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Bloodborne é a melhor adaptação de H.P. Lovecraft!

Por Lucas Rafael

Em Bloodborne, você encontra muitos personagens cegos. Geralmente eles cobrem os olhos com trapos, ou simplesmente não possuem glóbulos oculares. Os habitantes deste universo não querem enxergar. Bloodborne tem uma fixação com olhos. Eles são itens; um dos chefes traja um vestido ornado de olhos. O seu nível de “discernimento”, um status do jogo, é ilustrado pelo desenho de um olho. Por falar nele, a mecânica de discernimento é justamente o que faz de Bloodborne o melhor jogo de horror cósmico já produzido. Mas vamos chegar lá.

 

Que vista…

 

Afinal, o que é horror cósmico mesmo?

O horror cósmico é calcado em pessimismo existencial. Um de seus temas recorrentes inclui a fragilidade da mente humana quando exposta a seres que representam a indiferença do universo. Se você pudesse entender a existência, não suportaria ela. Ficaria louco. Você não é nada no esquema geral das coisas.

Existe um niilismo recorrente nas obras que recebem o rótulo de “horror cósmico”. O nome mais comumente associado a tais obras é o do autor H.P. Lovecraft, que ergueu toda uma mitologia através de sua literatura, criando horrores imensuráveis que infestam a mente humana, destrilhando-a da sanidade para uma espiral decadente de pessimismo e insânia.  

Existe uma dificuldade muito grande em adaptar o horror proposto pelas obras de Lovecraft. Embora tal horror seja imageticamente associado a um tom verde pastoso e criaturas tentaculares, o buraco é bem mais embaixo. Em seus escritos mais amadurecidos, Lovecraft descreve seres através de toneladas de adjetivos que pintam uma imagem abstrata, nada concreta. É a sua imaginação, leitor, que fica ao encargo de preencher as lacunas descritivas e, assim, o que você acaba imaginando e evocando psicologicamente é mais assustador do que qualquer autor poderia tecer em palavras. Então, como adaptar um tipo de horror tão sutil, que usa o medo do desconhecido e o niilismo como combustível no lugar de criaturas desfiguradas, gore ou maldições horripilantes? Aqui começamos a falar de Bloodborne. Talvez, através da mídia dos games, este título seja o produto que mais tenha chegado perto de arranhar uma adaptação decente de horror cósmico.

Adaptando o Horror Cósmico

É difícil adaptar horror cósmico. Nos cinemas, falta um expoente máximo deste gênero. Nos jogos, temos Bloodborne. Algumas desenvolvedoras até tentam, mas não conseguem capturar a essência do negócio de maneira satisfatória. Call of Cthulhu, um game deste ano inspirado diretamente na mitologia de Lovecraft, falha em entregar algo que traduza bem os conceitos do autor em que se inspira para a mídia dos games. Aqui fica melhor ler a crítica do Leo Gravena.

Call of Cthulhu parece mais uma fanfic escrita por um entusiasta do horror cósmico do que algo preocupado em transmitir o desespero Lovecraftiano genuíno. Existem ali os cultos ominosos; a cidadezinha costeira, o protagonista débil e sem muita perspectiva, todos os elementos comuns que pontuam as narrativas do gênero. Mas eles são confete, adornos estilísticos, passam longe de ser a “carne” oferecida pelo horror cósmico.

Jogar Bloodborne até o final, pela primeira vez, sem o uso de guias ou detonados é uma experiência bastante singular. Existem inúmeras qualidades no jogo, grande parte delas – como o level design intrincado e a recompensa por exploração – são herdadas dos outros títulos da desenvolvedora, a From Software, que assina a franquia Dark Souls. Mas vamos falar do que Bloodborne faz de diferente. 

Cada vez que você encontra um chefe, algo estranho, ou consome um item chamado Conhecimento do Louco em Bloodborne, você ganha um ponto de discernimento. O status de discernimento serve para indicar o conhecimento que o boneco controlado por você detém sobre o mundo ao seu redor. Quanto mais discernimento você acumula, mais difícil Bloodborne fica. Os inimigos arrancam mais dano. Algumas estátuas tentaculares começam a surgir onde não estavam antes e criaturas disformes e gigantescas aparecem nos telhados vitorianos da cidade de Yharnam. Causa uma sensação de estranheza e desconforto genuíno.

 

Isso não tava aí antes…

Você pode consumir Discernimento ao invocar jogadores para te ajudar. Desta maneira, o jogo fica mais fácil, e a quantidade de Discernimento acumulada por você fica equilibrada e não torna Bloodborne um jogo mais opressivo. É uma sacada legal para você nivelar a dificuldade. Quando você reflete um pouco sobre a lore, fica claro que, aquela versão mais fácil de Bloodborne, com seu nível de discernimento baixo, por mais grotesca que possa ser, não é a realidade.  

A realidade em Bloodborne são criaturas extraterrenas empoleiradas nos telhados, encarando uma civilização decadente que optou pela cegueira. Os personagens de Bloodborne preferem tapar os seus olhos, quiçá arrancá-los para não olharem pro horizonte e, ao invés da lua ou do pôr do sol, enxergarem um lembrete de sua existência efêmera.

A coisa imagética de Lovecraft também está aqui. Diversos chefes do jogo contam com tentáculos e deformidades físicas que, se você tentar pôr em palavras, vai precisar de muitos adjetivos para descrever, o que é muito Lovecraft.

 

Isso é um dos chefes de Bloodborne, mas podia ser a macarronada com almôndega que você esqueceu na geladeira.

Em termos de ambientação, o título possui áreas de atmosfera densa que reverberam fortemente as descrições de Lovecraft, tanto para locais como R’lyeh ou a vila de pescadores de Innsmouth. O design sonoro ajuda a criar uma atmosfera legítima de decadência e entropia. O vilarejo de Fishing Hamlet, em Bloodborne, parece ter sido um local idílico um dia. É o que a vila pesqueira de Innsmouth seria após anos da nova religião implantada por Obed Marsh no livro de Lovecraft.

No fim das contas, Bloodborne faz com que você saia abatendo toda sorte de criaturas sem nunca entender a totalidade daquele universo. Seja lá qual final você obter, existem múltiplas interpretações para cada um. Você liga evento A com B, conjetura sobre, mas no final, não chega a uma conclusão palpável. Talvez seja melhor que você fique na ignorância, mesmo que ela não represente a realidade. Assim como nos melhores escritos de Lovecraft, em Bloodborne, a ignorância pode ser a maior das bençãos. E isso é assustador.

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sobre o autor Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais