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Supergirl: 2.01-08 – As provações e aventuras da Garota de Aço!

Por Leo Gravena

Atenção: Alerta de Spoilers!

Após uma boa primeira temporada, Supergirl possuía um grande desafio a frente: provar que podia ser melhor e maior em um novo canal. Passando da CBS para a CW, ambos canais americanos da Warner, Supergirl entrou na programação ao lado de suas “séries irmãs”, Arrow, Flash e Legends of Tomorrow. Não apenas isso, a série teve que lidar com um desafio ainda maior, com a mudança de canal, a produção da série mudou de Los Angeles para Vancouver, no Canadá , e a atriz Callista Flockhart, que interpreta a icônica Cat Grant, decidiu se afastar da série já que não estava disposta a se mudar de país e ficar longe de sua família.

Assim, a produção, roteiristas e o showrunner Andrew Kreisberg tiveram uma tarefa árdua: criar uma segunda temporada tão boa quanto a primeira, manter a qualidade das histórias e trazer tramas novas que fizessem com que tanto a Supergirl quanto Kara crescessem, além de fazer tudo isso sem a voz de sabedoria de Cat Grant, guiando a personagem tanto como heroína quanto como uma jovem profissional tentando descobrir seu papel no mundo.

Supergirl, contudo, retornou ainda mais ciente de quem é como série, mais ciente de seu papel como ícone para jovens garotas, mais ciente de sua importância no atual cenário de séries de super-heróis televisivas. Sara Lance pode ser a grande estrela de Legends of Tomorrow; Daisy Johnson, Melinda May e Jemma Simmons são personagens insubstituíveis em Agents of S.H.I.E.L.D.; Iris West é a alma de The Flash – ainda assim, nenhuma delas possui seu nome no título de suas respectivas séries, elas estão lá, elas são de extrema importância, mas elas não estão em sua própria série.

Desta forma, é engraçado ver o gigantesco Superman sendo apenas um coadjuvante na série de sua prima. O personagem participou dos dois primeiros episódios da segunda temporada -interpretado por Tyler Hoechlin, de Teen Wolf – e foi um grande atrativo; novamente, várias críticas foram lançadas: “ator ruim de série adolescente”, “uniforme feio”, “ele não é grande e musculoso o bastante”. Com uma piscadela e toneladas de carisma, tudo isso parece ter ficado num distante passado – Supergirl novamente se provou, apesar de todos os comentários tóxicos, viciosos e simplesmente maus que foram jogados em seu caminho.

Isso parece ser uma constante em Supergirl, diferente de The Flash, Arrow e outras, a série constantemente prova o quão boa é. A cada semana, a cada episódio, é como se Supergirl – a série em si e não apenas a heroína – dissesse: “Estou aqui. Eu vim para ficar. Veja-me ascender”. Em oito episódios, a série fez isso e muito mais. Fosse com a bela despedida de Cat Grant, Kara Danvers descobrindo-se uma jornalista nata como seu primo, a participação do Superman, a introdução incrível de novos personagens e a belíssima, tocante e realista história de aceitação de Alex Danvers, Supergirl provou não apenas ser uma das melhores séries de heróis da atualidade, provou ser uma das melhores séries de ficção atuais também.

Nesta primeira metade da temporada tivemos importantes tramas sendo trabalhadas: Kara decidindo se tornar uma jornalista, Winn e James Olsen juntando-se e trabalhando nas sombras, Alex Danvers descobrindo sua identidade sexual e a apresentação de Lena Luthor, Cadmus, Mon-El e M’gann M’orzz, a Miss Marte.

Ao final da primeira temporada de Supergirl, Cat Grant avisa a Kara que ela não é mais sua assistente, Kara, então, acredita que esta sendo demitida, porém Cat diz a jovem que ela possui um potencial gigantesco e deve escolher qual o seu caminho na empresa. A vinda do Superman, e consequentemente Clark Kent, para National City funciona justamente para mostrar a Kara aquilo o que ela realmente quer ser em sua “vida normal”: Uma jornalista, exatamente como o seu primo.

