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[CRÍTICA] Millennium: A Garota na Teia de Aranha – Um novo filme de James Bond?

Por Gus Fiaux

Chegando aos cinemas nesta quinta-feira, os fãs vão poder testemunhar mais um capítulo da saga Millennium. O filme traz agora uma nova versão de Lisbeth Salander, interpretada por Claire Foy, e ao adaptar o quarto livro da série, mostra que está mais preocupado em criar um blockbuster de ação do que tecer uma trama investigativa!

Créditos: Sony

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Ficha Técnica

Título: Millennium: A Garota na Teia de Aranha (The Girl in the Spider's Web)

Ano: 2018

Data de lançamento: 8 de novembro

Direção: Fede Álvarez

Classificação: 16 anos

Duração: 117 minutos

Sinopse: A jovem hacker Lisbeth Salander e o jornalista Mikael Blomkvist se encontram imersos em uma teia de espiões, cybercriminosos e agentes corruptos do governo.

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Lisbeth Salander está de volta. Sete anos após David Fincher lançar o incrível Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres em 2011 - precedido pelos filmes suecos estrelados por Noomi Rapace -, nós temos agora uma nova versão da série, que teoricamente serve de continuação para o longa Hollywoodiano.

"Teoricamente" porque o elenco está completamente diferente, e Fincher se tornou produtor, deixando a direção a encargo de Fede Álvarez - que no passado, nos proporcionou os arrepiantes A Morte do Demônio e O Homem nas Trevas. E o resultado parece uma versão um tanto quanto genérica de um filme da franquia 007.

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O longa resolve mergulhar no passado de Lisbeth Salander. Aqui, vemos ela enfrentando uma ameaça muito grande que teve a ver com sua infância. No entanto, no meio disso, temos uma grande onda de espionagem, uma arma secreta super-poderosa sendo roubada por criminosos e até mesmo vilões completamente afetados.

A decisão de adaptar o quarto livro da série Millennium - o primeiro que é escrito por David Lagercrantz, e não por Stieg Larsson - pode ter contribuído para isso. No entanto, é curioso que a publicação tenha sido elogiada justamente pela humanização e pelo aprofundamento dos personagens - algo que não acontece aqui.

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Assumindo um legado pesado vindo de Noomi Rapace e Rooney Mara, a ganhadora do Emmy Claire Foy visivelmente se esforça em um papel que não passa de uma caricatura de Lisbeth Salander. Na hora de construir a personagem, parece que havia uma listinha bem básica a ser preenchida: ela é foda, ela é estranha e ela é muito inteligente.

Como resultado, temos uma personagem que parece acertar tudo na base das coincidências. Em nenhum momento, vemos a personagem tendo um verdadeiro pensamento lógico nas suas missões. Parece que, o tempo todo, Lisbeth aposta que o universo a ajude a concluir seus planos - e isso acaba tirando muito da humanidade e da inteligência da hacker.

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Pior ainda está Sverrir Gudnason no papel do jornalista Mikael Blomkvist. Além de não ter a imponência de Daniel Craig, ele também é um personagem supérfluo na trama, que está ali puramente porque é um personagem importante nos livros. Dessa forma, é seguro dizer que A Garota na Teia de Aranha não é uma continuação e nem um reboot de Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Ele apenas é independente.

E essa independência começa a pesar quando pensamos na vilã Camilla Salander, interpretada por Sylvia Hoeks. Ela tem muito a ver com o passado de Lisbeth, mas é vítima de diálogos muito afetados e um falsa mistério que só serve de fachada para a ausência de motivações.

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Isso tem tudo a ver com o fato de que, apesar de tentar estabelecer Lisbeth como uma personagem amplamente conhecida, o filme se esquece que está nos apresentando uma nova versão da personagem - uma com a qual nós ainda não nos identificamos. Dessa forma, é difícil até sentir algum peso por dramas familiares, quando se trata de uma pessoa em branco.

É inclusive por esse mesmo motivo que muitas franquias só optam por inserir tramas familiares a partir da segunda continuação: você já teria criado a base com esses personagens, e já saberia como desenvolvê-los melhor, para poder revelar segredos de seu passado. A melhor opção seria adaptar os dois livros restantes de Larsson, antes de entrar nessa "nova fase".

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Em termos de direção, ao menos Fede Álvarez é extremamente competente. O diretor consegue estabelecer planos muito inquietantes, graças a um domínio assustador dos movimentos de câmera. O tempo todo, é como se os personagens estivessem sendo vigiados, e nós sentimos isso. No entanto, nota-se que Álvarez tenta emular David Fincher algumas vezes.

Outras decisões já são menos acertadas. A direção de arte do filme tenta ser glamourosa e grandiloquente, mas acaba soando ridícula devido aos excessos e às decisões nada práticas - especialmente para a vilã de Sylvia Hoeks, que só aparece com roupas vermelhas gritantes - quase uma vilã clássica de James Bond.

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Aliás, se pudéssemos resumir A Garota na Teia de Aranha, seria basicamente com isso: é um filme do James Bond sem o James Bond. O longa usa toda a estética e a vibe neo-noir dos longas de Daniel Craig, ao mesmo tempo em que deixa de lado boa parte do suspense investigativo para focar na ação.

Inclusive, conseguimos sentir uma mudança brusca do primeiro para o segundo ato do filme. Se o início é espetacular, com cenas muito bem planejadas e um senso de suspense crescente, o restante parte direto para a porradaria, sem se importar com as consequências da ação. E no meio, temos direito a um vilão muito caricato que envenena suas vítimas com veneno de aranhas.

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É uma pena, porque a estética do filme - em sua maioria - é muito boa, rivalizando até mesmo com a de Os Homens que Não Amavam as Mulheres. No entanto, é esse apelo genérico que torna o filme um entre um milhão de longas de espionagem. Nunca há um sentimento real de que o filme está fazendo algo novo.

Além disso, precisamos lembrar que o longa desperdiça dois talentos gigantescos: Stephen Merchant - o Caliban de Logan, que serve apenas para movimentar uma parcela da trama - e Lakeith Stanfield - de Corra!, que acaba migrando de um personagem razoavelmente interessante a um grande deus ex machina do roteiro.

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De forma geral, Millennium: A Garota na Teia de Aranha não chega a ser um filme totalmente ruim. A direção é boa e Claire Foy até se esforça bastante para entregar uma nova faceta da detetive e hacker. No entanto, o filme acaba soando genérico e mal-aproveitado, por várias decisões que ferem sua história.

Fosse lançado como o terceiro capítulo de uma trilogia estrelada por Foy, seria até um filme interessante, por explorar melhor o passado de Lisbeth Salander. No entanto, como longa introdutório dessa nova versão da hacker, o filme confirma o que já suspeitávamos desde seu anúncio: talvez não haja mais lugar para a saga Millennium em Hollywood.

NOTA: 2/5

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux