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Forças do Mal – A fórmula para fazer um vilão funcionar no cinema!

Por Gus Fiaux

O bem e o mal existem em uma narrativa tão antiga quanto o próprio tempo. Se esse tipo de complexo moral nos é replicado através de mitos, lendas e até mesmo religiões, não tardaria a invadir o mundo das artes. Onde há um herói, há um vilão. E com essa frase em mente, era de se esperar que os filmes de super-heróis trouxessem super-vilões. Infelizmente, nem sempre é o caso…

Nos últimos anos, temos testemunhado uma verdadeira ascensão das adaptações de HQs para o cinema e para a TV. São tantos exemplos que já fica até difícil lembrar de todos de cabeça, mas digamos apenas que a Marvel e a DC Comics estão muito bem servidas, e até mesmo as editoras mais independentes estão ganhando um espaço para trazer seus personagens para as telinhas e telonas.

Contudo, uma figura muito particular têm sido relativamente menosprezada: o vilão. Se pararmos para lembrar nos últimos anos, boa parte dos vilões de filmes e séries de super-heróis são bem esquecíveis, enquanto os marcantes podem ser contados nos dedos. É raro nos surpreendermos com um Thanos, Killmonger, Coringa (a versão de Jack Nicholson ou Heath Ledger, obviamente), Magneto, General Zod e até mesmo um Loki.

Isso porque boa parte dos filmes nos presenteia com vilões como o Lobo da Estepe, Malekith, Apocalipse, Ares, Magia ou Ronan. Personagens que estão ali puramente para servir como escadinha para os heróis, e que não possuem um fator próprio que possa torná-los tão importantes e imponentes quanto seus adversários benignos.

Mas afinal, por quê? Inspiração é algo que definitivamente não falta, já que os quadrinhos estão amontoados com vilões extremamente clássicos e cultuados, que deixam os fãs embasbacados com sua complexidade e jornada pessoal. E mesmo assim, essas figuras não são bem traduzidas para as telonas.

Basta pensar no Doutor Destino – considerado um dos maiores (senão o maior) vilões do Universo Marvel. O personagem foi levado duas vezes ao cinema. E nas duas vezes foi um desastre. Ou então o Lex Luthor, que até chegou a ter algumas adaptações interessantes, mas que caiu na desgraça no momento em que a Warner Bros. achou que fosse uma boa ideia escalar Jesse Eisenberg no papel…

Como personagens tão aclamados das HQs podem ser tratados de forma tão desrespeitosa quando passados para o cinema?

A resposta? Tempo. Nos filmes e séries, falta tempo para desenvolver um bom vilão.

Imagine-se como um grande executivo ou até mesmo cineasta por trás de uma grande produção de super-heróis. Se o orçamento for grande, isso significa que você precisa alcançar público o suficiente para gerar um bom retorno. Com isso, você precisa agradar aos quatro quadrantes da audiência: homem jovem, mulher jovem, homem adulto e mulher adulta.

É assim que começa o apelo para algumas subtramas banais. Precisamos ter bastante humor, afinal, isso agrada a todos. Além disso, é necessário um interesse romântico, pois romance é algo que vende bem – especialmente se os envolvidos forem atores famosos. Ah, e não pode esquecer das zilhões de cenas de ação e batalhas mirabolantes.

Mas acima de tudo, uma coisa precisa ser desenvolvida: o herói. Você provavelmente vai gastar rios de dinheiro tentando contratar o melhor ator possível para interpretar o personagem que deseja, portanto precisa dar espaço para que ele mostre a sua jornada. Além disso, o público geral ressoa muito mais com os heróis do que os vilões.

É por conta dessas coisas que o “gênero” dos super-heróis ainda está engessado em uma fórmula bem específica, que o priva até mesmo de ter exemplos mais adultos, já que isso não é considerado rentável o bastante – ainda assim, aplausos para filmes como Logan e Deadpool, que começaram a quebrar essa barreira.

E também é exatamente assim que os vilões são tocados para o escanteio. Você não tem tempo de desenvolvê-los completamente, pois um zilhão de outras coisas já estão sendo feitas. Mas esse não precisaria ser o caso…

Há uma regra geral na escrita de roteiro – e de narrativa, para falar a verdade – que diz que o herói só é tão bom quanto o vilão é ruim. Ou seja, eles funcionam como uma função simétrica, cada qual em um polo distinto. E o que vai determinar a qualidade do herói é justamente a qualidade do vilão, e vice-versa.

Como isso funciona? De uma forma bem simples: o vilão precisa atacar todas as fraquezas e forças do herói. Lembre-se do Coringa de Heath Ledger. Ele só funciona tão bem – e talvez seja o melhor vilão já feito em um filme de super-heróis – porque ele consegue atacar todas as fraquezas do Batman, como também vai atrás de suas forças – matando Rachel Dawes e transformando Harvey Dent no Duas-Caras.

O vilão precisa constantemente colocar o herói no limite, forçando-o a tomar decisões inimagináveis. É por isso que Thanos funciona tão bem, pois ele ameaça não apenas a superfície da humanidade dos Vingadores. Ele ameaça o universo, e toda a vida que há nele. É isso que torna Guerra Infinita o filme que possui possivelmente o melhor vilão da Marvel Studios.

Mas ser ameaçador não é o suficiente. Essa ameaça sempre vem conduzida por uma motivação. E até mesmo os vilões ditos como “sem motivação”, ou a encarnação do “mal pelo mal” possuem, indiretamente, uma motivação – quando são vilões bons. Voltemos ao Coringa de Heath Ledger. Ele parece viver num caos e não ter nenhuma motivação além de praticar o mal. Mas o que ele realmente deseja é fazer o Batman perder a cabeça – algo que casa perfeitamente com a estrutura do personagem.

E nesse ponto, é importante deixar claro um erro muito comum cometido pelos estúdios na hora de trabalhar um bom vilão: a humanização. Essa é uma faca de dois gumes, que pode dar muito certo ou pode funcionar de duas formas erradas e não muito agradáveis. Ou a humanização serve para estabelecer bem um vilão de uma forma carismática o suficiente para ligá-lo ao público – como o Loki ou o Killmonger –, ou ela provoca o seguinte:

  • Humanização demasiada, que torna o vilão um “herói incompreendido” e é quase sempre a desculpa para fazê-lo parecer bonzinho – o que por si só quebra a regra do “quanto pior o vilão, melhor o herói”. Pense, por exemplo, em todos os personagens de Esquadrão Suicida, na Fantasma de Homem-Formiga e a Vespa ou no Kaecilius de Doutor Estranho. Eles não funcionam justamente porque os filmes tentam forçá-los como “forças do bem”, quando eles precisavam ser ameaçadores o suficiente para atacar os heróis.
  • Falta de humanização, que acontece quando tentam tornar o vilão em algo muito complexo para o público, mas sem lhe fornecer qualidades o suficiente para que seja assim. Note, por exemplo, figuras como o Malekith de Thor: O Mundo Sombrio, o Lobo da Estepe de Liga da Justiça, o Apocalypse de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, ou até mesmo o Apocalipse de X-Men: Apocalipse.

Claro que o primeiro caso nem sempre é ruim. Os estúdios apenas precisam saber dosar a vilania. E se o que eles pretendem fazer é a história de um anti-herói ou de um vilão renegado, é preciso dosar muito bem esse desenvolvimento, para que não seja algo corrido ou que torne o personagem piegas. Funcionou com o Loki, por exemplo, e pode funcionar com outros. Mas precisa ser de uma maneira certa.

Por outro lado, a falta de humanização também está ligada a uma característica bem nítida, especialmente nos personagens mencionados: a caracterização. Às vezes, para criar as figuras mais insanas e inumanas das HQs, os estúdios simplesmente jogam novecentos quilos de maquiagem e próteses na cara do ator – quando não resolvem transformar seu personagem em uma massa de computação gráfica. E é aí que dorme o perigo.

O público precisa reconhecer características humanas o suficiente para que veja algo ali em que se identificar. E quando falamos do Lobo da Estepe ou do Apocalypse, tudo o que vemos é um amontoado de efeitos visuais, que não trazem em momento algum um senso de emoção ou de humanidade – lembrando que isso é diferente de humanização.

A maquiagem é uma alternativa, mas também vale lembrar que ela pode ser prejudicial, quando o ator não consegue mais trabalhar ou se expressar dentro dela. É por isso que o Apocalipse não funciona direito.

Claro que há exceções, mas elas existem quando a equipe técnica consegue fazer seus personagens de uma forma “certa”. O Thanos é o melhor exemplo disso, quando falamos de personagens de CGI. E se estamos mencionando maquiagem, temos por exemplo o Caveira Vermelha de Capitão América: O Primeiro Vingador.

Ah, mas e nos casos em que o personagem precisa ser frio como uma máquina?” Há formas alternativas de se trabalhar isso, e usarei como exemplo o HAL 9000 de 2001: Uma Odisseia no Espaço por mais que ele não seja de um filme de super-heróis, é considerado um dos melhores vilões de todos os tempos.

Ao longo do filme, a única forma física de HAL é um grande painel vermelho, que não demonstra expressões e nem toma uma forma “humana”. Mas isso é altamente compensado pela voz. O ator Douglas Rain conseguiu estabelecer uma voz altamente humana e suave, que não precisou passar por alterações digitais para ficar mais imponente ou mais grave.

E é justamente esse tanto de alterações que às vezes descaracteriza o trabalho de alguns atores. O Ultron perde bastante a essência de James Spader, enquanto também não há nada que possamos reconhecer do incrível Christopher Eccleston em seu Malekith.

Não me alongando muito, finalizo dizendo que outro fator essencial é não correr com o desenvolvimento de um vilão apenas para fazê-lo de escadinha para um super-herói. Quando isso acontece, observamos duas coisas curiosas: esse tipo de vilão quase sempre é o “reverso” do herói, com poderes iguais a ele. E ele nem sequer é desenvolvido o suficiente para retornar em uma continuação.

Fazer um vilão diferente do herói é importante, pois mostra o quanto ele pode atacar o protagonista de maneiras surpreendentes e inesperadas, dando um verdadeiro trabalho para quem tentar pará-lo.

Além disso, é necessário destacá-lo em mais de um filme, caso ele deva ser trabalhado a longo prazo. É por isso que vilões como o Barão Mordo, Zemo e Thanos estão tão cheios de potencial – porque eles não são simplesmente os “inimigos da semana”, e possuem uma trama que pode ser bem derivada no futuro.

Com isso, estabelecemos aqui a “fórmula” para fazer um vilão funcionar nos cinemas:

  • Ele precisa ter um bom tempo de tela, para que seja desenvolvido igualmente como o herói do filme.
  • Ele precisa atacar não apenas as fraquezas, mas também as forças dos heróis.
  • Ele não precisa morrer já no primeiro filme. Ele pode crescer em uma continuação e voltar em um futuro distante.
  • Ele precisa ter uma motivação humana o suficiente para que o público sinta uma conexão com ele.
  • Ao mesmo tempo, ele nem sempre pode ser tratado como uma figura heroica incompreendida. Alguns vilões precisam ser maus, e continuarão sendo maus.
  • O vilão precisa ser fisicamente humanizado, de forma que o público consiga reconhecer expressões e sentimentos, mesmo quando se trata de um alienígena ou de alguma figura muito distinta.
  • O vilão precisa ser diferente do herói, para que seja uma figura realmente ameaçadora e complexa, e não apenas um “reverso”.

Essas são apenas algumas dicas. Há outras coisas que podem melhorar um vilão de forma intensa. Mas só com elas, já cito um caso pessoal que exemplifica bem como ela funciona: Sempre achei o Doutor Octopus das HQs um personagem bem lixo. Ele só servia para ser caricato e não tinha um aprofundamento emocional – algo que, particularmente, só veio mudar em Superior Spider-Man.

Contudo, em Homem-Aranha 2, o vilão teve seu tratamento à altura, seguindo uma boa parte dessas “regras”. E é até hoje lembrado como um dos melhores vilões das adaptações em quadrinhos. Talvez seja a hora dos estúdios começarem a trabalhar tão bem seus vilões quanto seus heróis, dando a eles uma jornada digna, para que eles provem seu valor.

Assim, quem sabe, figuras como o Doutor Destino, Darkseid e até mesmo os personagens de Esquadrão Suicida vão poder mostrar que as forças do mal vieram para ficar…

 

Abaixo, fique com os 10 melhores vilões dos filmes atuais de super-heróis:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux