejam seguros o bastante daquilo que estão fazendo. Outro diretor que revelou ter se sentido bastante confortável foi James Wan, que nos apresentará a primeira aventura solo do Aquaman nos cinemas em breve. Segundo Wan, desde o começo, sua maior exigência foi que ele pudesse fazer o filme do seu jeito e implementando suas idéias, algo que foi estritamente atendido pelo estúdio, porém o sucesso financeiro das produções anteriores de Wan fala por si só.

Embora isso pareça um absurdo para alguns, muitos fãs gostariam que o estúdio intervisse mais vezes nos projetos, como é o caso da franquia Star Wars, no qual muitos fãs gostariam que a Lucasfilm tivesse dado menos liberdade para Rian Johnson em “Episódio VIII”. Por falar nisso, James Mangold, diretor de Logan, chegou a se pronunciar sobre o assunto, dizendo que muitas mentes brilhantes acabarão sendo substituídas por conselheiros dos estúdios, dada a comoção dos fãs quando algo não sai da maneira que eles esperam.

Ao que parece, a indústria não deixará de intervir em certos filmes, porém é complicado opinarmos sobre isso. Como sabemos, essa não é uma prática recente, a diferença é que com a chegada da internet, os eventos de bastidores acabam sendo muito mais expostos do que deveriam e os fãs acabam tendo acesso à informações que deveriam ser mantidas dentro do estúdio, gerando inúmeros conflitos e preocupações que não deveriam afetar o expectador.

Antigamente, um filme era ruim simplesmente por que era ruim, os únicos que tentavam embasar argumentos e apontar culpados pela qualidade duvidosa das produções eram os profissionais especializados. Hoje em dia, qualquer um pode saber que um filme passará por regravações, que o diretor foi demitido e muitos outros detalhes acerca de uma produção, isso fez com que as pessoas passassem a analisar as películas de forma mais técnica, perdendo um pouco da essência de assistir um filme por puro entretenimento.

Fique com imagens de Aquaman:

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