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Como o streaming da Disney pode mudar o Universo Cinematográfico da Marvel!

Por Gus Fiaux

É difícil conceber uma franquia que demonstrou tanto crescimento na última década quanto o Universo Cinematográfico da Marvel. O que começou em 2008 com o primeiro Homem de Ferro logo se transformou em um verdadeiro império multimidiático, apresentando mais filmes, curtas-metragens e séries de televisão – além de faturar uma grana preta no que diz respeito a licenciamento e material complementar.

Por conta disso, não é nem um pouco surpreendente para os fãs que a Casa das Ideias tenha anunciado a produção de minisséries exclusivas para o Disney Play, o serviço de streaming mais aguardado do ano que vem. Contudo, o que choca é saber que essas séries vão ser protagonizadas por personagens já bem estabelecidos nos cinemas, como Loki e Feiticeira Escarlate.

Mas afinal, como isso vai funcionar? E quais os motivos levaram a Disney e a Marvel Studios a tomarem uma decisão tão… ousada?

Antes de mais nada, é importante estabelecer que estamos na era do streaming, e serviços como a Netflix e a Amazon Prime Video foram apenas a ponta do iceberg. Nos últimos cinco anos, pelo menos, começou uma grande movimentação por parte de emissoras de TV e estúdios de grande renome, de forma que cada um percebeu o potencial desse tipo de plataforma e passou a investir em seu próprio.

Se a HBO foi além com a HBO GO, único streaming onde você pode conferir séries aclamadas como Westworld e Game of Thrones, outras grandes empresas midiáticas não ficaram atrás. A Warner, por exemplo, além de investir em seu próprio serviço, também vai lançar o DC Universe, uma plataforma exclusiva para conteúdos referentes à DC Comics – mas guarde essa informação por um momento, pois ela será importante depois.

No entanto, note como, a cada novo serviço anunciado, há uma espécie de “esvaziamento” em catálogos mais “completos”, como o da Netflix, por exemplo. Isso porque não faz sentido, para um grande estúdio, prometer exclusividade em relação aos seus materiais, quando outros streamings também possuem esse mesmo conteúdo. Assim sendo, a tendência é que cada franquia pertença a um nicho diferente.

E qual é a saída para manter o seu próprio serviço relevante ao mesmo tempo em que se lida com a falta de conteúdo? A resposta é bem óbvia: material original. Se ainda pegarmos a Netflix como exemplo, veremos um pioneirismo e um brilhantismo nessa concepção. O serviço não apenas distribui, como produz dezenas de séries e filmes originais por ano, criando um repertório único e altamente exclusivo.

Mas o que isso tem a ver com o Disney Play e as séries originais da Marvel? Tudo. Se pararmos para pensar, em pouco tempo, a empresa do Mickey Mouse pode “fazer a limpa” no catálogo que até então está disponível na Netflix e na Hulu. No entanto, ainda é necessário encontrar algo que justifique a assinatura do usuário – afinal de contas, esse material ainda pode ser encontrado de outras formas, tanto na televisão quanto em home video.

Detentora de franquias gigantescas como Star Wars e, em breve, o material da Fox, faz total sentido que a Disney invista em produções originais. Contudo, estamos falando de algo que possui um calibre maior do que qualquer investida já feita para esse tipo de plataforma midiática.

Isso porque, conforme já foi especulado, essas novas séries da Marvel Studios terão o retorno do elenco dos cinemas. Ou seja, espere rever Tom Hiddleston como Loki e Elizabeth Olsen como a Feiticeira Escarlate. Não apenas isso, mas elas serão produzidas em um formato limitado – ou seja, uma minissérie – que possuirá um orçamento astronômico, quase rivalizando com algumas das produções cinematográficas do estúdio.

Para se ter uma noção, os filmes do Universo Cinematográfico da Marvel possuem um orçamento entre US$ 150 a 250 milhões, no geral – com algumas exceções aqui e acolá, como a monumental Guerra Infinita. Se uma série para streaming possui dois terços desse orçamento, já é considerada uma produção de altíssimo (e custoso) nível.

Só a nível de comparação, podemos pensar na oitava temporada de Game of Thrones, que terá uma média de orçamento de US$ 15 milhões de dólares por episódio – um preço já considerado altíssimo pelos padrões do mercado televisivo. Lembrando que essa temporada terá seis capítulos, podemos supor que o valor total foi de impressionantes US$ 90 milhões.

O que significa que essas séries terão tudo para “rivalizar” com as produções cinematográficas – ou melhor, complementá-las. E é aqui que entra um ponto muito importante em relação a esse investimento: pode ser uma forma da Marvel calar a boca de quem reclama da falta de integração de séries e filmes.

Esse elefante na sala pode até não afetar alguns fãs, mas está lá. Basta notar que as séries do núcleo Marvel/Netflix passaram a ignorar os eventos dos filmes, ou usá-los em um plano bem secundário, uma espécie de “resposta” à falta de menção que os filmes fazem para com esse “micro-universo”. Mais recentemente, Manto e Adaga e Fugitivos parecem fora do eixo, como se não existissem em sintonia com esse universo. A Marvel TV está desmotivada, e nós sabemos o motivo.

No entanto, ao explorar séries como a da Feiticeira Escarlate, por exemplo, a Studios tem tudo para criar um universo mais integralizado, que interaja entre si independente da plataforma midiática. O ponto preocupante é que esse tipo de produção pode acabar afastando mais ainda séries como Defensores e Agentes da S.H.I.E.L.D.

Mudando de foco, também precisamos pensar na concorrência. Mais cedo, foi mencionado o DC Universe, e sua função básica já está no ar. Contudo, a partir do próximo mês, o serviço vai investir pesado em seu conteúdo original, com o lançamento de Titãs, sua primeira série exclusiva. E não para por aí, pois já temos um catálogo enorme previsto: Patrulha do Destino, Monstro do Pântano e Stargirl, além de uma série animada para a Arlequina e o retorno de Justiça Jovem.

Com esse conteúdo à disposição do público, a Disney também precisa oferecer sua contrapartida. E o que seria mais genial do que produzir séries de personagens que o público já conhece pelos filmes? Ou melhor, não apenas produzir, como também desenvolvê-los de uma forma jamais antes vista.

Com seis episódios – supondo que essa seja a quantidade por minissérie – teríamos uma exposição desses personagens de forma bem mais proveitosa que os filmes. E afundando ainda mais na especulação, supondo que cada episódio tenha uma hora de duração, em pouco tempo o Loki terá mais tempo de tela do que o próprio Thor.

Aliás, isso é um ponto interessante: com esse tipo de planejamento, a Marvel parece estar bem investida em explorar personagens que nunca teriam espaço para um filme solo. Pegue, por exemplo, a Feiticeira Escarlate. Ela é muito querida entre os fãs de quadrinhos, mas não possui uma base tão grande entre o público leigo. Faz mais sentido apostar em uma série de streaming que, querendo ou não, sempre possui um público já “garantido”.

Claro que, por enquanto, só podemos supor o que esse tipo de proposta vai influenciar dentro do Universo Cinematográfico da Marvel. Contudo, já podemos perceber o impacto que isso vai causar no cenário hollywoodiano como um todo. Imagina se os estúdios resolvem preparar séries com um porte cinematográfico para compensar pela ausência de filmes?

Afinal de contas, não creio que seja muito difícil imaginar uma série televisiva para Obi-Wan Kenobi, especialmente após a catástrofe financeira que foi Han Solo: Uma História Star Wars. E, mudando de estúdio, quem garante que a DC não possa alterar alguns de seus projetos para viabilizá-los melhor no ramo televisivo? Asa Noturna e Batgirl, por exemplo, se beneficiariam muito disso.

Por enquanto, só podemos especular. Mas, ao mesmo tempo, aplaudimos a decisão ousada da Disney – que no final das contas, nem é tão ousada assim. Eles possuem um pote de ouro na mão. Mas em vez de gastá-lo todo de uma vez, eles aprenderam a multiplicar e construíram um império em cima disso.

 

Abaixo, fique com imagens de Capitã Marvel, o próximo filme do Universo Cinematográfico da Marvel:

O serviço de streaming da Disney só será lançada em 2019.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux