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Deuses Americanos 01.07 – Leprechauns na América!

Por Lucas Rafael

Histórias são a base do entretenimento. Pessoas gostam de ouvir algo inusitado ou fictício bem elaborado, seja para fins de escapismo ou como analogia para algo. O ser humano fez do ato de contar uma mentira criativa algo intrínseco de sua natureza. Histórias podem ter uma moral, ou simplesmente serem histórias – toma aqui uma sequência de eventos, mas não precisa extrair nada deles não.

A predileção humana por ouvir histórias está em alta hoje em dia, estamos tão ávidos por histórias que vamos para cinemas, acompanhamos séries e lemos HQs e livros. Queremos conteúdo, mas também queremos mais do que isso, queremos boas histórias, queremos catarse através da narrativa.

Os deuses de Deuses Americanos necessitam de histórias para sobreviver, precisam ter sua mitologia e nuances repassados, afinal, religiões possuem histórias como alicerces. “Deuses são reais se acredita neles” já dizia a propaganda do Youtube. Pois bem, quer argumentação melhor para acreditar em algo do que uma boa narrativa?

Estamos no penúltimo episódio dessa temporada de Deuses Americanos. Em “A Prayer for Mad Sweeney”, a série toma mais um desvio interessante, dessa vez para aprofundar o leprechaun Mad Sweeney (Pablo Schreiber), e sua vinda para a América, sendo ele uma figura mitológica Irlandesa. Somos, mais uma vez, completamente desviados da narrativa central focada em Shadow e Wednesday. A história que o episódio tem pra nos contar é interessante; fala sobre crenças, como as necessidades transformam pessoas e tem algo importante a dizer sobre imigração, pra não perder seu caráter político. O que incomoda um pouco aqui: precisávamos de mais um desvio tão perto do final da temporada?

Sim, Deuses Americanos gosta de brincar com a estrutura de uma história e jogar uma bola curva na audiência. O episódio “Git Gone” é um exemplo disso, desprovido dos contos de abertura, nos mostra a vida de Laura Moon. O episódio foi bom por explorar algo que parecia intrínseco a narrativa, uma peça elusiva de quebra-cabeça sendo montada. Quem é Laura Moon? Bom, é essa moça aí. A Prayer for Mad Sweeney oferece algumas informações valiosas para com a trama principal, mas ainda assim não dá pra sacudir a sensação de que o episódio não precisava estar ali, podia ter seu pontos principais resumidos ou ser melhor explorado de alguma outra maneira.

A subversão narrativa do episódio é simples: o enfoque é na história que normalmente nos toma alguns minutos em outros episódios, com a trama principal em segundo plano.

Começamos com o Deus egípcio Thoth tendo uma história pra contar (reforçando a temática). Se trata da história de como o leprechaun Mad Sweeney chegou na América graças a crença inabalável da doce e resiliente Essie McGowan (Emily Browning), uma amante de histórias que toma prazer em disseminá-las tanto quanto em acreditar nelas. O fato de Browning interpretar a personagem do conto e a esposa morta da trama central funciona na hora de capturar a atenção do espectador. A qualidade técnica aqui é excepcional; em termos de ambientação pouco deixa a desejar, provando que Deuses Americanos merece a atenção dos Emmys. A história é bonita, contém um final agridoce e acabamos simpatizando um pouco mais com Mad Sweeney, ainda que ele encarne o clássico “carrancudo com coração de ouro.” Nos despedimos de Salim e temos algum discernimento sobre a vindoura guerra prometida por Wednesday.

Sobre o destino de Shadow e Wednesday, fica a expectativa para o próximo episódio. “A Prayer for Mad Sweeney” não mancha a reputação de Deuses Americanos, não rebaixa a série nem nada do tipo, mas não deixa de parecer uma história fora de lugar.

O sétimo episódio de Deuses Americanos está disponível para stream pela Amazon Prime.

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sobre o autor Lucas Rafael

Entusiasta de coisas demais