Capa da Publicação

Fugitivos: 1×05-06 – Este mundo é um hospício!

Por Gus Fiaux

Quem tem acompanhado a saga das reviews de Fugitivos, sabe que eu não tenho o menor medo de considerá-la a melhor séries de “super-heróis” do ano (apesar de não ser bem uma série sobre super-heróis, e mais uma série sobre pessoas normais com super-poderes). Aliás, preciso pedir desculpas pelo sumiço na última semana, uma vez que estava um tanto quanto ocupado com a famigerada Comic Con Experience.

Mas, para não deixar ninguém na mão, voltei e trouxe comigo alguns pensamentos sobre os dois últimos episódios da série, exibidos na semana passada e nessa semana. “Kingdom” e “Metamorphosis” dão continuidade à trama dos adolescentes e da descoberta de seus pais como vilões, e também serviu para eu queimar um pouco minha língua, mostrando como a série pode ter planos ainda mais “longo-prazo” do que esperávamos.

Os dois episódios servem como as “pontes” da temporada. Eles parecem construir algo maior, quando na verdade, estão apenas sendo o elo de ligação para o fim desse primeiro ano, que infelizmente terá apenas dez episódios. E como toda “faixa de transição”, é aqui que começam a aparecer os problemas.

Por mais que o roteiro continue sensacional e a trama continue evoluindo de forma mais dinâmica, nota-se uma pressa acidental na evolução dos roteiros e da direção. Os diálogos estão bem afetados e ultra-expositivos, de forma que, diversas vezes, eu me peguei questionando a atuação de alguns atores que já haviam se provado bastante em seus papeis, como Allegra Acosta como Molly e Virginia Gardner como Karolina. E quando isso acontece, quase sempre é um mal sinal.

Em termos de direção, os dois episódios são os que menos saltam aos olhos – e quando fazem, é pelos motivos errados. O quinto capítulo possui uma dinâmica bem ruim no que diz respeito à montagem e edição, principalmente nas cenas de ação. É fácil se perder em meio a eventos implícitos e não revelados diretamente. Os efeitos especiais também deram uma decaída triste, e por mais que seja compreensível, devido aos limites orçamentários da série, dá uma certa vergonha alheia ver a cena da Karolina “voando” – se é que pode ser chamado assim – no sexto episódio.

Contudo, uma vez que já nos livramos da “parte ruim”, posso voltar a falar das coisas boas. Afinal de contas, por mais que tenha decaído levemente, Fugitivos continua sendo a melhor série da Marvel no ano, por ainda manter uma consistência inegável em comparação às outras estreias, sobretudo as vindas da Netflix.

A primeira coisa pela qual preciso gritar com todo o ar nos pulmões que ainda me resta é: O QUE FOI ISSO ENVOLVENDO O DOUTOR DESTINO? Sim, eu sei que não é o Doutor Destino. Mas ele já interpretou o Doutor Destino antes. E o nome de seu personagem é bem esquecível. Então por ora, o chamaremos de Doutor Destino. E sim, o Doutor Destino é pai da Karolina. E é o aparente fundador do Orgulho. E sim, ele é o homem misterioso que estava sendo tratado por Leslie. O QUE DIABOS ISSO SIGNIFICA?

A partir daqui, as teorias podem correr soltas. Eu suponho que, na série, devem alterar bastante o significado dos poderes de Karolina e sua família. Devem deixar um pouco de lado as origens espaciais e a trama dos Majesdenianos. Em vez disso, acho que irão se focar na ideia de que Karolina, Leslie e o Doutor Destino são, na verdade, descendentes diretos dos Gibborim. E, particularmente, essa ideia me deixa bem feliz, principalmente por pensar em como pode ser trabalhada a relação de Karolina no meio disso tudo, que apesar de seus poderes luminosos, é contraditoriamente a personagem mais “apagada” da série.

Por outro lado, nem toda mudança é boa. Acho que nem eu e nem o restante dos fãs de Nico Minoru precisamos insistir no quanto ficamos enojados com o discurso de Tina de que o Cajado do Absoluto é “uma arma científica, desprovida de magia”. Tudo bem introduzir a ideia de magia como ciência quando a única franquia “mística” do Universo Cinematográfico da Marvel era a do Thor. Mas hoje, já vivemos em um mundo povoado por entidades como o Doutor Estranho e o Motoqueiro Fantasma. Cajado do Absoluto como “ciência” é algo que a gente faz como fez com Inumanos ou com a quarta temporada de Arrow. Só finge que não existiu e segue em frente.

Em termos de interação dos personagens, devo dizer que os episódios continuam surpreendentes. Gosto de ver toda a energia feminina da equipe – algo que é bem raro no mercado de adaptações de HQs, superdominados por modelos masculinos. Aqui, a interrelação entre Gert e Molly é algo bonito de se ver, com as duas realmente nos fazendo crer que são como irmãs. Por outro lado, o romance unilateral de Karolina e Nico finalmente está sendo verbalizado, e pode ter grandes consequências no futuro.

Mas não se sintam excluídos, amigos homens. Há bons representantes para vocês também. Chase é uma das maiores surpresas da série, uma vez que realmente estão investindo em um personagem que subverte o clichê do atleta e tem algo a oferecer além do rostinho bonito. Ao mesmo tempo, Alex continua sendo o personagem mais complexo e bem-construído da temporada. Muitas vezes, eu me pego pedindo para todas as entidades místicas que ele não seja o traidor da equipe, caso a série realmente tente se enveredar por essas raízes das HQs.

No que diz respeito aos pais, todos estão muito bem, mas estou nutrindo um carinho especial pelos Yorkes. Eles vão precisar fazer algo muito terrível, como matar um dos Fugitivos – ou pior, a Alfazema – para me fazer realmente odiá-los. Sinto quase como se eles fossem pessoas puras demais para esse grupo, ainda que tenham uma boa parcela de culpa. Com relação ao resto, quero apenas ver o círculo pegar fogo – e isso é um ótimo sinal, uma vez que os atores estão comprometidos ao extremo com seus papeis.

Para finalizar, arrisco a dizer que esses episódios são os mais recheados de easter-eggs – afinal, se a qualidade decai, é só apelar para o fan service que a gente finge não se importar –, e isso é algo realmente intrigante, já que são também os episódios que mais se afastam do conceito inicial das HQs de Brian K. Vaughan e Adrian Alphona.

Há ligações minúsculas com o restante do Universo Cinematográfico da Marvel, ao mesmo tempo em que vemos algumas referências às HQs e temos uma participação mais que bem-vinda por um certo criador de quadrinhos aclamado. Devo dizer que fiquei tão inspirado por isso que escondi um easter-egg nessa própria review, e quem achá-lo primeiro ganha… um beijo e um abraço, talvez?

Mesmo que tenha tropeçado um pouco, Fugitivos continua caminhando com altivez. É uma série que continua gostosa de se assistir, e apesar da “demora” em vê-los fugindo de casa, devo dizer que a construção está transformando a série em algo bem peculiar. Eu realmente acho que eles vão manter os pais vivos até a segunda temporada, e que só a partir do próximo ano a equipe deve se aventurar fora de casa. E se, para alguns, isso não condiz com a proposta da série a partir do seu título, eu digo que é melhor um começo bem construído e desenvolvido, em vez de uma resolução sem bases concretas. Agora, resta-nos esperar para a construção dessa tensão insurgente.

Abaixo, confira algumas imagens dos episódios mais recentes:

Fugitivos vai ao ar às terças-feiras, na Hulu. Enquanto isso, não perca minhas reviews semanais da série, que são publicadas nas quintas-feiras, aqui na Legião dos Heróis.

Imagem de perfil
sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux