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A verdade sobre a “queda” das vendas de quadrinhos da Marvel!

Por Leo Gravena

Em entrevista com o ICv2, Gabriel falou sobre como os quadrinhos da Marvel não estão vendendo o bastante devido a mudanças no mercado. Segundo o executivo, parte do público estava “virando o nariz” para novas histórias e personagens. Obviamente, isso não é uma grande surpresa, afinal, basta entrar em qualquer fórum de internet e comentários ofensivos, ou críticas leves, sobre os atuais títulos “diversos” da Marvel irão surgir.

O que causou o grande furor, contudo, foi uma importante parte da entrevista em que David Gabriel disse:

“O que ouvimos [dos revendedores] é que as pessoas não queriam mais diversidade. Eles não queriam personagens femininas lá fora. Isso é o que ouvimos, se acreditamos nisso ou não, eu não sei se isso é verdade, mas é isso o que vimos nas vendas. Nós vimos as vendas de qualquer personagem que era diverso, qualquer personagem que era novo, nossas personagens femininas, qualquer um que não fosse um personagem principal da Marvel, as pessoas estavam virando seu nariz para eles”. 

A partir dai, absolutamente todo mundo teve uma opinião sobre o assunto: Não importa se a pessoa leu ou não um quadrinho da Marvel na vida, se ela compreende as dinâmicas do mercado de quadrinhos ou se, até mesmo, ela sequer sabe quais eram estes personagens “diversos” que estavam sendo falados sobre. A questão tomou rumos ideológicos e, a partir dai, ainda estamos vivendo em um mundo onde “a diversidade matou a Marvel”.

Obviamente, qualquer pessoa que entende o mínimo de relações públicas sabe que a Marvel (e David Gabriel) teve uma péssima semana. No dia seguinte ao da entrevista com a ICv2, Gabriel entrou em contato com o site para retratar a declaração. Ele deixou claro que o assunto foi “discutido honestamente com os revendedores” e “ouvimos que alguns não estavam felizes com o falso abandono de alguns heróis centrais da Marvel”. Gabriel também deixou claro que a Marvel está comprometida com personagens como Ms. Marvel, A Poderosa Thor e Miles Morales, “nossos novos heróis não estão indo para lugar nenhum!”, ainda citando que a Marvel está animada para “juntá-los a nossos heróis clássicos”.

Contudo, é muito importante saber o contexto da declaração de Gabriel. A entrevista dele com o ICv2 fez parte de uma reportagem em três partes que o site fez sobre uma reunião da Marvel com seus varejistas. Nela, dois deles expressaram sua insatisfação com os novos personagens de credos, etnias e culturas diferentes. “Eu não quero vocês fazendo essas coisas. Eu quero que vocês entretenham. Esse é o trabalho de vocês,” disse um dos varejistas, seguindo para comentários sobre o conteúdo político dos quadrinhos atuais. Outro varejista deixou claro: “Para mim, eu me importo se eu vou vender ou não”, após ter dito sobre como filmes e outras mídias focadas em personagens “diversos” não vendem o bastante.

É fácil destacar estes comentários, porém, outros varejistas deixaram claro que quadrinhos com personagens não-caucasianos, como Miles Morales, estavam tendo bons números em vendas. Contudo, o que Gabriel acabou focando, e citando depois, foi na impressão de alguns varejistas que tiraram suas próprias conclusões dos motivos das vendas de quadrinhos estarem baixas.

Contudo, é importante compreender o seguinte: Elas não estão.

“Mas, como isso é possível?” Você deve estar se perguntando neste momento, “Absolutamente TODOS os sites estavam me falando que os quadrinhos da Marvel estavam falindo, não estavam vendendo e a DC estava reinando suprema com o Rebirth. Eu estou completamente confuso!” Bem, não fique; a seguir explicarei o que está acontecendo:

No meio de toda essa confusão, surgiram discussões sobre diversidade ser importante ou não – a qual não entrarei neste momento – e se de fato os quadrinhos da Marvel estão ou não vendendo. A pessoa mais sensata a falar sobre o assunto foi G. Willow Wilson, a roteirista e criadora de Ms. Marvel; em seu blog pessoal, a autora falou sobre diversidade, vendas, mercado e público. Por fim, ela deixou algo bem claro:

“Em um nível prático, isso não é uma história sobre ‘diversidade’, de qualquer modo. É uma história sobre o aumento de quadrinhos para jovens adultos. Se você olhar dessa forma, as coisas que vendem e que não vendem (E O MERCADO EM QUE ELAS VENDEM VS O MERCADO EM QUE ELAS NÃO VENDEM) começam a fazer um sentido diferente.”

As coisas ainda podem estar levemente confusas e, para isso, precisamos entender exatamente o que o publico jovem e atual tem a ver com os varejistas.

Na última década tivemos uma grande revolução tecnológica. Surgiram smarthphones, notebooks, tablets e, principalmente, pdfs e outras formas de codificar livros, revistas e, neste caso, quadrinhos. Isso afetou a música, o cinema, as séries de TV. Hoje em dia temos Spotify, Netflix, Amazon, HBO GO, Youtube – e a lista continua. Obviamente, quadrinhos têm sim seus próprios serviços online, como o Comixology, porém, a “queda de vendas” da Marvel é algo que aflige o varejo.

Assim como temos serviços de streaming para nossas músicas e séries, você pode comprar quadrinhos digitalmente, ou através de assinaturas. Contudo, a contagem de vendas de quadrinhos ainda é feita através do varejo, pela  Diamond Comic Distributors, e não uma combinação com as vendas digitais, as quais muitas vezes são completamente ignoradas quando se fala na venda de quadrinhos.

Os varejistas – que tanto reclamaram e mostram que os números de vendas da Marvel estão baixos – ainda permanecem em um sistema baseado em ordens recebidas por donos de negócios independentes (como lojas de quadrinhos e bancas). Os varejistas compram os quadrinhos  tendo, como base, os pedidos que já recebem destas bancas e lojas. Obviamente, os donos das bancas sabem que maior parte do público já conhece personagens como o Batman, Capitão América, Homem de Ferro e Superman, assim eles compram mais quadrinhos destes heróis.

Desta forma, o dono da banca prefere pedir um bom número de quadrinhos do Capitão América e um número menor de títulos de um herói ou grupo mais desconhecido do público em geral, como Miss America Chavez ou a Moon Girl e o Dinossauro Demônio. Esse número aparece para os varejistas como se os quadrinhos destes novos personagens não estivessem vendendo o bastante e isso é repassado pra a Marvel, que acredita que quadrinhos físicos destes personagens não estão vendendo o bastante.

O modo como as bancas de quadrinhos e os varejistas trabalham acaba criando um tipo de ciclo de mercado que é extremamente difícil de se mudar, afinal, ele é alimentado pelos consumidores que compram casualmente quadrinhos de heróis mais conhecidos e, quando se interessam por novos heróis que aparecem em eventos ou quadrinhos de equipes, acabam não tendo sucesso em encontrar suas revistas solo para comprar.

Assim, temos um ciclo complicado de ser quebrado: o consumidor não tem acesso aos quadrinhos físicos de um personagem, então não os compra; donos de banca acreditam que o público não se interessa por personagens mais desconhecidos e assim não encomenda essas revistas dos varejistas; varejistas acreditam que a Marvel não está vendendo o bastante, alguns culpam a diversidade e pronto. O circo pega fogo.

Isso não é um problema de agora, muito pelo contrário, nos últimos cinco anos muito se fala sobre como o atual sistema de venda de quadrinhos físicos está se desgastando. Cada vez mais vemos a importância cultural dos quadrinhos na atualidade, o que permite que as discrepâncias entre o mercado direto (e sua forma de distribuição) e as outras formas de se comprar e ler quadrinhos sejam ainda mais visíveis.

Então, não, a Marvel não está falindo e não, ela não está deixando de vender. Ela está apenas vendendo em outros locais – que não são as bancas e lojas de quadrinhos. O mercado de quadrinhos, assim como seu público, está se diluindo e se tornando cada vez mais diverso. Basear-se em apenas uma forma de contabilizar as vendas de ambas as grandes editoras não é apenas errado, como também perigoso, debilitando e apagando um publico novo e diferente que cresce cada vez mais.

Por fim, deixo uma excelente palestra de G. Willow Wilson, onde ela fala sobre a mudança geracional que está acontecendo no público das histórias em quadrinhos, como criar uma personagem “diversa” e a importância de se contar histórias novas e diferentes nos quadrinhos:

 

Ainda sobre o debate, você pode conferir o excelente vídeo do Mike Sant’Anna sobre diversidade e, abaixo, o texto do Gustavo Fiaux sobre a importância da representatividade nas HQs:

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Leo Gravena

Editor | Ele/Dele | @LeoGravena
Escrevo sobre cultura geek na internet desde 2012
"Don't look back -- the past is exactly where it belongs."