Obviamente, isso – como diversas escolhas feitas pela série – foi recebido com críticas, afinal, porque fazer com que a heroína siga exatamente os mesmos passos de seu primo? A escolha foi arriscada, claro, porém trouxe ótimos desafios e novas histórias e possibilidades interessantes para a heroína. Agora Kara pode perseguir problemas, histórias, ela ainda possui um chefe mandão e exigente, porém, diferente de Cat Grant ele não está interessado em ensiná-la ou a ajudar a crescer – ele quer apenas que ela faça seu trabalho.

O Superman não foi o único personagem apresentado durante a temporada. O novo chefe de Kara, Snapper Carr, é uma versão menos carismática do clássico e exigente Perry White, ele não se importa com a vida pessoal de seus subordinados, ele não está nem ai se Kara está com problemas pessoais e precisa de uma semana de folga, tudo o que ele deseja são boas matérias. O personagem é um clichê, claro, mas é um clichê que possui uma finalidade importante: ajudar Kara a perceber que ela não pode conquistar a todos, que nem todas as pessoas são apenas más ou boas e, principalmente, ele serve como um ponto de apoio para tornar Kara mais confiante de si mesma e a ajuda a chegar ao ponto no qual veremos ela se tornando mais do que apenas mais uma jornalista escrevendo sobre assuntos os quais todos já estão cansados de ler.

Este, inclusive, é um dos pontos chaves da primeira temporada e que continua a ser desenvolvido na série: a vida pessoal e profissional de Kara é tão importante quanto sua vida e identidade heroica. A vibe “O Diabo Veste Prada” da primeira temporada serviu para Kara perceber que ela possui valor, nesta temporada, a vemos desenvolvendo isso em um ambiente onde não há alguém lhe dando um empurrão e afirmando o quão boa ela é, Kara, agora, deve provar o seu valor por si mesma.

A saída de Cat Grant da série também trouxe mudanças para James Olsen e Winn. Olsen tornou-se o novo CEO da CatCo. Worldwide Media, enquanto Winn foi trabalhar junto do DEO. Após tentativas frustradas de unir James com Kara, que não possuem uma boa química como casal, a série deixa claro logo nos primeiros momentos da temporada que eles serão apenas amigos. Um ótimo avanço que mostra que a protagonista da série não precisa sempre estar apaixonada ou em um relacionamento, principalmente quando ela está batalhando contra uma organização maléfica que está perseguindo aliens e esta lidando com as dificuldades de um novo emprego.

A união de Winn e James se dá de uma maneira divertida e natural, ambos eram apaixonados por Kara e foram inspirados pela moça a serem melhores e fazerem o bem. Após um evento traumático, James decide tornar-se um vigilante durante a noite, o Guardião, e recebe a ajuda tática e tecnológica de Winn. A dupla é divertida e traz um contraponto interessante a Supergirl, a trama deles também ajuda para pegar dois personagens que estavam sem muita utilidade e fazer com que eles tenham um papel mais interessante. É ótimo ver dois personagens masculinos que, mesmo tendo tido sentimentos pela mesma mulher, ainda conseguem ser amigos e trabalhar juntos, ao invés de ficarem disputando níveis de testosterona entre si – algo que ocorreu durante a primeira temporada.

Junto de James e Winn, temos também um bom desenvolvimento para Hank Henshaw, também conhecido como J’onn J’onzz, o Caçador de Marte. Nesta temporada vemos o personagem descobrindo que ele não é o último de sua espécie e conhece M’gann, a Miss Marte. A história, contudo, da uma boa reviravolta quando descobrimos que a personagem, na verdade, é um Marciano Branco, os responsáveis por terem aprisionados os Marcianos Verdes em campos de concentração.

A trama dos marcianos traz boas provocações sobre racismo e segregação, algo que Supergirl não tem medo de fazer é utilizar dramas fictícios como alegoria para discutir problemas reais. No terceiro episódio da temporada somos apresentados a Presidente Olivia Marsdin, interpretada pela eterna Mulher-Maravilha, Lynda Carter. Na série, a Presidente aprova uma lei que permite que aliens tenham os mesmos direitos que humanos, contudo, ela possui diversos opositores. Desta forma, a série trata de uma maneira extremamente pontual o problema de imigração ilegal, deixando claro seus ideias políticos ao abordar a trama com clareza e de forma didática.

Outro momento em que a série trabalha muito bem problemas reais é no quarto episódio, no qual somos apresentados a Veronica Sinclair, a vilã Roulette, interpretada pela talentosa e charmosa Dichen Lachman (de Dollhouse e Agents of S.H.I.E.L.D.). Roulette possui um ringue de lutas clandestino entre aliens. Nele descobrimos que vários aliens acabam indo até Roulette e lutando para entreter empresários ricos e entediados, ganhando dinheiro ou simplesmente sendo oferecidos um lugar para dormir em troca.

O clube de luta de Roulette mostra novamente, de forma extremamente didática para que todos possam entender, os problemas enfrentados por pessoas em situação de vulnerabilidade social, fazendo ligações com problemas enfrentados por pessoas sem moradia, em moradias inadequadas e enfrentando o desemprego e/ou baixos níveis de educação. Supergirl continuamente utiliza aliens para falar de problemas reais – da maneira que as melhores histórias de ficção costumam fazer.

Nesta temporada, também tivemos a introdução de Lena Luthor, a personagem – que existe nos quadrinhos desde os anos 60 – inicialmente é retratada como uma aliada de Kara, porém, ela não parece ser totalmente confiável. Durante os oito episódios exibidos, vemos a amizade entre ela e Kara/Supergirl ser desenvolvida, ambas possuem uma incrível química em cena e a cada vez em que estão juntas temos a impressão de que algo não está sendo dito, sempre existe muito nas entrelinhas e Lena Luthor, mesmo tendo provado diversas vezes estar junto dos mocinhos, parece estar sempre pensando dois passos a frente.

A série constantemente nos dá motivos para questionar a lealdade de Lena e, logo após, somos surpreendidos ao descobrir que ela estava fazendo a coisa certa desde o inicio. Junto de Lena, somos apresentados a sua mãe, Lilian Luthor, a líder da Cadmus que tem muito mais a ver com seu filho do que filha. A Cadmus é apresentada como uma grande organização secreta que odeia os aliens e quer exterminá-los. Nesta primeira metade da temporada, a organização é a principal antagonista de Kara, trazendo diversos oponentes para enfrentar a Garota de Aço, como Metallo e o Superman Ciborgue, aqui apresentado como o Hank Henshaw que foi resgatado pela Cadmus após seu encontro com o Caçador de Marte anos atrás.

Lena Luthor é uma personagem extremamente ambígua que esperamos ver sendo ainda mais desenvolvida no futuro, principalmente devido sua amizade com Kara funcionar de maneira semelhante a que a protagonista possuía com Cat Grant, porém, com Lena, ambas as personagens parecem estar mais em pé de igualdade. Lena e Kara são jovens mulheres competentes lutando para mostrar o quão boas são em seus respectivos cargos, uma sempre querendo algo da outra, mas ainda assim, respeitando-se como profissionais.

Contudo, nem tudo são flores e nem todos os novos personagens introduzidos são tão bons e interessantes. Um dos pontos fracos da temporada é Mon-El. O alien de Daxam é o ser misterioso que estava dentro do pod visto nos momentos finais da primeira temporada; Apenas de ser um personagem interessante, na maior parte do tempo ele serve como alívio cômico ou simplesmente um personagem chato, que faz decisões ruins que o colocam em situações complicadas das quais a Supergirl deve resgatá-lo.

Mon-El quase sempre é retratado como um inconsequente que não parece ter ideia dos efeitos que suas ações trazem para as outras pessoas. Ao invés de seus defeitos serem trabalhados, fazendo com que ele aprenda com seus erros e torne-se alguém melhor, o vemos apenas se tornando mais inconsequente e boçal a cada episódio. Por fim, o personagem começa a ter sentimentos por Kara e, desta forma, tenta agir de maneira melhor para mostrar a ela que pode ser um “cara legal” e o que inicialmente até era divertido e engraçado, no final é apenas mais algo com o qual reviramos os olhos.

