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Vereadores do Rio de Janeiro usam HQ da Marvel para vetar Dia da Visibilidade Lésbica em votação

Por Melissa de Viveiros

Durante a Bienal do Livro de 2019 a HQ Vingadores: A Cruzada das Crianças se tornou alvo de censura quando a prefeitura do Rio de Janeiro determinou que a obra fosse recolhida por apresentar um beijo entre um casal homossexual. Posteriormente, a decisão foi proibida pelo Tribunal de Justiça do estado, além de ser alvo de críticas por parte do ilustrador do quadrinho, Jim Cheung. Agora, a obra voltou a ser citada de forma negativa durante a votação do Projeto de Lei que estabeleceria o Dia da Visibilidade Lésbica como data comemorativa (via Jamesons).

A votação em que o quadrinho foi citado discutia o Projeto de Lei Nº8 de 2021, que visa incluir o Dia da Visibilidade Lésbica no calendário oficial da cidade. A responsável pelo projeto é Monica Benicio (PSOL), viúva da ex-vereadora Marielle Franco, que foi vítima de um assassinato no dia 14 de março de 2018. De acordo com ela, a proposta é uma homenagem ao Projeto de Lei Nº 82 de 2017, que foi proposto pela própria Marielle e tinha como proposta estabelecer o “Dia Municipal da Visibilidade Lésbica, a ser realizado no dia 29 de agosto”.

É importante notar que o Projeto de Lei estabeleceria uma data comemorativa, e não um feriado. Assim, o objetivo da adição ao calendário seria de acrescentar uma data oficial que pudesse ser utilizada para promover debates e conscientização sobre a comunidade lésbica. Isso ocorre com diversas outras datas comemorativas, como é o caso por exemplo do Dia do Índio.

Durante a discussão sobre o tema, o vereador Felipe Michel (Progressistas) foi o responsável por citar a HQ da Marvel, dizendo:

“O prefeito anunciou que na Bienal do ano que vem não terá censura e elogiou Felipe Neto, um livro do Felipe Neto. Que ano que vem não vai ter censura. Que no ano que vem, o livro que foi barrado no ano passado estará liberado na próxima Bienal.

 

Então, vocês que são pais como eu, temos de ter cuidado quando a gente liberar para ir na Bienal. Que livro que o nosso filho vai ter acesso? Eu não quero que o meu filho tenha acesso. Eu não quero que um professor coloque na cabeça do meu filho ou da minha filha o Dia das Lésbicas, o Dia do Gay, o Dia do Queer … eu não quero. É um direito que eu tenho de ter.”

Exibindo uma cópia do encadernado da HQ em questão, o vereador mostrou o beijo de Wiccano e Hulkling, dizendo que a obra apresenta “um beijo e falas que… não é para criança e para jovem.” Em seguida, o político passou a gritar que é contra as crianças terem contato com uma obra que apresenta um beijo entre dois homens.

O vereador Felipe Michel exibindo o beijo de Wiccano e Hulkling durante seu posicionamento homofóbico.

Michel recebeu apoio do vereador Alexandre Isquierdo (Democratas), segundo o qual Cruzada das Crianças seria um livro voltado para o público infantil simplesmente por conter a palavra “crianças” no nome. A constatação do político, no entanto, é incorreta, já que a obra é voltada para o público infanto-juvenil, tendo classificação indicativa para 13 anos ou mais nos Estados Unidos. No Brasil, a obra não conta com aviso de classificação, já que apenas obras indicadas para o público acima de 16 ou 18 anos contam com esse tipo de aviso.

Publicada originalmente em 2011, Vingadores: A Cruzada das Crianças ocorre após Vingadores: A Queda e Dinastia M, dando sequência à trama apresentada nessas HQs. Ao todo, a obra possui mais de duzentas páginas, entre as quais um único quadro com um beijo que não mostra nada impróprio é considerado motivo para censura. A cena protagonizada por Wiccano Hulkling não tem teor diferente de diversos beijos apresentados em obras que são de fato voltadas para o público infantil, como os filmes de princesa da Disney, por exemplo. Isso se torna ainda mais notável considerando-se que o argumento do vereador não tenha sido contra qualquer beijo, e sim contra um beijo entre dois homens, destacando o caráter preconceituoso do argumento.

Finalizando a discussão, o vereador Tarcísio Motta (PSOL), se posicionou contra as críticas à obra da Marvel, dizendo:

“É muito curioso voltar o debate da Bienal, onde a gente mais uma vez acha que um gibi onde dois super-heróis se beijam é um problema. Na verdade, aqui mais uma vez, quando a gente acha que um determinado beijo é correto e os outros são ‘uó’ e aí equivale um gesto de amor, um beijo, a um gesto de pornografia, então de fato o problema não está no gibi, mas na nossa cabeça.”

A votação foi concluída com 22 votos contrários ao Projeto de Lei e 19 favoráveis. Além disso, ao menos 9 vereadores não votaram. Como resultado, o Projeto de Lei foi rejeitado, mas retornará à pauta da Câmara Municipal para votação em segundo turno, que ocorrerá na próxima quinta-feira (30).

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sobre o autor Melissa de Viveiros

Graduanda em Letras na UFMG. || What is infinite? The universe and the greed of men. || @windrunning_