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Crítica: Vozes e Vultos assombra mais pelo lado humano que pelo sobrenatural

Por Gus Fiaux

Um dos mais novos lançamentos da Netflix, Vozes e Vultos combina elementos de horror e suspense com um drama familiar denso e claustrofóbico. Na trama, uma artista começa a ouvir e ver atividades sinistras na casa de campo para a qual acabou de se mudar. Porém, ela também precisa lidar com outro medo cruel: seu próprio casamento em ruínas. 

Com uma direção bem competente e personagens complexos, o filme tinha tudo para ser mais um baita lançamento da plataforma de streaming, mas alguns probleminhas pelo caminho fazem com que ele não se saia tão bem, apesar de todo seu potencial. Aqui, você pode ler a nossa crítica do filme!

Ficha Técnica

Título: Vozes e Vultos (Things Heard & Seen)

 

Direção: Shari Springer Berman e Robert Pulcini

 

Roteiro: Shari Springer Berman e Robert Pulcini

 

Ano: 2021

 

Data de lançamento: 29 de abril (Netflix Brasil)

 

Duração: 121 minutos

 

Sinopse: Uma artista se muda para uma casa de campo e começa a suspeitar que seu casamento tem uma história sombria – assim como a casa na qual ela vive agora…

Vozes e Vultos assombra mais pelo lado humano que pelo sobrenatural

Já não é de hoje que produções de horror tentam subverter a lógica dos fantasmas e das casas mal-assombradas. Em 1959, Shirley Jackson nos presenteava com A Assombração da Casa da Colina, romance gótico que tocava justamente nesse ponto. O cinema seguiu a tendência, de modo a ganharmos filmes como Os Outros, em 2001 e até mesmo O Orfanato, em 2007. 

Até mesmo a própria Netflix já conseguiu botar suas mãos nesse subgênero e produzir duas obras magnânimas: A Maldição da Residência Hill e A Maldição da Mansão Bly, ambas criadas por Mike Flanagan. Por conta disso, chega a ser um tanto decepcionante ver o que é feito em Vozes e Vultos, o mais novo filme da dupla Shari Springer Berman e Robert Pulcini – ao menos, no que diz respeito ao âmbito das assombrações. 

O filme é baseado no romance All Things Cease to Appear, da escritora Elizabeth Brundage, e desde os primeiros minutos, já é possível notar uma certa materialidade de adaptação no filme. O roteiro, conduzido pelos diretores, parece fazer muito uso de frases e diálogos que devem soar belíssimos em um livro, mas que perdem o efeito toda vez que são proferidos por atores reais. Mas, de certa forma, essa transcrição literal das páginas para as telas acaba criando uma aura única para o filme. 

O elenco é um destaque à parte. Temos Amanda Seyfried (recém-indicada ao Oscar por seu papel em Mank) fazendo o papel de Catherine, uma mulher com problemas alimentares e com muitas dúvidas em seu coração. James Norton (The Nevers) faz George, o marido dela, que lentamente se mostra abusivo. Fechando o círculo, ainda temos nomes como F. Murray Abraham (Amadeus), Natalia Dyer (Stranger Things) e Rhea Seehorn (Better Call Saul).

Embora a história seja centrada em Catherine e George, o filme apresenta tantos personagens que às vezes perdemos a conta de quantos deles são relevantes e quais possuem uma conexão evidente com a trama central. Isso, no entanto, não tira o peso do trabalho excepcional de Seyfried e Norton, que entregam atuações incríveis ainda que seus diálogos não sejam lá os melhores. 

Porém, no fim, o que mais impressiona no filme é como seu lado sobrenatural é inútil, exceto por uma cena final vergonhosa. Ao longo do filme, Catherine começa a ouvir barulhos e ver movimentos estranhos em sua casa, mas nada disso tem uma grande relevância, enquanto a alma principal do filme reside em uma outra ideia – a desintegração do casamento de Catherine e George

Desde o começo, sabemos que a relação dos dois está fadada ao fracasso e é permeada por momentos explosivos, microagressões e uma necessidade de controle absoluto por parte de George. Isso só é agravado ao longo da trama, conforme os eventos na casa “fortalecem” o lado mais sombrio e maléfico do marido de Catherine. Esse conflito dá a maior fonte de tensão e suspense do filme, enquanto as desconfianças do casal vão se tornando cada vez mais letais. 

O grande problema talvez seja a resolução. O filme, como disse, sempre deixa o seu lado sobrenatural em segundo plano enquanto o foco principal está na vida de Catherine e George. Pois bem, o filme faz uma decisão bem arriscada em seu terceiro ato – algo que leva até a derradeira conclusão. Porém, ao incorporar um elemento mais “paranormal” nesse final, o longa acaba perdendo a potência do que poderia ser uma ótima crítica social calcada em problemas reais. 

E por mais que esses problemas realmente saltem aos olhos quando analisamos o filme friamente, a verdade é que há muito para se elogiar em Vozes e Vultos. Para começar, temos a direção de Berman e Fulcini que realmente entrega algo espectral e extraordinário. Isso está na forma como o cenário da casa é bem aproveitado ou quando o casal usa um jogo de câmera bem suave para ilustrar a posição de poder que George quer ocupar. 

Eles também sabem usar muito bem lentes e mudanças de iluminação para representar o lado mais psicológico dos personagens. Tudo isso ajuda a criar um senso de aprisionamento mental bem interessante, quase como se estivéssemos sendo sugados para dentro da mente distorcida do casal. Aos poucos, o filme tenta fazer com que nós consigamos sentir o que eles sentem – medo, raiva, ódio, desejo.

O grande problema talvez seja que o filme está sempre à margem de seu material fonte. A impressão que fica é que a adaptação só consegue traduzir uma parcela do livro de Elizabeth Brundage, e que muito da complexidade dos personagens e da trama acabou sendo perdido na adaptação. No fim, conseguimos ver que há muito potencial e muito esforço por parte do elenco e da equipe de produção, mas sempre há a impressão de que o filme é apenas o eco de alguma obra melhor. 

No fim, Vozes e Vultos está longe de ser mais um dos filmes terríveis despejados pela Netflix todas as semanas. É um longa com vários méritos, sobretudo a direção e as atuações de seus protagonistas. Porém, falta algo para lhe dar algo especial, um toque mais cauteloso na adaptação e uma narrativa que conciliasse melhor suas duas formas de horror.

Nota: 2,5/5

Vozes e Vultos está disponível na Netflix.

Abaixo, relembre os 10 melhores filmes de terror originais da Netflix:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux