Capa da Publicação

Afinal, precisamos mesmo de uma Comic-Con de San Diego?

Por Gus Fiaux

Todo ano, sites de cultura pop ficam movimentados com o maior evento nerd do planeta: a San Diego Comic-Con, uma tradicional convenção que reúne fãs na Califórnia, geralmente no mês de julho. A atração já foi palco de momentos inacreditáveis para o cinema, a TV e os quadrinhos, principalmente no que diz respeito aos icônicos painéis do Hall H – o maior auditório da convenção.

Contudo, de uns anos para cá, as pessoas têm notado o quanto a Comic-Con tem diminuído suas atrações. Alguns estúdios decidem deliberadamente ficar de fora, e a quantidade das novidades tem reduzido bastante, deixando apenas o espírito da reunião e interação dos fãs das mais diversas franquias. Mas afinal… o que isso significa? Teria a SDCC perdido sua relevância?

Primeiro, vamos para a aulinha básica de história. O evento foi inaugurado em 1970, há quase cinquenta anos. Na época, ainda se chamava Golden State Comic Book Convention, devido ao fato das primeiras edições serem dedicadas exclusivamente à nona arte. Três anos após sua fundação, ela ganhou o icônico nome que conhecemos hoje.

No início, o evento era sediado em hotéis, onde aconteciam os encontros dos fãs com os artistas. Em 1978, ela migrou para o Centro de Convenções de San Diego, na Califórnia, onde se mantém até hoje – ainda que alguns hotéis adjacentes sejam palco de alguns painéis, geralmente envolvendo a imprensa.

Desde então, foi um crescimento absurdo. O que era palco apenas para HQs se expandiu, abraçando a cultura pop de forma geral. Gêneros como o horror e a ficção científica tomaram também conta, e possuem vários painéis exclusivos focados em debates sobre filmes, livros, séries de TV e HQs.

O público da Comic-Con de San Diego sempre foi fiel. Enquanto toda criança quer conhecer a Walt Disney World, na Flórida, todo bom nerd quer, pelo menos uma vez na vida, adentrar a convenção. E é por isso que os números cresceram bastante nos últimos anos. Se até o início do milênio, o maior número de participantes tinha sido pouco menos de 5 mil, em 2015 a convenção chegou ao seu pico, com 167 mil pessoas presentes ao longo dos quatro dias de evento.

Contudo, é importante notar que a convenção tem diminuído – e os números não mentem. Se 2015 foi um ano glorioso para a SDCC, o evento vem caindo desde então. No ano passado, foram “apenas” 130 mil pessoas, e especula-se que neste ano, o número tenha sido ainda menor – ainda que nenhuma informação oficial tenha sido revelada até agora.

Porém, precisamos nos atentar não apenas com o público, mas também com os responsáveis pelos diversos painéis e apresentações. Quando os estúdios passaram a frequentar o evento em peso, a Comic-Con logo virou uma “área de teste” para que todos pudessem sondar a recepção de seus projetos.

É por isso que muitos dos trailers exibidos por lá não eram imediatamente divulgados na internet – uma prática que se mantém bem atual, se vocês prestarem atenção. Os vídeos eram lançados com exclusividade para os presentes, enquanto os estúdios testavam a animação da platéia. Foi inclusive graças à Comic-Con que muitos projetos foram modificados ou até mesmo aprovadospodem dar oi, Esquadrão Suicida e Deadpool.

Assim, nutre-se um acordo simbiótico dos fãs com as empresas. Eles recebem em primeira mão um conteúdo “exclusivo” e, em troca, dão suas opiniões, para que o produto final receba as devidas “calibragens”.

Porém, nos últimos anos, temos visto uma queda bem constante de estúdios presentes na convenção. Se olharmos no passado, uma das figuras que mais ficou de fora foi a 20th Century Fox, principalmente após 2015. O que aconteceu – e os fãs já sabem muito bem – é que o estúdio resolveu deixar de lado o evento devido aos vários vazamentos de seus conteúdos – algo que prejudica (e muito) a campanha de marketing e a divulgação de seus vários projetos.

Mas uma convidada em particular tem feito bastante falta – e sua ausência foi bastante sentida na edição deste ano: a Walt Disney. Precisamos considerar, antes de tudo, que o que entendemos como Disney abrange a Marvel Studios, a Lucasfilm e a Pixar – e em breve, se tudo der certo, vai abranger a própria Fox também.

