Capa da Publicação

Não, a Netflix não está arruinando o cinema!

- – Apesar das críticas, o streaming está criando uma nova tradição cinematográfica!

Por Gus Fiaux Já não é de hoje que se fala no “fim do cinema”, graças ao advento – em maior parte – de serviços de streaming, como a Netflix. Na cabeça de algumas pessoas – especialmente os chefes de grandes cadeias de cinema mundiais – o surgimento de plataformas digitais em que se pode ver filmes faz com que as pessoas desistam de ir ao cinema. No entanto, isso não poderia estar mais longe da verdade.

A chegada da Netflix veio como uma salvação na era da pirataria digital. Se antes, a sobrecarga dos serviços de TV a cabo acabou fazendo com que muitas pessoas migrassem para os sites de torrent e dowloads ilegais, o streaming veio para colocar as coisas de volta nos trilhos.

Com preço em conta, catálogo grande e a facilidade de acesso, especialmente através de diversos dispositivos eletrônicos, a pirataria caiu em níveis estruturais, enquanto as pessoas passaram a usar mais os streamings legalizados.

Com isso, obviamente os estúdios passaram a criar seus próprios serviços digitais, o que deixou outras empresas gerais, como a Netflix e a Hulu, reféns de uma “falta de conteúdo” iminente. E assim, as plataformas passaram a recorrer ao seu ganha-pão atual: os conteúdos originais.

Por mais que a procura de filmes e séries de terceiros ainda seja a maioria das buscas da Netflix, não há como negar que a produção original cresceu em uma escala absurda. Nos últimos anos, temos uma quantidade absurda de séries e filmes originais produzidas pelo streaming, todos competindo com grandes produções televisivas ou cinematográficas.

E quando falamos de filmes, já começa a coceira no ouvido de quem trabalha na área. Mas é importante analisar: será que a Netflix está matando os cinemas ao produzir seus próprios filmes? Isso estaria tirando público das salas de exibição, ou prejudicando cineastas que estão produzindo seus conteúdos para serem exibidos nas telonas?

A resposta pode parecer dúbia, mas é não.

Há uma série de fatores que faz com que a Netflix não seja competidora direta dos cinemas. Recentemente, um estudo realizado pelo grupo norte-americano EY determinou que as pessoas que consomem o streaming são, geralmente, as que mais vão aos cinemas. Assim sendo, o consumo dessas duas áreas é convergente.

Além disso, podemos partir para questões óbvias da atualidade. Pegue, por exemplo, o recente lançamento Roma, dirigido por Alfonso Cuarón – que, por sua vez, é um cineasta de renome, tendo lançado filmes como Gravidade e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.

O filme não conseguiu encontrar um método de distribuição nos Estados Unidos. E os fatores são vários: além de ser falado inteiramente em espanhol e dialetos mexicanos, o longa é em preto-e-branco, está bem longe do protótipo de blockbuster e possui uma narrativa mais observacional, algo que gera uma certa recusa do público tradicional.

A simples ideia de que uma plataforma de streaming como a Netflix esteja distribuindo esse filme mundialmente já é algo louvável. O filme pode até ser dirigido por um cineasta de renome, mas não conseguiu distribuição além do lançamento limitado em algumas salas de cinema mundo afora.

Já na Netflix, ele tem um alcance imediato – até porque o estúdio não precisa se preocupar com a divulgação, já que ela fica por conta da própria Netflix, que já faz um excelente trabalho simplesmente ao colocar o trailer do filme toda vez que você abre o aplicativo ou a página inicial.

E isso não é tudo. Se você pensar nos lançamentos mais recentes do estúdio, como Okja, Beasts of No Nation, Mogli: Entre Dois Mundos e até mesmo Apóstolo, vemos uma produção muito interessante, que poderia – e em alguns casos, realmente não pôde – encontrar espaço de exibição dentro das salas de cinemas, ainda mais em uma época onde estamos tão imersos em franquias e universos compartilhados.

Se você parar para pensar bem, a Netflix atualmente segue sendo uma das maiores produtoras de filmes “originais”, ao lado de estúdios independentes como a BlumHouse e a A24. São justamente essas iniciativas que não deixam o cinema morrer no ciclo das adaptações e continuações desenfreadas.  

Além disso, vale mencionar o espaço dado a cineastas mais independentes, ou até mesmo a alguns grandes nomes que não possuem muito espaço de divulgação na era massificada em que vivemos.

Claro que, por baixo disso, também podemos falar da “questão artística”, uma vez que muitos cineastas tentam se justificar dizendo que a Netflix não é o “modelo certo” para se ver filme, já que a tela menor é prejudicial na hora de passar a fotografia, o som e os detalhes que só podem ser visto na sala de cinema.

Mas mesmo isso parte de uma arrogância e falta de visão. Mesmo filmes que são experiências imperdíveis no cinema, como Interestelar, Gravidade ou Vingadores: Guerra Infinita, só serão exibidos por algumas semanas – no máximo, meses.

Depois disso, começa-se o ciclo de outras cadeias de exibição. E de toda forma, eles precisariam ser lançados em home video, VOD ou streaming. Não faz sentido que esses filmes “percam tanto a qualidade” que só possam ser apreciados no cinema.

Por conta disso, no que tange a essa questão artística, sempre parte do bom senso do cineasta produzir um filme que tenha uma vida mais durável do que apenas o circuito de exibição nos cinemas. É importante que o longa sobreviva ao teste do tempo, e que não morra sendo apenas “uma grande experiência para se ver na tela grande”.

Ou seja, de fato, a ideia de que a Netflix e o streaming estejam matando o cinema é uma balela. O que temos é uma nova forma de exibição e distribuição, apropriada para o modelo de mercado que temos no momento, e que está oferecendo espaço para quem antes não tinha.

E isso porque ainda nem começamos a entrar no mérito de assuntos mais delicados, como documentários – que ganharam uma nova vida graças à Netflix.

Resta, ao mercado cinematográfico, reconhecer sua arrogância e procurar por mais humildade, percebendo que no streaming há um forte aliado em vez de um rival. E a nós, resta aproveitar o belo momento em que vivemos e passarmos a desfrutar, de todas as formas possíveis, de tudo que nos cerca.

 

Na galeria abaixo, relembre os 10 melhores filmes originais da Netflix:

Imagem de perfil
sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Pernambuco. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux