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Review: The Great Ace Attorney Chronicles transforma tribunais no show de Herlock Sholmes

Por Gabriel Mattos

The Great Ace Attorney Chronicles é uma coletânea de visual novels produzida pela Capcom, reunindo dois jogos ainda inéditos no ocidente: The Great Ace Attorney Adventures e The Great Ace Attorney 2: Resolve. Originalmente lançados para Nintendo 3DS, os títulos ganham uma nova vida com a alta definição do PlayStation 4, mas o formato sofre para resistir às restrições de um console de mesa.

A Legião recebeu uma cópia diretamente da Capcom Brasil para te contar o que achamos dessa enrolada viagem no tempo.

FICHA TÉCNICA

Título: The Great Ace Attorney Chronicles

Lançamento: 27 de Julho de 2021

Desenvolvedora: Capcom

Gênero: Visual Novel, Adventure

Plataformas: PlayStation 4, Nintendo Switch e Microsoft Windows

Modos: Single player (Duas campanhas)

Samurai dos tribunais

Ryunosuke é a alma do jogo

Velha conhecida dos jogadores casuais dos consoles Nintendo, a franquia Ace Attorney traz uma proposta simples, mas interessante: investigar crimes para defender seus clientes no tribunal como um advogado de defesa divertido e atrapalhado. Mas dessa vez, voltamos no tempo para uma época em que o conceito de advogado ainda estava começando a surgir — a Londres Vitoriana.

No papel do universitário japonês Ryunosuke Naruhodo, o jogador é convidado a explorar as entranhas do jovem sistema judicial do Japão Imperial e sua relação desarmônica com a metrópole britânica.

Como os demais protagonistas da franquia, Ryunosuke é enrolado e carismático, abusando de sua inexperiência para se conectar com o público. Durante o julgamento, ele consegue transmitir sua personalidade em cada pequeno detalhe: desde seu olhar perdido a seus gestos exagerados. A qualidade das animações do jogo superam tudo que a franquia já apresentou, injetando uma dose necessária de vida em um elenco com dificuldades para conquistar.

Sherlock às avessas

Herlock Sholmes é exagerado, o que não vai agradar a todos

Esse talvez seja o maior problema da narrativa: os personagens mirabolantes, que costumam ser o grande forte da franquia, sofrem muito para emplacar piadas e mostrar seu verdadeiro potencial. Enquanto a mudança de ares foi ótima para as mecânicas, o formalismo japonês e o lado esnobe dos britânicos dificultam uma empatia com a maioria dos personagens. Poucos fogem dessa armadilha, basicamente apenas os que não dependem tanto de estereótipos para se definir.

O grande destaque entre os novatos fica sem dúvida para Herlock Sholmes, uma paródia extravagante do maior detetive de todos os tempos. Sholmes vive no seu próprio mundinho de fantasias e mesmo que isso possa irritar no início, vai conquistando aos poucos. Muito por conta do divertido sistema de dedução.

O Sherlock Holmes original é conhecido por seus monólogos em que ele desvenda casos apenas com seu poder de observação e dedução, porém eficiência nunca funcionaria no universo de Ace Attorney. Sabendo disso, os produtores tiveram a brilhante sacada de brincar com esta figura prepotente do detetive ridicularizando completamente suas teorias.

Deduções são a parte mais divertida das novidades

Sholmes nunca acerta um palpite, o que dá margem para Naruhodo corrigi-lo ao encontrar evidências contundentes em cenas livres para a exploração. Foi uma maneira brilhante de desenvolver a relação da dupla de forma orgânica, envolvendo diretamente o jogador com puzzles simples e trazendo um ritmo muito necessário aos segmentos de investigação.

Tropeços e acertos

Ritmo este que a narrativa sofre para aproveitar. A grande maioria dos casos parece se estender muito mais do que o necessário, perdendo boa parte do impacto ao longo de sua duração. Isso fica bastante evidente logo no tutorial, que costuma ser simples e conciso, mas desta vez acaba se perdendo na tentativa de preparar uma elaborada trama política.

A proporção de desenvolvimento de personagens, mistério e de um evento maior sempre acaba prejudicando a história geral. Mesmo que Great Ace Attorney tente capturar o equilíbrio que fez a trilogia original tão brilhante, acaba errando na mão na hora de selecionar seus ingredientes primordiais. No final, todo o esforço da narrativa para emplacar uma relevância política acaba implodindo por decisões inconsequentes de roteiro.

A sensação que fica é que Great Ace Attorney se leva muito a sério por tentar adaptar as histórias originais do Sherlock Holmes. Quanto mais se afasta desse molde, se permitindo experimentar sem medo, melhor o jogo flui. As novidades mecânicas, por exemplo, são um espetáculo à parte.

Testemunhas e a falta de tecnologia mexem com os julgamentos

As novas ideias podem dar origem a um novo caminho para Ace Attorney, caso os desenvolvedores consigam abrir mão de fórmulas rígidas consolidadas que seguram a evolução da franquia. Um caso claro é a mudança na apresentação das testemunhas, que surgem em grupo desta vez. A interação entre eles, suas reações sutis e exageradas, acrescentam vida e possibilidade a um ponto que era estagnado na franquia.

No fim, Great Ace Attorney Chronicles tem seus problemas, mas é o prelúdio de um futuro brilhante para os aspirantes a advogados da Capcom. O novo cenário é perfeito para trazer novatos a esse mundo de lógica e humor. Alguns elementos parecem estar em constante conflito, brigando para dominar a identidade, mas sem estragar a experiência final do título.

Dito isso, o game leva 8/10 da Legião! Se você não se importa em uma leitura extensiva de quase 60 horas de textos em inglês, esta aventura pode te cativar.

Nota: 8/10

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sobre o autor Gabriel Mattos

Repórter correspondente de Wakanda, caçando Pokémon por onde eu vou! Sempre nas lives da Legião! • @gabeverse