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Reboot ou reformulação editorial – Quais as vantagens de cada um?

Por Gus Fiaux

Para começar, vale relembrar o significado de cada um desses termos. Um reboot ocorre quando uma editora resolve reiniciar seu universo do zero (a própria palavra, em tradução literal, significa reiniciar). Isso pode ter uma causa narrativa específica – citando exemplos de fora, a nova série de filmes de Star Trek, por exemplo, em que tivemos um reboot por conta de ações de personagens da franquia original e o uso de viagens no tempo – ou então, sem motivo algum – no caso, a franquia Espetacular Homem-Aranha. 

Além disso, temos as reformulações editoriais, algo que vem sendo usado muito pela Marvel Comics nos últimos anos. Tratam-se de novas fases de publicação em que, normalmente, zeram-se os números das revistas, e a história continua do ponto de onde parou anteriormente, sem a necessidade de reiniciar do zero.

Tanto um reboot quanto uma reformulação editorial servem para atrair novas gerações de fãs. A partir deles, dá-se uma aliviada na cronologia histórica dos eventos para que os novos leitores possam entender as novas histórias sem precisar ter tido nenhum contato com as fases anteriores de cada editora.

Lembramos que o objetivo da matéria não é discutir sobre quem é melhor entre Marvel e DC. Isso é algo que parte do gosto pessoal do leitor e repudiamos qualquer tipo de briga que venha a ser iniciada com essa temática. Iremos apenas analisar as vantagens de cada uma das estratégias das editoras para manter seus universos ativos e populares.

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Sobre reboot:

Um novo universo

Com um reboot, a ideia do "novo" pode ser explorada em potência total. Convivemos agora em um novo universo, que não precisa dever nada aos antigos, e nem sequer estabelecer conexões. A ideia é reiniciar tudo e construir uma narrativa especial focada nos novos fãs.

Contudo, surge um problema: Apesar do novo universo ser focado inteiramente em novos fãs, muitos fãs antigos não deixarão de ler as revistas, e por conta disso, a empresa precisa encontrar uma forma de agradar gregos e troianos, conquistando novos leitores ao mesmo tempo que não perde os antigos. Então o que surge como algo que trará mudanças e originalidade acaba se tornando preso pelas amarras da necessidade de trazer semelhanças com o universo anterior.

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Novas abordagens para personagens consagrados

Quem imaginou um Superman com problemas para se encontrar no heroísmo? Ou então um Aquaman que é qualquer coisa menos motivo de piadinhas? Ou uma Mulher Maravilha que agora realmente deixa de ser um mito para se tornar filha de divindades? A ideia de um reboot permite uma troca profunda de ideias e abordagens diferentes entre os personagens.

É a chance perfeita para reformular alguns conceitos básicos dos personagens, como forma de manipular o gosto dos leitores usando mantos de heróis e vilões clássicos, sem a necessidade de criar algo novo que possa ser completamente diferente. Porém, como mencionado no item anterior, os fãs, geralmente antigos, impõem barreiras sobre os limites dessa abordagem.

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Desprendimento de uma cronologia

Cronologia é algo que entra facilmente em uma classificação "ame ou odeie". Em um reboot, somos apresentados a um completo ou parcial - como normalmente é o caso da DC Comics - desprendimento dos eventos acontecidos posteriormente ao reboot. Isso faz com que a editora possa recontar histórias de novas maneiras, ou então criar uma nova cronologia que não precise se ater aos fatos acontecidos anteriormente.

Ao mesmo tempo, isso pode acabar, para alguns leitores, parecendo como descaso. São anos investidos na leitura acompanhando uma específica cronologia, e um reboot normalmente "apaga" isso na memória dos fãs antigos, ainda que o material continue disponível para leitura a qualquer momento.

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Elemento surpresa

Quando se anuncia um reboot, não sabemos bem ao certo o que esperar. E isso é uma coisa que a editora pode utilizar bem para gerar bons momentos e fases memoráveis. É a conhecida manipulação de expectativas e uso do elemento surpresa.

Em um reboot, não esperamos nada de personagens clássicos. Então, quando as revistas são consideradas de alta qualidade (caso da Mulher Maravilha e do Batman dos Novos 52, por exemplo), temos uma ideia geral de que o reboot valeu a pena, não importa quantas mudanças tenham sido implantadas nos personagens. O problema é que sempre há algumas coisas podres que afetam a aparência do todo.

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Mudanças justificadas

Os fãs podem argumentar, chiar, reclamar, profanar e xingar, mas quando um reboot vem, não há motivos que digam que alguma alteração é "forçada" ou "sem motivo". Seja na sexualidade de Alan Scott, na etnia de Wally West, no visual do Coringa, ou na história por detrás de Tim Drake, as mudanças sempre serão aceitáveis, por se tratar de um novo universo que não precisa ter contato com o universo anterior.

