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É muito difícil criar um Universo Cinematográfico?!

Por Lucas Rafael

Filmes populares dão dinheiro. Nenhuma novidade aqui, os estúdios querem retorno financeiro, o mundo é capitalista, whiskas sachê. É justamente pelo fato do cinema precisar ser lucrativo que eventualmente ele entra em ciclos, como se alguém achasse a fórmula secreta do filme blockbuster perfeito. Então outros passam a imitar esta fórmula na esperança de conseguir uma bilheteria do mesmo cacife. E foram assim com os filmes de samurai, com os westerns, os blockbusters pós-Spielberg; o carrossel da tendência, o tipo de filme lucrativo e aceitável, as obras populares máximas de suas respectivas décadas. Hoje em dia, são os filmes de heróis, mas não necessariamente só eles: são filmes que se ligam entre si, tecendo uma tapeçaria de eventos interconectados que por fim, formam um mosaico maior. Os Universos Cinematográficos. Mas por que só a Marvel parece estar acertando neles?

Vale lembrar que, o conceito de títulos heroicos se relacionarem entre si, realizando crossovers e preparando terreno para acontecimentos futuros, não é algo nada estranho na mídia dos quadrinhos. Até demorou para adaptarem essa sacada para os cinemas. O leitor deste tipo de publicação se amarra nessas coisas, já que amplia todo o escopo daquele universo, criando uma sensação expansiva de eventos e personagens.

Ali por 1994, o cineasta independente Kevin Smith dirigiu o filme “O Balconista“, no qual trazia personagens versados em cultura popular desperdiçando seu dia trabalhando em uma loja de conveniência. Era um filme despretensioso e bem humorado que alçou Smith ao estrelato. Sua torrente de filmes seguintes podem não ter arrancado o mesmo clamor da crítica, mas tinham lá sua parcela de charme e adorabilidade. Existia também outro fator importante: personagens de um filme apareciam no outro, eventos eram citados e, logo, um universo maior era tecido. Nascia assim o “View Askewniverse“, um dos primeiros universos cinematográficos populares. Hoje em dia, Smith é um figurão da internet que vive de podcasts no qual enaltece seu amor pelos quadrinhos, dirigindo volta e meia algum episódio de série heroica da CW.

É possível afirmar, então, que o fato de Smith executar um dos primeiros Universos Cinematográficos do Cinema é algo fortemente conectado ao amor do autor pelas HQs, uma mídia que vem se utilizando desse artifício há décadas.

O View Askewniverso já exibia uma espécie de planta de construção para Universos Cinematográficos: uso de referências leves, sem pesar a mão. Anos depois, a Marvel levaria isso para outro nível nos cinemas; graças à engenhosidade de Kevin Feige, diretor da Marvel Studios.

No entanto, o brilhantismo da Casa das Ideias despontou no mesmo pé que o de Smith: um personagenzinho de ponta aqui, uma pequena referência ali. As coisas vão se aclimatando, acontecendo passo a passo, tijolo por tijolo, antes de formarem uma estrutura enxuta. É aí que tem gente tropeçando. Estou olhando pra você, Warner.

Vingadores: Era de Ultron talvez seja um dos longas que menos gostei da Marvel, justamente por ele parecer sabotado ao pertencer a algo maior. Muitas sementes para filmes futuros são plantadas (todo o desvio que a trama toma para abarcar Wakanda e Vibranium) e parece se tratar de um filme sem um foco definido, algo mais costurado e feito em um laboratório para sustentar uma estrutura maior do que um longa contido e enxuto. Este é um tipo de deslize que a Marvel aprendeu como evitar, por mais que seus filmes sirvam causas maiores, a história não pode ser sacrificada em prol do que está por vir. Do contrário, parecem aquelas HQs excepcionalmente ruins no qual eventos aleatórios acontecem adornados por um balãozinho de “Não entendeu? Compre Doutor Estranho #7, mês que vem nas bancas!“. É tentar morder mais do que você consegue mastigar, ser fominha. Era de Ultron podia muito bem servir como um conto preventivo para outros estúdios interessados em desenvolver um Universo Expandido. Mas se tivesse mesmo servido, não teríamos Batman Vs. Superman.

Entendo a natureza polarizadora de Batman Vs. Superman, que tem quem goste e coisa e tal. Mas não consigo superar a necessidade do filme se inchar de personagens e eventos que visam fazer o espectador salivar pelo futuro do DCU nos cinemas. E então uma tonelada de filmes são anunciados sendo que nem parece que temos algo concreto em andamento ali. A comparação Marvel/DC nos cinemas é injusta graças a isto: a Marvel tomou seu tempo para plantar algo organicamente, regou seus frutos com muita água e luz do sol para eles crescerem vistosos e saudáveis. A DC, bem, ela não exatamente dispôs do tempo, então usou de agrotóxicos e químicos para fazer a coisa crescer mais rápido. O gosto é pior.

Existe redenção, tomara que os filmes futuros da DC me façam morder a língua, de verdade. Gosto dos personagens da editora, quero vê-los em uma boa adaptação e estou otimista para a sequência de Mulher-Maravilha, Aquaman, Shazam! e o filme do Coringa, seja lá onde ele se enquadra no panorama geral das coisas.

Ainda assim, existem outros Universos Cinematográficos dignos de nota se desdobrando nas telonas. A franquia Invocação do Mal parece estar indo muito bem, desenvolvendo filmes solo para suas criaturas mais tenebrosas. O que funciona aqui é algo que a Marvel também faz: não existe um descaso com a produção, ou algo sendo feito só por fazer e tomar o seu dinheiro. Os responsáveis realmente estão se empenhando em fazer do filme solo da Freira atrativo para você como espectador, ao invés de lançar um longa preguiçoso com alguns sustinhos genéricos.

Outro Universo de filmes é o Monstroverso da Legendary, menor em seu escopo, porém gigante em seus protagonistas. Aqui, a promessa é estabelecer Godzilla e King Kong para um eventual crossover dos bichões. Dois filmes já foram lançados, Godzilla (2014) e o divertido Kong: Ilha da Caveira (2017), que inclui uma cena pós-créditos ligando a trama das projeções e sugerindo o próximo filme, Godzilla 2: Rei dos Monstros, que sai ano que vem.

A franquia Transformers também vai entrar na onda através do filme solo de Bumblebee, e o “Universo Sombrio” da Universal parece estar morto antes mesmo de nascer. Aqui, temos longas como Drácula: A História Não Contada e A Múmia (2017). Este segundo em específico sofreu dos mesmos males que BvS: uma trama inchada que busca estabelecer os fundamentos de uma franquia, mas que esqueceu de ser um bom filme no processo. Infelizmente, a popularidade dos monstros abarcados na franquia não é tão grande quanto a dos heróis da DC, algo que pode significar um caixão prematuro para os longas futuros. Nem só do carisma de Tom Cruise dá pra carregar uma linhagem de filmes.

Existe também a lambança experimental que a Fox vem fazendo com X-Men, mas sabem que eu até que gosto disso? Entrar numa sala de cinema para ver algo dos Mutantes tornou-se uma roleta russa empolgante, onde podemos acabar sendo presenteados com ideias legais ou adaptações medíocres. Pelo menos eles estão tentando se redimir, e que venham Novos Mutantes e Fênix Negra.

Para os Universos Cinematográficos vindouros, espero que eles estejam tomando nota do cenário atual, e que sigam uma linha mais respeitosa com a continuidade de seus filmes e da paciência de seus espectadores.

Em 10 anos, talvez o maior segredo da Marvel para erguer um império cinematográfico expansivo tenha sido respeitar a sua paciência e dedicação como um espectador, te recompensando continuamente com bons filmes que plantam a semente para longas ainda melhores.

E você, qual o seu Universo Expandido favorito? Empolgado para o que vem por aí? Comente!

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sobre o autor Lucas Rafael

Entusiasta de coisas demais