[Crítica] Força Queer, Temporada 1

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[Crítica] Força Queer, Temporada 1

Por Gabriel Mattos

Força Queer, nova animação da Netflix com protagonistas LGBTQ+, tinha tudo para ser o 007 bem humorado das gays. Depois do polêmico Super Drags, a comunidade estava ansiosa para ver uma nova animação adulta que ousasse levar pessoas queer para o centro da ação. Entretanto, o desenho que traz David Harbour no elenco acaba sendo apenas um Archer bem gay e com um comentário social surpreendentemente pertinente.

Ficha técnica:

Título: Força Queer (Q-Force)

 

Criação e Roteiro:  Gabe Liedman

 

Ano: 2021

 

Data de lançamento: 2 de setembro (Netflix Brasil)

 

Número de episódios: 10

 

Sinopse: Um grupo de espiões LGBTQ+ quer conquistar respeito de sua agência cumprindo missões perigosas.

Pôster reunindo o elenco principal

O preço do orgulho

Na trama, o espião Steve Maryweather volta a trabalhar em campo após dez anos sendo boicotado por seus superiores por revelar publicamente sua sexualidade. Junto de uma equipe inusitada, ele acaba envolvido em uma grande conspiração logo na primeira missão que começa em um bar gay e termina envolvendo um leilão do mercado clandestino.

De primeira, somos surpreendidos por um contexto muito real e pertinente: a falsa segurança de políticas públicas de inclusão. A história de Steve começa em 2011, assim que a política de “Don’t ask, don’t tell” (“Não pergunte, não conte”), que proibia cidadãos abertamente LGBTQ+ de servirem nas tropas armadas, algo que foi revogado por Barack Obama.

Amparado pela nova lei, o Agente Mary decide assumir ser gay e acaba sendo punido sem receber nenhuma missão pelos próximos dez anos. Uma forma interessante de começar uma conversa sobre preconceito estrutural que permeia toda a série, mas que acaba sendo ofuscada pela comédia gritante e confusa.

Agente Mary é a âncora emocional que puxa a história para o realismo

Um quiz em forma de comédia

Força Queer não segura sua veia cômica com muita frequência, o que se prova uma bênção e uma maldição. As piadas são rápidas e constantes, como é comum na cultura LGBTQ+, mas o roteiro não dá muito tempo para o público respirar, matando brutalmente o ritmo cômico da série. O que poderia ser engraçado, acaba sendo só um mar de referências.

Este é inclusive outro problema. Grande parte do humor se baseia em referências norte-americanas da comunidade LGBTQ+. E, apesar do público brasileiro ser bem antenado nas tendências estadunidenses, muita coisa ainda acaba passando batido por ser muito regional.

Neste quesito, o time de dublagem fez um trabalho fenomenal, adicionando expressões populares e atuais em todas as situações possíveis. Até mesmo o recente “Tá passada?”, que viralizou com o vídeo satírico de @essemenino, incorporou o vocabulário dos agentes no Brasil. Apesar das piadas em si continuarem intactas, o jeito de falar dos personagens na dublagem brasileira torna a experiência da série muito mais divertida e agradável.

Piadas atuais divertem, mas excesso de reverências confunde

Mais LG que BT

Os personagens, apesar de serem extremamente caricatos, também conquistam. Há uma motivação válida dentro da estrutura da série para depender tanto de estereótipos e acaba facilitando as críticas leves à própria comunidade. É um jeito leve de rirmos de nós mesmos, mas foi uma oportunidade perdida de explorar diversidade com profundidade.

Apesar de bradar a bandeira LGBTQ+ e adotar a alcunha de Força Queer, a série poderia facilmente se chamar Força Homossexual pois só desenvolve gays e lésbicas em seu elenco principal. O próprio Twink, uma drag queen mestre dos disfarces, poderia ser uma poderosa adição a representação queer ou não-binária na televisão, mas é apenas uma oportunidade perdida.

Isso sem falar na problemática da personagem Stat. Ela é codificada com todos os piores estereótipos assexuais, de uma pessoa distante, com dificuldade de se conectar, mas acaba desenvolvendo um romance polêmico ao longo da trama. Mesmo com sua personalidade interessante, Stat acaba sendo apenas um desserviço para uma parte invisibilizada da comunidade.

Em quesito representatividade, elenco é um carro desgovernado

Ainda assim, presta?

Mesmo com problemas, a série consegue emplacar uns personagens interessantes que revelam suas camadas enquanto a história avança. Mesmo que o roteiro tropece em construir boas falas, a trama de conspiração é muito bem desenvolvida e consegue tecer comentários a práticas deploráveis que foram comuns no passado e são defendidas até hoje.

No fim, os problemas de Força Queer não são imperdoáveis e lhe condenam ao máximo a mediocridade. Mediocridade essa que é perdoada em séries mais hétero como Archer, que existem aos montes, mas tem um sabor mais amargo quando vem de umas poucas séries que tem a oportunidade de ser queer sem vergonha alguma.

O maior inimigo da série é a pressão de ser um marco significante para a comunidade, um fardo nada justo para produção nenhuma. As piadas afobadas soam como um desabafo de uma equipe de roteiristas sem fé alguma que uma série como esta ganharia outra temporada. Isto fica evidente, inclusive na narrativa, que muda completamente a mensagem na reta final.

Nota da série: 3,5

Em sua primeira temporada, Força Queer manda uma mensagem potente à hipocrisia da falsa inclusão e à devoção cega a divas endeusadas. Diverte também em seus momentos mais rasos, mas perde força ao apostar excessivamente em referências culturais. Ainda assim, tem um potencial latente que pode ser melhor lapidado em futuras temporadas.

Todos os episódios da primeira temporada de Força Queer estão disponíveis na Netflix.

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sobre o autor Gabriel Mattos

Repórter correspondente de Wakanda, caçando Pokémon por onde eu vou! Sempre nas lives da Legião! • @gabeverse