Contudo, novamente, por serem nomes que carregam um legado anterior, e pela editora necessitar do público antigo, nunca veremos uma mudança realmente completa, que desafie nossos conhecimentos sobre tais personagens a ponto de nos fazer realmente não reconhecer o personagem, seja herói, vilão ou coadjuvante.

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Sobre reformulações editoriais:

Sensação de nova fase

Novas fases surgem para dar ao público a oportunidade de se relacionar com uma editora, e gerar um intercâmbio entre novas e antigas gerações de leitores. Diferente dos reboots, a prioridade é manter a fidelidade dos fãs antigos, ao mesmo tempo que novos leitores possam ser agraciados com boas histórias.

Aqui, a situação se inverte, e o maior empecilho fica por conta da nova geração, que chega perdida em novos títulos, consequentemente provocando uma espécie de "facilitamento" das histórias, com origens recontadas para que eles possam ter ideia do que está sendo narrado. Contudo, isso gasta tempo e pode acabar sendo um tanto maçante demais para os leitores clássicos.

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Respeito a eventos e momentos anteriores

Com exceção dos casos em que um reboot parte de uma causa específica (como é o caso dos Novos 52, que deriva diretamente da série Ponto de Ignição, ainda que as histórias pós-reboot não dependam dela), é quase nula a probabilidade de eventos clássicos serem mantidos, respeitados e referenciados ao longo dos anos. Isso, em uma reformulação editorial, não é problema.

As séries constantemente fazem referências a títulos anteriores e a coisas que aconteceram no passado, o que é ótimo para quem gosta de se ater a uma cronologia. Porém, para os novos leitores, se torna uma experiência confusa e, em alguns casos, desagradável. Basta relembrar dos Fabulosos Vingadores da Nova Marvel, que descende diretamente da saga Vingadores vs X-Men.

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Diferenciações intensificadas

Alterar algo pré-estabelecido em um universo novo já se provou uma tarefa complicada, pela forma com a qual o público reage às mudanças. Fazer isso no mesmo universo, então, acaba se tornando algo ainda pior e mais intensificado, o que acaba gerando, a princípio, boicotes de fãs antigos. Basta relembrar o Superior Homem-Aranha, a nova Thor e o novo Hulk, por exemplo.

Contudo, quando bem executados (algo que, a princípio aconteceu nas três listadas acima), os fãs mais xiitas ficam quietos e aplaudem. Ideias novas vêm para dar suporte a modos diferentes de contar histórias que nunca se repetem em personagens que sempre vão existir. O problema é aceitar as mudanças, e isso é algo que todo fã clássico tem problema de fazer.

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Chance de mudar pouco, mas ser bem elogiado por isso

Às vezes, a questão não está na mudança, e sim no veículo que a carrega. Se o veículo é interessante o suficiente, a mudança acaba se tornando algo apenas complementar. Nos quadrinhos, isso significa dizer que um quadrinho elogiado, mesmo que sem nenhuma reviravolta incrível, pode significar mais que algumas mudanças desconexas.

Dessa forma, se mantém a linha narrativa clássica de um personagem, criando novas formas de desenvolver uma história complexa e diferente por trás dos artifícios pré-estabelecidos. A única questão é que, uma hora, as ideias se esgotam, e por isso precisamos de mudanças. Porém, é melhor quando elas são feitas por livre expressão, e não por necessidade de algo novo.

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Legado

Dentro da ideia das reformulações editoriais, mantém-se a ideia de uma história envolvente carregada por personagens clássicos. Porém, ao trazer uma nova fase, podemos inserir novos personagens que sejam inspirados e carreguem o manto de heróis antigos. Isso é o mais genial dentro de qualquer editora, tanto a Marvel, com seus Jovens Vingadores e sua Kamala Khan, quanto a DC, com seus Jovens Titãs, Robins e Kid Flashes.

É difícil encontrar um ponto negativo nisso, pois esses novos personagens unem o útil ao agradável, fornecendo novas histórias ao mesmo tempo em que provocam mudanças drásticas e mantêm o título de um personagem clássico. Se, no universo dos quadrinhos, todos os heróis envelhecessem e passassem os mantos para outros personagens, a indústria estava salva, e reboots e reformulações seriam algo adicional, senão desnecessário.

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Em suma, é impossível dizer o que é melhor. Varia do gosto de cada fã. Enquanto reboots valorizam os fãs novos e reformulações, os fãs antigos, vale lembrar que para cada regra há exceções. E você, prefere reboots ou fases reformuladas? Deixe nos comentários!

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux