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Entrevista: Diretor Ameen Nayfeh, de A 200 Metros, conta os desafios de retratar a crise da Palestina

Por Gabriel Mattos

Basta ligar o noticiário para ver o horror e a destruição causada pela crise entre Palestina e Israel. À quilômetros de distância, na segurança de nossas casas, é fácil encarar este conflito como um dado geográfico, uma matéria que é cobrada em vestibular, mas para quem vive isso de perto, o drama é real. No filme A 200 Metros, o diretor jordaniano Ameen Nayfeh convida o público a observar a vida dessas pessoas com um olhar mais gentil, para enxergar que além do sofrimento existem pessoas como a gente.

Na trama, acompanhamos a vida de Mustafa trabalhando como pode para conseguir sustentar sua família que mora do outro lado do muro que divide a Palestina de Israel. Até que um dia, seu visto é negado e ele precisa encarar uma perigosa aventura para atravessar ilegalmente a fronteira, transformando uma caminhada de 200 metros em uma épica viagem de quilômetros de distância.

Pode parecer ficção, talvez uma história fantasiosa inspirada nos relatos do Muro de Berlim, mas esta é a realidade de muitas famílias que vivem no meio de um conflito que eles não começaram. É o que conta o próprio diretor, ao revelar que o roteiro incorpora muitas de suas próprias experiências. “Na verdade, eu cresci nesta história. Não como um pai, mas como uma pessoa separada de sua família,” comenta.

“Eu sei como era antes do muro. Eu tenho memórias pegando táxi para os meus avôs. E de repente tem um muro, torres de vigilância e pontos de checagem… E ninguém podia ir mais. Isso porque era bem pertinho, só 10 minutos de onde eu morava, e de repente não era mais uma opção,” lamenta. Essa divisão trouxe memórias sofridas de uma vida inteira de momentos roubados. “Eu não me despedi dos meus avós, perdi muitos eventos de família, casamentos… E não é só a minha história, eu vivo ouvindo relatos assim.”

Assim como na vida de Mustafa, o muro separa muitas famílias

Lapidar todo este sentimento em um enredo digno de um longa metragem demorou cerca de sete anos. Segundo Ameen, que também assina como roteirista, finalmente ver os personagens que existiam apenas em sua cabeça tomando forma nos ensaios, depois de tanto tempo, foi um dos momentos mais recompensadores da produção. “Depois disso, a gente começou a gravar e começou a ficar bem difícil”.

Quando falamos em guerra, sempre imaginamos produções de ação, regadas a explosões e tiroteios, mas Ameen decidiu seguir por outro caminho: pelas estradas reconfortantes de um road movie. “Na faculdade de cinema, nosso professor sempre falava: ‘Se você quer que sua história alcance todos os cantos do mundo, você precisa pensar (nela) como entretenimento.’ Então eu comecei a encarar este filme como um road movie e foi com isso na cabeça que eu comecei a escrever o primeiro rascunho,” revela.

Entretanto, apesar desta ideia parecer incrível na teoria, na hora de filmar acabou dando bastante trabalho. “As cenas no muro foram gravadas no muro de verdade,” conta. A decisão de usar apenas locações reais foi necessária para garantir a autenticidade dos locais marcantes da imposição israelita de outro jeito. “Só que a gente não tinha permissão para gravar.” Assim, algumas gravações corriam o risco de irritar as autoridades locais.

Via Zoom, Ameen Nayfeh se diverte relembrando perrengues da gravação

“Estas áreas estão sob controle dos militares israelenses, então a gente não podia chegar falando: ‘A gente quer fazer um filme sobre o muro. Por que você não dá uma permissão pra gente?’,” brinca. Apesar do bom humor relembrando da situação, a equipe passou perigo de verdade. As cenas eram gravadas com pressa para diminuir as chances de serem pegos e eles contaram apenas com a sorte para que isso não acontecesse. “Eu, como diretor, estava tentando me concentrar no elenco e na cena, mas ficava sempre preocupado. ‘E se um jipe do exército aparecer?’,” reflete.

Durante as gravações, Ameen conta que acabou rolando um incidente com os militares quando sua equipe atravessava um ponto de checagem no caminho para o local de filmagem. O diretor estava com sua equipe em um carro e a produtora, que era palestina, estava seguindo no carro de trás. O soldado começou a fazer perguntas de rotina para entender o motivo deles carregarem uma câmera e Ameen estava enrolando ele, dizendo se tratar de um documentário sobre uma igreja nas proximidades.

Tudo estava bem, até que ele ouviu soldados gritando, apontando as armas para alguém longe. “Percebemos que era a nossa produtora. Ela saiu do seu carro e começou a andar em nossa direção, à pé, o que é muito perigoso. Aí começamos a gritar para eles: ‘ELA É NOSSA PRODUTORA!’,” lembra com pesar. “Para ser sincero, aquele foi o momento mais assustador na minha vida toda. Alguma coisa de ruim podia ter acontecido com ela, eu estava com muito, muito medo. Mas, por sorte, eles ouviram a gente chamando e só pediram para ela voltar pro carro. Fomos embora e eles não fizeram nada com a gente.”

Diretor passou por situação similar a sua personagem, Anne

Neste momento, Ameen se sentiu como uma personagem do próprio filme: Anne, uma cinegrafista alemã que acaba colocando Mustafa e seus colegas em perigo ao ser pega filmando um documentário sobre a viagem. O diretor conta que, na verdade, ela surgiu no roteiro para ser um ponto de empatia, alguém que o público internacional poderia ver e se identificar.  “A princípio, ela seria americana,” revela.

Poucas mudanças foram feitas com o intuito de tornar o filme mais palatável para o exterior. O objetivo era contar uma história que pudesse representar a vida de um palestino qualquer de classe média. “É assim que as famílias de classe média se parecem (na Palestina). Como eles falam, como eles se comunicam, como eles parecem… É assim para a maioria das pessoas (da Palestina),” explica.

“Todos os personagens, as locações, eu estava me esforçando para que fossem autênticos para o público palestino, especificamente. Porque muitos filmes palestinos são escritos para espectadores que não são de lá. Então quando a gente vê esses filmes, a gente fica ‘Ei, isso nunca aconteceria!’ ‘O que era pra isso ser?’ Por sorte, eu consegui (ser autêntico), porque quando o filme passou na Palestina, as pessoas me aplaudiram por prestar atenção aos detalhes.”

As famílias palestinas aprovaram a representação do filme

Um conflito tipicamente palestino que acontece durante o filme é a resistência do personagem principal em aplicar para uma dupla nacionalidade. Mustafa poderia transitar livremente caso tivesse a cidadania israelense, mas logo no começo vimos que o assunto, por si só lhe tira do sério.

O diretor explica que é um tópico muito sensível, pois mexe com a questão de identidade. “Nós estamos lutando para ter um Estado Palestino. Estamos lutando por nossa identidade,” declara. Mesmo assim, muitos palestinos cederam e acabaram fazendo uma identidade israelense por necessidade, mas não foi uma decisão fácil.

Hoje, as leis estão mais rígidas e não existem tantos artifícios que facilitam a reunião de famílias de lados opostos do conflito. “Quando eles tem essa conversa, a esposa fala ‘É sua culpa. Você poderia ter uma identidade israelense.’ Com as leis atuais, isso não é mais uma opção. Então ela está pensando: ‘Você perdeu a chance!’ Hoje, existem leis que parecem mais com um ‘Apartheid'”, lamenta Ameen.

Transitar entre o lado palestino e israelense é cada vez mais difícil.

Este ano, o conflito entre os dois territórios voltou a se agravar depois que a Justiça Israelense mandou expulsar refugiados palestinos de um bairro que oficialmente pertence ao território palestino. Ao longo dos anos, a maioria esmagadora das vidas perdidas durante este conflito veio do lado palestino.

Apesar de tudo, Ameen sonha que um dia as coisas serão mais simples na Palestina e que não existirá um muro separando seu povo. “A maior mensagem que eu gostaria de deixar para o público (com esse filme) é que, sabe, apesar de vivermos esta vida bastante difícil na Palestina, somos apenas um povo que está querendo viver,” declara.

“O que quer que aconteça, nós vamos desafiar, vamos ficar, não vamos embora. Não tem outro lugar para onde eu queira ir. Este é o meu país. Quero viver aqui! Vou dar um jeito.”

A 200 Metros, filme escrito e dirigido por Ameen Nayfeh, foi escolhido pela Jordânia para representar o seu país na corrida por uma indicação a Melhor Filme Estrangeiro nesta última edição do Oscar. O longa chegou nesta ultima sexta (17) às plataformas digitais brasileiras e já pode ser comprado ou alugado no seu serviço favorito.

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sobre o autor Gabriel Mattos

Editor, repórter correspondente de Wakanda, caçando Pokémon por onde eu vou! Sempre nas lives da Legião! • @gabeverse