E já não é a primeira vez que isso acontece. Em 2016, a Marvel Studios também não fez sua grandiosa apresentação no Hall H. E se até um ano antes disso, um filme de super-heróis não ter painel no evento era considerado preocupante, atualmente isso está ficando cada vez mais comum.

A razão é simples, no caso da Disney. Eles possuem seu próprio evento, a D23, que funciona de forma bienal. Lá, eles aproveitam para fazer alguns anúncios de seus projetos, e a Marvel Studios lentamente têm se encaminhado para o evento, deixando a SDCC quase como uma “opção secundária”.

Isso, por sua vez, pode resumir melhor a contínua queda de público e até mesmo de estúdios. Há alguns anos, a San Diego Comic-Con era o único grande polo de encontro – ainda que houvessem várias convenções menores, espalhadas por todo o território dos Estados Unidos. Atualmente, essas pequenas convenções passaram a crescer, e quase toda cidadezinha possui sua própria “Comic Con”, “Fan Fest” ou “Wonder Con”.

E não pense que isso acontece puramente dentro dos Estados Unidos. O surgimento de novas convenções internacionais, como a Comic Con India, a Comic Con Africa e até mesmo a nossa brasileiríssima Comic Con Experience ajudaram a descentralizar um pouco mais o conteúdo nerd. Assim sendo, os fãs não precisam mais se deslocar para uma convenção, já que as convenções estão praticamente “se deslocando” até eles.

Para se ter uma ideia, enquanto a SDCC tem diminuído gradualmente, sua maior “rival”, a New York Comic-Con, têm crescido exponencialmente – e olha que o evento foi fundado em 2006. Supõe-se que a média de pessoas presentes no evento possa ser ainda maior que as da SDCC – mas vale considerar o fator geográfico, já que por ser situada em Nova York, a NYCC realmente tem um público consumidor mais vasto.

Nesse ponto, é importante traçar um comparativo mais próximo de nossa realidade. Muitos de vocês devem ter ouvido falar ou até mesmo frequentado a Galeria do Rock, em São Paulo. É um dos lugares mais adorados por um público “alternativo”, que inclui em seu meio, nerds e geeks.

Durante muito tempo, só lá você poderia encontrar camisas de banda, jogos de RPG, artigos de filmes e séries e alguns quadrinhos raros. Com o tempo, a capitalização do público nerd passou a aumentar, de forma que em qualquer loja de departamento vende camisas de super-heróis ou dos Ramones. Com isso, a Galeria do Rock “perdeu sua exclusividade”, ainda que tenha uma importância cultural para São Paulo.

É basicamente o mesmo que tem acontecido com a SDCC. Nada mais é exclusivo. Ainda mais considerando que muitos dos vídeos exibidos lá logo são gravados e vazados na internet, o que realmente afasta os estúdios. Essa evasão das atrações é que tem feito com que a convenção fique a cada ano menor e menos cheia de novidades.

Ainda assim, é cedo dizer que o evento perdeu sua relevância. Se pensarmos apenas neste ano, o painel da Warner tornou-se extremamente comentado – até mesmo fora do nosso círculo “nerd”. Ainda é um espaço para expor novidades – mesmo que não haja mais a necessidade de deixá-las retidas a um público menor, o que fica bem evidente quando os estúdios logo em seguida liberam os trailers de seus filmes na internet.

E estamos também deixando de lado um ponto bem importante: os artistas independentes. Sejam estúdios menores ou até mesmo quadrinistas que fogem do “núcleo Marvel/DC”, a convenção tem um papel crucial na divulgação de seus trabalhos, além do prestígio.

Agora, nos resta esperar. Os próximos anos serão cruciais para o mundo nerd, já que o “excesso” de filmes de super-heróis pode determinar como a indústria – seja em Hollywood, na TV ou até mesmo nas HQs – vai crescer ou diminuir. E com isso, a San Diego Comic-Con será uma das primeiras a sentir o impacto.

Por ora, o que podemos dizer é que talvez precisemos de uma Comic-Con de San Diego. Talvez não. Ainda assim, ela segue e vai continuar por um bom tempo, afinal de contas, é o evento nerd mais tradicional do mundo e possui um lugar de respeito no coração dos fãs das mais diversas franquias.

Abaixo, confira os melhores momentos da Comic-Con de San Diego deste ano:

Imagem de perfil
sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux