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[CRÍTICA] Green Book: O Guia – A jornada das boas intenções!

Por Gus Fiaux

Chegando aos cinemas nesta semana, Green Book: O Guia é uma das grandes apostas do Oscar 2019, tendo já arrecadado alguns prêmios como o do Sindicato dos Produtores. Com brilhantes atuações de Mahershala Ali Viggo Mortensen, o filme está tendo uma recepção um tanto quanto polarizada por parte do público. E aqui está nossa crítica!

Créditos: Diamond Films

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Ficha Técnica

Título: Green Book: O Guia (Green Book)

Ano: 2018

Data de lançamento: 24 de janeiro de janeiro (Brasil)

Direção: Peter Farrelly

Duração: 130 minutos

Sinopse: Um trabalhador ítalo-americano é chamado para se tornar o motorista de um pianista clássico afro-americano, em uma viagem pelo sul dos Estados Unidos na década de 60.

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Green Book: O Guia - A jornada das boas intenções!

Embora seja um nome relativamente obscuro na contemporaneidade, Don Shirley foi um dos melhores pianistas que já viveu, esbanjando uma elegância em sua música clássica. Em Green Book: O Guia, vemos sua turnê pelo sul dos Estados Unidos.

No entanto, ele não está sozinho. Em sua viagem, ele é acompanhado pelo inusitado Tony Villalonga, um ítalo-americano que precisa superar seu próprio preconceito para proteger Shirley em um solo que o despreza e o odeia. Temos aí nossa jornada.

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Green Book: O Guia é um filme que está causando uma certa repercussão polarizada - e isso tem a ver com polêmicas envolvendo a equipe de produção, algo que não vem ao caso no momento. Ainda assim, boa parcela do público - sobretudo negro - não está gostando da obra.

Por conta disso, faz-se necessário separar o filme e sua execução da mensagem que ele quer passar. Afinal de contas, dependendo da importância que você dá à questão social, isso pode ter pesos e medidas diferentes na hora de enxergar a trama.

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Como longa, Green Book é uma peça ótima. O grande mérito obviamente está nas interpretações de Mahershala Ali e Viggo Mortensen, que vivem, respectivamente, Shirley e Villalonga. Juntos, eles possuem uma dinâmica sensacional e momentos realmente emocionantes.

Não apenas isso, a direção de Peter Farrelly consegue integrá-los em uma relação que, a princípio, deriva de uma necessidade profissional e aos poucos vai se transformando em amizade. E como todo bom filme de road trip, o que importa aqui é a viagem.

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Além disso, a fotografia é outro destaque. Nas mãos de Sean Porter, a câmera desliza pela ação quase como as notas de um piano, suavemente e quase imperceptível. A predominância de cores azuis e verdes também passa um clima ameno, mesmo que a história tenha contornos sombrios.

Por outro lado, alguns elementos são um tanto prejudiciais. Os personagens coadjuvantes, como os membros da banda de Shirley e a esposa de Villalonga, são, em sua maioria, pouco aproveitados, tendo um papel cíclico e repetitivo na trama.

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O mesmo vale para a montagem do longa. Embora tenha sido indicado ao Oscar, o trabalho de edição parece redundante e não desapega de momentos que não são tão importantes. Como resultado, temos uma sequência de vários finais.

Isso prejudica também o ritmo. Embora seja um filme relativamente mediano em sua duração, Green Book seria beneficiado com uns quinze a vinte minutos a menos, que adicionariam intensidade e fluidez à jornada de Shirley e Villalonga.

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Agora, no que diz respeito às questões sociais, o longa pisa em uma ambiguidade perigosa. Muitos espectadores negros acusam o filme de ser "higienizado" e "feito apenas para uma audiência caucasiana". E, como homem branco, não é meu papel dizer se isso é ou não verdade.

Mas a verdade é que Green Book, em determinados momentos, parece menosprezar o drama de Don Shirley ao transformá-lo em uma comédia aos olhos de Tony Villalonga. O protagonista, vivido por Mortensen, por vezes parece ser o ponto focal até quando a trama não é dele.

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E embora a jornada desses dois amigos devesse ser o fio condutor, fazendo com que um aprendesse a se por no lugar do outro, muitas vezes parece que estamos vendo um homem branco ensinando um homem negro a ser negro e um homem negro ensinando um homem branco a ser branco.

Isso acaba gerando um caminho perigoso. Por mais que o filme seja inteiramente bem-intencionado, a impressão que passa é que Shirley precisava se render a uma série de estereótipos e noções pré-concebidas sobre a negritude para crescer como personagem.

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Ainda assim, essa é uma noção subjetiva que vai pegar cada um de forma diferente. O importante, no entanto, é que estejamos com olhos e ouvidos abertos para ver e ouvir o que pessoas que realmente sofrem com racismo sentem a respeito do longa, em vez de impormos opiniões sem vivência.

No geral, Green Book ao menos consegue impressionar pelas atuações e por um bom trabalho visual, ainda que razoavelmente prejudicado por sua montagem. É só uma pena que a obra em si esteja sendo deixada de fora da discussão para dar espaço às polêmicas envolvendo seus criadores.

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No fim, Green Book: O Guia é um filme difícil de ser analisado. Como obra única, excluindo todo seu significado e mensagem, é um filme bom, que cumpre bem suas expectativas apesar de uma resolução um pouco enrolada e personagens coadjuvantes rasos.

Contudo, quando pensamos no que o filme quer dizer, a mensagem se torna ambígua e, em certos momentos perigosa. Num ano com filmes sobre racismo e igualdade, como Infiltrado na Klan e Ponto Cego, parece que Green Book se contenta em falar apenas para o público branco.

NOTA: 3,5/5

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Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Demon to some... angel to others (ele/dele) || @gus_fiaux