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Fugitivos: 1×10 – Finalmente fazendo jus ao seu nome!

Por Gus Fiaux

Após bombas como Punho de Ferro e Inumanos, e até mesmo estreias aquém das expectativas, como Defensores, a Marvel Television finalmente conseguiu salvar seu ano de 2017 com Fugitivos. Apesar de ter passado despercebida, até mesmo pela natureza um tanto quanto obscura de seus personagens, a série veio para sedimentar a parceria entre a Marvel e a Hulu, e finalmente chegou ao fim de sua primeira temporada na terça-feira passada.

E, pelo último episódio, podemos perceber como a série fez um ciclo delicioso. Se ela começou extremamente fiel ao primeiro volume de histórias feito por Brian K. Vaughan e Adrian Alphona, e se distanciou um pouco dessas origens ao longo de sua temporada, a season finale vem para nos mostrar que agora, os produtores souberam casar perfeitamente fidelidade e adaptação, dando o final que os fãs esperavam, mas com muitas surpresas guardadas.

O episódio apresenta uma trama até mais simples que a dos episódios anteriores. Os Fugitivos finalmente confrontam seus pais, com direito a uma breve sequência de luta, antes da chegada de Jonah – ou, como vocês já o conhecem aqui, o Doutor Destino. Obviamente mais poderoso, Jonah arregaça com a equipe, que precisa fugir, deixando para trás Karolina, enquanto ela usa todo seu poder iridescente para tentar impedir o avanço do vilão. Ela obviamente perde a batalha, e é “sequestrada” pelos seus pais, que a escondem na Igreja dos Gibborim.

Enquanto isso, o resto da equipe se divide com a ideia de salvá-la ou não. No fim, Chase e Molly conseguem se infiltrar na organização, e finalmente resgatam Karolina. Mas há um preço a se pagar: Jonah os expõe em rede nacional, e agora eles realmente precisam fugir por suas vidas. Agora, finalmente estamos diante de verdadeiros Fugitivos.

Mas a trama não se encerra totalmente, deixando um gancho quase que criminoso para a segunda temporada: Os Yorkes finalmente descobrem o que Jonah tanto procura no subterrâneo de Los Angeles (e podem ficar tranquilos, não são ossos de um dragão místico). Eles encontram alguma coisa gigantesca e viva. Eu ouvi alguém dizer Gibborim aí?

Com isso e outras revelações – como o fato de que foi o próprio Jonah o responsável pelo “suicídio” de Amy Minoru –, os pais finalmente tomam uma decisão: eles vão salvar seus filhos. E depois disso, será guerra contra Jonah.

Em termos particulares, eu gosto de dois terços desse final. Mais precisamente, fico realmente feliz com o desfecho dado aos adolescentes. O arco desses personagens foi tão bem dosado e construído, que faz muito sentido terem deixado eles fugirem no último episódio. Claro, isso também significa que a série precisa ter momentos mais “arrastados” para encher linguiça até lá, mas a construção foi majoritariamente positiva, pois agora nós finalmente nos importamos com esses personagens e torcemos para que eles possam ficar bem.

A cena final, onde vemos os seis – aliados de Alfazema – correndo e fugindo de uma estação rodoviária é, realmente muito simbólica, e está aí para nos mostrar que a primeira temporada foi apenas um prelúdio para coisas ainda mais grandiosas e arriscadas em um segundo ano. E, desse final, a única coisa que eu tenho a reclamar é o fato de Nico Minoru não ter fugido com o Cajado do Absoluto. Eu compreendo que a série sempre teve e terá um foco mais profundo nos personagens, e não em seus poderes. Mas seria mais interessante vê-la usando o artefato para ajudar a equipe, enquanto descobre sua própria identidade mística.

Outro encerramento que me agradou bastante foi o dos pais. Desde o início da série, vemos uma constante humanização desses personagens, de forma que eles estão longe de serem os vilões ameaçadores e unidimensionais dos quadrinhos. Aqui, vemos que eles realmente se importam com seus filhos e, sob nenhuma hipótese deixariam que eles se ferissem. Tudo bem que eles escolhem a maneira mais… bizarra de demonstrar isso, mas ainda assim, está lá.

O final, onde eles finalmente decidem que precisarão enfrentar Jonah, é extremamente condizente com essa abordagem, e nos mostra uma profundidade de conflitos que eu, particularmente, nunca vi ser explorada em outra série da Marvel – talvez, com exceção de Agentes da S.H.I.E.L.D. – São diversos personagens com conflitos entre si, e que não são as pessoas mais bondosas ou os melhores modelos do mundo, mas que ainda assim, farão de tudo para defender seus filhos e lutar pelo que eles acham certo.

Porém, mais uma vez – como desde o segundo episódio em que o personagem aparece – Jonah continua sendo o elo mais fraco da série. Seu final serve apenas para nos mostrar que o personagem não teve nenhum desenvolvimento marcante. Ele começa um vilão e termina um vilão, mas nunca sabemos quem ele é, o que ele realmente quer e quais são seus motivos secretos. E isso acaba sendo um problema, principalmente numa série cujos personagens são a força-motriz da história.

Seu final fica em aberto de uma forma grotesca – não chega a ser um gancho para uma segunda temporada, apenas fica em aberto como se ainda fôssemos ter um episódio na próxima semana. Além disso, toda sua relação com Frank Dean parece muito incoerente – e é claro que isso pode ser melhor contextualizado no próximo ano da série, mas ainda assim não deixa de gerar um pequeno incômodo.

Mas, obviamente, isso é algo que pode ser relevado, analisando a qualidade da série de forma geral. Não tenho medo algum de dizer que, por sua primeira temporada, Fugitivos é a estreia com maior potencial do Universo Cinematográfico da Marvel. A – já confirmada – segunda temporada pode expandir ainda mais esse conflito, ao mesmo tempo que pode torná-lo ainda mais pessoal e intimista, criando um segundo ano muito melhor para a série – algo que não vemos na Marvel TV desde Agentes da S.H.I.E.L.D.

Agora, analisando detalhes, eu preciso dizer que esse último episódio me fez muito feliz por uma série de motivos. E o primeiro e mais forte deles se chama: Nicolina. Eu sei que muitos não gostam da ideia desse relacionamento, justamente pelo fato de que ele vai bastante contra o que as HQs definem para essas personagens.

Contudo, eu acho que é algo que realmente pode render frutos incríveis – ainda mais considerando que Xavin, o parceiro não-binário de Karolina, pode nunca aparecer na série, por ser um Skrull e por demandar de efeitos especiais muito caros. Em apenas dois episódios, dá para sentir que uma faz muito bem à outra, e que há um toque juvenil e inocente nessa paixão, o que pode servir para aliviar a tensão crescente que a segunda temporada definitivamente terá.

E, é claro, como eu sempre bato nessa tecla, é uma conquista importante para a representatividade LGBT, já que personagens do tipo são quase inexistentes nesse universo. Além disso, fico realmente feliz pelo fato de inserirem Nico como bissexual, uma vez que essa comunidade – da qual eu inclusive faço parte – em específico, é tão invisibilizada na mídia.

Outra coisa que me deixou muito feliz foi a relação carinhosa de Gert com Alfazema. A cena em que elas se despedem – com direito a um easter-egg sensacional dos quadrinhos, que dá a origem do nome da adorável dinossaura (Old Lace, no original) – é de partir o coração, mas o retorno da criatura calha muito bem, e é realmente emocionante vê-la correndo ao lado da equipe.

Por fim, há outros detalhes dignos de nota: Alex Wilder teve uma sequência de cenas bem peculiares nesse episódio. Eu realmente não acho que devem adaptar o fato dele ser um traidor da equipe, como nas HQs, mas vemos aqui indícios de que ele pode ter um futuro turbulento e bem mais sombrio, o que particularmente julgo muito interessante. Outra coisa que despertou alegria foi a relação de companheirismo entre Molly e Chase, algo que tem um pé muito firme nos quadrinhos.

No que diz respeito à técnica, a season finale é realmente o melhor episódio da série. A fotografia é muito bem planejada, de forma que ela te convida a ser parte dos Fugitivos. E isso é, mais uma vez, aliado a um excelente departamento de arte e de cenografia. Temos aqui pequenas referências aos quadrinhos – como o panfleto lido por Gert ou a camisa que Karolina usa assim que se liberta – que são pensadas de uma forma muito delicada, para realmente agradar os fãs.

Sonoramente, o episódio mantém o alto padrão da série. A trilha harmoniza com a história, sem deixar de lado a vibe juvenil e viciada-em-adrenalina dos personagens. Mas o destaque realmente vai para a computação gráfica e os efeitos especiais. Alfazema nunca foi tão realista, graças ao processo fantástico da mescla de marionetes com CGI.

Além disso, Karolina tem uma cena breve, mas muito bem construída. O único ponto baixo – pra variar – é Jonah, que não recebe o mesmo tratamento de Karolina, e fica definitivamente… estranho ao usar seus poderes.

E com isso, encerramos uma incrível primeira temporada de Fugitivos. Como grande fã dos heróis nas HQs, eu não posso dizer nada além de que estou realmente feliz e orgulhoso com a adaptação. Óbvio, há seus pontos baixos que infelizmente a impedem de ser uma série perfeita, mas agora os produtores sabem como trabalhar esse universo, e muito do que foi “errado” nesse primeiro ano pode ser corrigido no futuro.

No geral, nunca estive tão animado para uma estreia de série do Universo Cinematográfico da Marvel desde a primeira temporada de Jessica Jones. Com um segundo ano tão promissor por vir, podemos esperar uma adaptação ainda mais complexa dos personagens, e eu julgo isso como um excelente começo. E enquanto esperamos arduamente por esse retorno, podemos aguardar um 2018 muito mais promissor para a Marvel.

Abaixo, confira imagens:

Fugitivos retorna para uma segunda temporada, mas ainda não há data de estreia confirmada.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux