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[CRÍTICA] O Primeiro Homem – Um grande salto para a humanidade!

Por Gus Fiaux

A temporada de Oscar está começando! E as primeiras apostas já estão chegando ao Brasil, a começar por O Primeiro Homem, que chega às salas de cinema no dia 18 de outubro. Nós já conferimos a tão aguardada cinebiografia de Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar na Lua, e aqui você pode conferir nossa crítica do novo longa de Damien Chazelle.

Créditos: Universal Pictures

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Ficha Técnica

Título: O Primeiro Homem (First Man)

Ano: 2018

Data de lançamento: 18 de outubro (Brasil)

Direção: Damien Chazelle

Classificação: Ainda não divulgada

Duração: 141 minutos

Sinopse: Um vislumbre na vida do astronauta Neil Armstrong, bem como a lendária missão espacial que fez com que ele se tornasse o primeiro homem a pisar na Lua, em 20 de julho de 1969.

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O Primeiro Homem - Um grande passo para a humanidade!

Após realizar filmes como Whiplash: Em Busca da Perfeição e La La Land: Cantando Estações, a carreira de Damien Chazelle se tornou um grande alvo de curiosidade dentro de Hollywood. O jovem diretor se provou, mais de uma vez, digno de trazer histórias fantásticas com uma forte carga narrativa e estética. Mas o que acontece quando sua obra toca a vida real?

Em O Primeiro Homem, seu mais novo filme, acompanhamos um "trecho" da vida de Neil Armstrong, que viria a ser conhecido como o primeiro homem a pisar na lua. O longa, que abarca toda a década de 60 do ponto de vista do astronauta, é pontuado pela delicadeza de Chazelle ao abraçar aspectos da vida profissional, pessoal e emocional de Armstrong.

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Antes de mais nada, é importante aplaudir o trabalho de atuação de Ryan Gosling. Saído de papéis cada vez mais celebrados, o ator se vende de corpo e alma na hora de interpretar o personagem. E o resultado final é uma complexa nuance que balanceia todas as camadas de Armstrong: o luto de um pai, a dedicação de um explorador e até mesmo o vício de um workaholic.

Muito além de Gosling, o próprio roteiro do filme faz um ótimo trabalho. Por mais que toda a história seja contada da perspectiva do astronauta, em momento algum o longa tenta glorificá-lo cegamente. Em vez disso, acompanhamos as maiores qualidades de Neil, mas também alguns de seus defeitos, como o inevitável distanciamento com sua família.

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Família aliás que representa uma das bases fundamentais da história. Logo de início, podemos perceber como uma tragédia em seu lar acaba afetando toda sua jornada, do início ao fim. A figura mais importante na trama, depois de Neil, é sua esposa, Janet Armstrong, que transita como um apoio para o astronauta e uma personagem muito complexa em seu silêncio.

A relação dos dois só é possível pela forte química entre Ryan Gosling e Claire Foy, recém-saída da premiada série The Crown. Juntos, o casal demonstra uma cumplicidade muito grande, que é constantemente abalada pelas crises pessoais de Neil, enquanto Jan tenta ao máximo manter a família sob o mesmo teto, unida e próspera.

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Aliás, em termos de coadjuvantes, o filme está muito bem servido. Claro que todo o destaque vai para Foy, que consegue passar os sentimentos de sua personagem a cada olhar ou cigarro aceso. Além dela, temos nomes como Jason Clarke, Shea Whigham, Ciarán Hinds, Pablo Schreiber, Kyle Chandler e Patrick Fugit, todos em papéis econômicos, mas importantes.

A interação entre Neil e seus colegas astronautas - bem como as famílias deles - é um dos pontos que mais movimenta a trama. Sabemos que os testes passaram por várias falhas antes do inevitável sucesso, e aqui é interessante ver Armstrong tendo a tragédia como principal motivadora para uma missão quase suicida.

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Ainda falando no elenco, vale mencionar Corey Stoll, que interpreta o astronauta Buzz Aldrin, que foi um dos colegas de Neil na missão lunar. Apesar de aparecer por pouco tempo, o astro consegue roubar as cenas, com uma performance satírica, cômica e até mesmo um pouco fora de sincronia com o resto dos personagens - no melhor sentido.

Claro que um elenco assim não poderia conduzir-se sozinho sem a presença de um grande diretor. E Damien Chazelle está aqui exatamente para isso, embora não esteja dirigindo complexas sequências de bateria ou um grande flashmob em Los Angeles. Ainda assim, o diretor traz um pouco de sua obra anterior para o longa, seja na edição marcante ou na sutileza da trilha sonora.

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Chazelle faz um filme esteticamente diferente de tudo que já fez. A começar, a estética "antiga", com uma película altamente granulada, mostra o cuidado que ele tem ao retratar a realidade. Curiosamente, ele decide usar o recurso da câmera na mão, quase que durante todo o filme - o que é desconfortável em cenas mais "paradas", mas que se prova muito útil nas sequências de testes.

Do modo que é concebido, o filme te coloca dentro de um foguete toda vez que Neil está em um. O sentimento de claustrofobia, medo e até mesmo curiosidade estão sempre presentes, seja nos focos aproximados no rosto do astronauta ou na imensidão que espera por trás de uma espessa camada de vidro.

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A sequência do pouso na lua, por sua vez, é uma das obras mais belas já vistas em cinebiografias. Quase temos como sentir a baixa gravidade e a sensação de um grande vazio ao nosso redor. Chazelle também sabe como não soar ridículo, economizando nos chavões e deixando de lado o patriotismo exacerbado - embora a bandeira norte-americana ainda esteja cravada para quem quiser ver.

Tudo isso é perpassado por uma trilha sonora esplendorosa, que sabe brincar com a melancolia, o sentimento de grandeza e, às vezes, até um sentido mais lúdico. Os efeitos sonoros também são excepcionais, compondo uma atmosfera extremamente imersiva. É altamente recomendado que você assista a esse filme em IMAX, para que possa viver a experiência completa.

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Ainda assim, há alguns polimentos que poderiam ser feitos, mas nada que afete de forma muito grande a apreciação da obra. A duração parece se estender um pouco mais do que o necessário, principalmente porque Neil revive muitas vezes a mesma situação: a notícia de que um amigo morreu em algum teste, e o período de luto.

Outro pequeno deslize está na caracterização pessoal dos personagens. Por mais que o filme se passe ao longo de uma década inteira, não sentimos esse tempo passar na pele dos atores. É quase como se tudo fosse na mesma semana, apesar dos indicativos de cada ano. Uma leve variação nos penteados e cortes de cabelo poderia ter resolvido essa questão.

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Ainda assim, O Primeiro Homem é uma obra que faz jus à proporção colossal de sua história real. É uma biografia delicada, que não se esforça para construir heróis perfeitos, mas sim seres humanos complexos. Dessa forma, Ryan Gosling realmente incorpora a pele de Neil Armstrong, criando uma figura palpável, e não uma idealização inalcançável.

Com um elenco excepcional - e mais uma vez, destaque para Claire Foy nesse quesito -, uma trilha sonora marcante e um senso estético único, o novíssimo longa de Damien Chazelle é mais uma grande obra do jovem diretor, que até agora não nos decepcionou. E, é claro, pode ser um pequeno passo para o homem. Mas é um grande salto para a humanidade.

NOTA: 4,5/5

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux