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Deuses Americanos 1.01 – Bem-vindo à América!

Por Lucas Rafael

Em Deuses Americanos, a natureza da trama adaptada a partir da obra de Neil Gaiman é elusiva. Nada é o que parece, não confie nos seus olhos.

A moeda desliza entre os dedos de Shadow Moon (Ricky Whittle), recém saído da cadeia e focado em não voltar. No final ele a gira, passa o dedo por cima e a face da moeda muda sem nenhum movimento óbvio. Existiu um truque ali, uma enganação que você não percebeu porque só olhou pra moeda e ignorou o resto. Deuses Americanos é um livro sobre muitas coisas. Sobre a praticidade entrando em conflito com a tradição, sobre fé, sobre cultura e truques, sejam de moedas ou mais elaborados.

O livro de Neil Gaiman sofria daquela sina de “será que dá pra adaptar?” que assombra muitas obras (coincidentemente uma delas é Sandman, também de Gaiman). Um dos principais motivos é devido à maneira peculiar da obra de Neil Gaiman abordar o fantástico e usar ele como um conduíte para o comentário social, além da natureza desse fantástico, que nem sempre é clara. O ano é 2017, finalmente temos uma série de Deuses Americanos. E agora?

Quem chegou aqui por causa do livro vai se deparar com uma produção estilizada que respeita o material fonte. Quem não leu, vai encontrar um universo que seduz e repele ao mesmo tempo, dotado de uma aura misteriosa e macabra, intrigante e assustadora.

No piloto da série, temos uma abertura fantástica sobre as origens da América, pintando a violência como uma tradição. Após o banho de sangue inicial chocar os sentidos, somos apresentados ao presidiário Shadow Moon, que após ser liberado da cadeia, é bombardeado de notícias ruins que o impedem de prosperar agora que está livre. Por coincidência, durante um voo, ele conhece Wednesday (Ian McShane), um velho senhor que lhe oferece um emprego suspeito repleto de benefícios. É aí que a jornada de Shadow desponta, com Wednesday mergulhando-o aos poucos em um universo elusivo, macabro e curioso.

Visto que Shadow e Wednesday são os personagens centrais da trama, o elenco aqui é certeiro: McShane está extremamente confortável no papel, articulando seus diálogos com uma naturalidade ímpar. Já Ricky Whittle se mostra um protagonista que desperta a simpatia do espectador devido à sua situação. Se em sua vida social após ser solto as coisas vão de mal a pior, o personagem evita demonstrar seus sentimentos publicamente, buscando reclusão para extravasar sua frustração. Já quando se depara com os elementos fantásticos da trama, Shadow alterna sua personalidade entre a dúvida e a raiva, sendo uma ponte com o telespectador que está tão familiarizado com aquela bizarrice toda quanto o próprio Shadow. É muito fácil criar empatia pelo personagem.

Existem outras figuras que povoam o universo de Deuses Americanos e se fazem presentes já nesse piloto. O leprechaun gigante Mad Sweeney (Pablo Schreiber) é digno de nota, assim como o companheiro de cela de Shadow, Low Key Lyesmith (Jonathan Tucker).

Deuses Americanos é uma série corajosa também em sua narrativa. Em um momento, a atmosfera assume um porte onírico, vemos caveiras adornando o chão e um búfalo com olhos flamejantes. No outro, Shadow é transportado psicodelicamente para um ambiente branco simétrico, onde, após um diálogo com o Garoto Tecnológico, é confrontado por personagens que parecem ter saído de Laranja Mecânica.

Apresentando também outros Deuses (a cena de Bilquis na série é tão desconfortável quanto no livro), a série não se afugenta de admitir que sim, a América é um mosaico cultural erguido por diferentes culturas. Uma mensagem extremamente relevante nos dias atuais.

Deuses Americanos é produzida por Bryan Fuller, também responsável por Hannibal, e a semelhança estética existe. Sob a direção de David Slade, o primeiro episódio possui uma identidade visual forte e impactante. Cada cena em slow motion desfere um impacto intenso sobre o espectador. O uso de cores é gritante e agressivo, a violência é destacada e as cenas de lutas bem coreografadas. Ainda que o piloto de Deuses Americanos funcione nesse modo super-estilizado, existe aí um risco do estilo da série sabotar sua substância. Não é algo que ocorra no piloto, mas algumas cenas chegam a beirar o exagero.

Existe um clima etéreo que permeia a série desde as primeiras cenas, como uma onda enorme prestes a quebrar em um maremoto violento, mas que toma seu tempo. É uma sensação desconfortável de que algo grande vem por aí, algo sinistro e sombrio, e os personagens desse universo sabem disso. Shadow Moon não sabe exatamente o que está por vir, mas ele sente em seus ossos que algo não está certo, que sua vida fora da prisão pode sofrer reviravoltas inesperadas, nem sempre para o bem. O amanhã de Shadow pode ser pior, mas hoje ele ainda faz truques com moedas e luta contra Leprechauns Irlandeses que perderam seu sotaque.

Deuses Americanos apresenta um piloto confiante que não tem medo de abraçar sua classificação indicativa. Na série, viajamos por um universo intrigante através de uma direção estilizada e que entrega algo promissor onde vale a pena ficar antenado. Se temos aqui a próxima grande febre viral do entretenimento, é difícil afirmar, ainda que o potencial do material apresentado nesse primeiro episódio seja inegável. Se o desenrolar de Deuses Americanos for tão intrigante e pungente quanto seu piloto, nós só temos a louvá-la.

Confira abaixo nossa galeria da série:

O primeiro episódio de Deuses Americanos está disponível para stream pela Amazon Prime.

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sobre o autor Lucas Rafael

Redator. Entusiasta de coisas demais