Era uma vez… A era dos remakes em live-action!

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Era uma vez… A era dos remakes em live-action!

Por Gus Fiaux

Hollywood é uma máquina que não para. E, nos últimos anos, temos testemunhado isso à flor da pele, com franquias multibilionárias saindo dos lugares mais inesperados. No centro de tudo isso, um estúdio permanece soberano: a Walt Disney. Seu domínio se estende para além da terra onde o sol toca, com subsidiárias gigantescas como Star Wars, Pixar e Marvel.

No entanto, o domínio da Disney sobre suas próprias obras também é algo a ser considerado – afinal de contas, precisamos nos lembrar o quanto a empresa ainda se mantém como o estúdio de animação mais prestigiado do mundo, desbancando fortes concorrentes como o Studio Ghibli, por exemplo.

Mas não é apenas de desenhos animados que vive o homem. A Disney sempre teve uma forte vertente no cinema live-action, concebendo grandes sucessos de bilheteria como Piratas do Caribe e Os Muppets, por exemplo, além de filmes que podem não ter tido um grande retorno, mas que possuem uma firme legião de fãs, como é o caso de Tron: O Legado e O Diário da Princesa.

Nos últimos anos, contudo, o estúdio tem investido em um novo plano, que tem causado controvérsias entre alguns fãs: remakes em live-action. Basicamente, o estúdio têm se divertido com a ideia de reimaginar suas animações mais clássicas, como A Bela e a Fera, Mulan, O Rei Leão, Mogli: O Menino Lobo e Alice no País das Maravilhas, criando versões atualizadas e “com atores” em carne e osso.

Mas afinal, porque essa onda justo agora? O que justifica essa investida de um dos estúdios mais bem-sucedidos do mundo?

Antes de mais nada, precisamos analisar o cenário mais atual das produções em live-action da Disney. Nos últimos dez anos, a situação esteve um tanto quanto complicada para a Casa do Rato nesse departamento. Filmes como O Cavaleiro Solitário, John Carter: Entre Dois Mundos e os mais recentes longas da franquia Piratas do Caribe têm sido fracassos, tanto críticos quanto comerciais.

A falta de sucesso na bilheteria tem sido um problema gritante, já que tudo que o estúdio toca em termos de live-action – e que não pertença à Marvel Studios ou à Lucasfilm – parece não funcionar. Pegue, como exemplo, Uma Dobra no Tempo e Tomorrowland, dois filmes que tiveram um grande orçamento e uma divulgação bem intensa e acabaram não compensando na hora de colher os lucros.

Assim sendo, a melhor coisa a se fazer é apostar no seguro. E engana-se quem pensa que essa “medida desesperada” é algo que surgiu de hoje. A primeira animação a ganhar um remake em live-action foi Mogli: O Menino Lobo – e não estou falando da versão de 2016. Em 1994, a Disney lançou O Livro da Selva, que veio para tentar dar uma atualizada no último desenho a ter envolvimento direto de Walt Disney.

A partir daí, alguns live-action foram produzidos entre o final dos anos 90 e o começo do milênio. Consegue se lembrar do divertidíssimo 101 Dálmatas, com Glenn Close virando o mundo de ponta-cabeça com sua incrível interpretação de Cruela DeVil? Se lembra, não esqueça também da continuação, que acrescentou mais um dálmata a essa família gigantesca.

No entanto, esse movimento estacionou até 2010, quando Tim Burton lançou sua própria versão de Alice no País das Maravilhas. Venhamos e convenhamos, o filme está longe de sequer tentar ser um remake da animação de 1951, mas foi ele que trouxe as ideias que seriam estabelecidas para novas investidas.

A primeira prova do sucesso foi a bilheteria. O longa lucrou cinco vezes o valor de seu orçamento, chegando a 1 bilhão de dólares nos cinemas mundiais – mesmo que a opinião da crítica tivesse ficado um tanto quanto dividida a respeito da produção. Isso uniu o útil ao agradável, quando o estúdio viu que poderia criar novas versões de filmes já consagrados, trazendo um lucro quase “garantido” para casa.

Resultado? Estamos em 2018 e já temos quase uma dezena de remakes em live-action das obras mais clássicas da Walt Disney Animation Studios, com mais filmes planejados para chegar aos cinemas nos próximos anos. E teremos de tudo: desde o paraíso subaquático de A Pequena Sereia às savanas africanas de O Rei Leão e à guerra chinesa de Mulan.

Mas afinal de contas: isso só acontece por motivos comerciais?

Bem, se considerarmos que Hollywood – assim como qualquer indústria no mundo – é movida a dinheiro, podemos dizer que sim. Mas também temos uma interpretação interessante a respeito dessa nova leva cinematográfica, que pode nos ajudar a compreender o motivo pelo qual esses filmes fazem tanto sucesso.

E tudo retorna à tradição oral das histórias. Nós temos um grande amor por narrativas. E a maior prova disso está nos Contos de Fadas, que provavelmente são tão antigos quanto o próprio ser humano. Contudo, eles iam sendo passados de geração para geração com novidades acrescentadas, até finalmente serem estabelecidos por figuras como Hans Christian Andersen e os Irmãos Grimm.

E se eles eram a referência para esse tipo de história no século XIX, o século seguinte traria a popularização do cinema e o surgimento da Walt Disney como uma das maiores replicantes de contos de fadas. Atualmente, ninguém lembra muito bem do conto “original” de Branca de Neve ou da Bela Adormecida. Contudo, é quase impossível encontrar alguém que não tenha visto ou sequer não conheça as adaptações animadas.

E como dito anteriormente, as histórias sempre encontram uma forma de sobreviver e ser atualizadas conforme as épocas em que são contadas. O modo atual? Remakes em live-action.

Pare para pensar. Nossa geração cresceu embalada no clássico d’A Bela e a Fera, considerado até hoje como um dos melhores filmes de princesas da Disney. A geração atual pode até não ter visto o desenho, mas com certeza vai se encantar com o live-action, principalmente considerando o alcance que a produção teve no ano passado.

E isso é uma forma de trazer novos elementos para esses contos fantásticos e apresentar uma nova perspectiva. No caso de A Bela e a Fera, temos mais destaque para a vida pessoal da heroína, além da inclusão – ainda que bem superficial e problemática – de personagens LGBTQ. Isso é uma forma do estúdio tentar tonar contemporâneos esses contos, deixando-os com uma roupagem que justifica a nova versão.

O exemplo mais nítido disso é Malévola – que por sua vez, reconstrói completamente a história da Bela Adormecida, transformando a bruxa vilã em uma figura mais multidimensional e que também possui seu próprio ponto de vista, em vez da antagonista plana que conhecemos – e amamos, diga-se de passagem – no conto original e na animação.

Vale lembrar também que temos outras obras que não são derivadas de contos de fadas, mas que estão entrando em uma forte profusão no momento. Temos Mogli: O Menino Lobo, cujas bases são um livro e a animação de 1960, ou até mesmo Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível, que por sua vez traz novamente a franquia do Ursinho Pooh – também surgida na literatura – às telonas.

Só o futuro poderá dar a certeza nesse assunto, mas gosto de pensar que esses dois casos mostram a Disney de outra perspectiva: eles não apenas estão lá para contar clássicos já existentes, mas também para criar os contos de fadas das próximas gerações – até porque, por mais que os dois filmes sejam baseados em livros, as animações conseguiram se livrar do material original e criaram obras independentes e únicas.

Há muito mais que pode ser esmiuçado a partir disso. Podemos pensar, por exemplo, que outros estúdios também estão correndo para fazer suas próprias versões desses clássicos – e isso pode ser lido tanto como uma forma de criar fórmulas alternativas para essas histórias como apenas a famosa “carona no sucesso alheio”.

Contudo, uma coisa é certa: a era do live-action veio para ficar. E isso não significa que o estúdio vai deixar de lado suas animações – tanto que, nos últimos anos esse quesito continua muito bem representado. A única coisa que podemos pensar no momento, no entanto, é que em breve, os contos ganharão uma dimensão ainda mais realista. E estamos contentes com isso.

 

Abaixo, fique com imagens de Mulan, uma das próximas investidas do estúdio:

Atualmente, você pode conferir Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível nos cinemas. Os próximos lançamentos do estúdio serão Dumbo, Aladdin, Mulan O Rei Leão.