Finalizando, chegamos a melhor parte desta primeira leva de episódios de Supergirl: Alex Danvers. Tão protagonista quanto sua irmã que dá titulo a série, Alex foi uma personagem que acabou ficando de lado durante boa parte da primeira temporada, ela tinha seus momentos de destaque e, logo depois, voltava a ser apenas um elemento para ajudar a Supergirl a enfrentar o vilão da semana, um claro desperdício da excelente Chyler Leigh, que definitivamente merecia uma trama para mostrar todo o seu talento.

Entra Maggie Sawyer e temos Alex descobrindo sua sexualidade.

A trama de Alex Danvers descobrindo sua identidade sexual é simplesmente uma das melhores e mais reais feitas nos últimos tempos nas séries de TV. Cada cena, cada dialogo entre ela e Maggie é colocado com zelo e um cuidado extraordinário, cada palavra, cada gesto, a maneira em que as cenas das duas sempre são filmadas em movimento, tudo leva para trama emocional, realística e bela, tão bela, que tocou boa parte dos fãs.

Como uma jovem mulher se descobrindo homossexual, a narrativa de Alex é extremamente única e honesta, a personagem reconta momentos do passado em que sabia que estava se sentindo atraída por outras garotas e mulheres, porém, nunca realmente havia aceitado essa parte de si. A cena em que Alex conversa com Maggie e aceita a si mesma como uma mulher lésbica, mesmo sem dizer isso em nenhum momento, é uma das mais tocantes de toda a série – é crua e emocional e destrói diversos clichês utilizados nos últimos anos.

Em um ano em que vinte e seis mulheres lésbicas e bissexuais foram mortas em séries de TV americanas, muitas sem sequer terem tido um pingo de desenvolvimento, Alex Danvers e Maggie Sawyer são joias raras que devem ser protegidas.

A jornada de autodescoberta de Alex foi trabalhada de uma maneira extremamente sutil e diferenciada do que normalmente vemos por ai. Ao invés de ter escondido sua sexualidade por anos, ou então simplesmente dizer “sempre fui assim” e todos agirem como se nada tivesse mudado, Alex mostra um fenômeno muito visto na vida real, na qual mulheres acabam buscando relacionamentos heterossexuais simplesmente porque sequer imaginam que relacionamentos gay sejam uma opção para elas, subconscientemente negando sua atração pelo mesmo sexo.

Principalmente quando vemos a reação dos outros personagens, notamos o cuidado com o qual a descoberta de Alex foi tratada. Ao contar sobre sua atração por mulheres para a irmã, Kara age de uma maneira inesperada, contudo, logo compreendemos também o motivo da heroína ter agido tão bruscamente: Kara acredita que ela tomou tanto espaço na vida de sua irmã fazendo com que ela tivesse que guardar seu segredo, que nunca imaginou que Alex poderia ter seus próprios problemas. Logo ela percebe que foi injusta em achar que o segredo de sua irmã estava, de alguma forma, ligado a ela e percebe que isto é algo sobre Alex e de forma nenhuma está ligado a ela.

Alex também lida com a rejeição de Maggie – que revela não estar pronta para um relacionamento com ela, pois acabou de terminar um namoro – e com a aceitação de sua mãe em uma cena tocante (e por tocante, sim, quero dizer que arrancou lágrimas deste que vos escreve), onde Eliza Danvers (interpretada por Helen Slater, do filme da Supergirl dos anos 80) diz para a sua filha que ela é excepcional e a amará de qualquer forma.

Por fim, Supergirl não apenas entregou o que prometeu nos oito episódios já exibidos, mas fez mais do que esperávamos. Utilizando-se de alegorias para falar de problemas políticos importantes e falando explicitamente de outros, a série se prova repetidamente, sempre mostrando que pode ser melhor e maior do que antes. Supergirl é uma série importante e sabe de sua importância. Supergirl não tem medo de falar o que quer e mandar a sua mensagem de amor, aceitação e, principalmente, tolerância. Supergirl é extraordinária e não tem problemas em provar isso a cada semana.

 

Supergirl retorna dia 23 de janeiro com Supergirl Lives. Confira algumas imagens do episódio abaixo:

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