Brendan Fraser: Por que o ator da Múmia sumiu de Hollywood? (e como ele está voltando)

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Brendan Fraser: Por que o ator da Múmia sumiu de Hollywood? (e como ele está voltando)

Por Arthur Eloi

O cinema está em constante mudança. Além da evolução de técnicas e equipamentos, gêneros entram e saem de moda, e algo parecido ocorre também com os cineastas e astros. É muito comum que grandes personalidades passem por um período de estrelato, seja por um filme de sucesso ou por uma série de TV prestigiada, e depois saem dos holofotes. Sempre há curiosidade quanto ao “paradeiro” de celebridades que já passaram por sua fase de ouro, e essas dúvidas ficam ainda mais fortes nos raros exemplos das que voltam à ativa, como é o caso de Brendan Fraser.

O ator norte-americano era um dos mais promissores e divertidos no final da década de 1990 e começo dos anos 2000, tendo estrelado sucessos como George, o Rei da Floresta (1997), A Múmia (1999), e muitos outros. De lá para cá, porém, sua carreira desacelerou, e ele sumiu das grandes produções, mas ensaia um retorno com papéis em Patrulha do Destino e Nenhum Passo em Falso.

O que aconteceu com Brendan Fraser durante todo esse tempo?

A promissora carreira de Brendan Fraser

Para quem não se lembra, Brendan Fraser era um nome em ascensão em Hollywood. O ator se lançou no início da década de 1990, e logo conseguiu alguns papéis interessantes em comédias, como O Homem da Califórnia (1992), Os Cabeças de Vento (1994) e A Garota dos Sonhos (1997); e também em dramas, como Código de Honra (1992) e Deuses e Monstros (1998). A versatilidade chamava atenção, mas foi seu talento no humor que se destacou.

Foi em 1997 que Brendan Fraser teve seu primeiro grande papel com George, o Rei da Floresta. Uma paródia de Tarzan, o filme acompanhava um homem criado na selva por macacos que se apaixona por uma poderosa herdeira norte-americana, vivida por Leslie Mann. Essa foi a chance do ator demonstrar seu talento com bom timing cômico e habilidade para caras engraçadas e comédia física, que o colocavam lado-a-lado com outros nomes de peso da sua época, como Adam Sandler e Jim Carrey. George, o Rei da Floresta teve uma recepção crítica média, mas se tornou um sucesso de bilheteria.

A Múmia (1999) foi o filme que demonstrou a capacidade de Brendan Fraser como protagonista de ação bem humorado

O papel que realmente lançou o ator ao mundo só viria dois anos depois. A Universal Pictures trabalhava em novas versões dos seus clássicos filmes de monstro, e queria criar uma versão aventuresca, divertida e assustadora de A Múmia, no espírito de Indiana Jones. Brendan Fraser então foi escalado ao papel do explorador Rick O’Connell, um americano que acidentalmente desperta uma maldição antiga durante uma expedição no Egito.

Atuando ao lado de Rachel Weisz, John Hannah e Arnold Vosloo, A Múmia consagrou Brendan Fraser pela sua versatilidade entre humor, ação e drama. O filme, que foi um grande sucesso de bilheteria, comprovou sua habilidade para ser protagonista.

Já nos anos 2000, Fraser protagonizou alguns projetos de destaque. Logo no começo da década, contracenou com Elizabeth Hurley em Endiabrado, uma comédia romântica sobre um homem que vende a alma para o demônio (ou a demônio, no caso) para tentar conquistar a mulher de seus sonhos. Em 2002, coestrelou o drama O Americano Tranquilo, em que disputava o amor de uma jovem vietnamita com Michael Caine (Trilogia Batman).

Um dos últimos grandes projetos de Brendan Fraser, Looney Tunes: De Volta à Ação é um filme bastante estranho e divertido

Seus últimos grandes papéis vieram na metade da década. Logo em 2003, estrelou Looney Tunes: De Volta à Ação, filme da Warner Bros. que, assim como Space Jam, combinava live-action com animação. Ainda que a crítica tenha recebido bem, o longa teve performance medíocre na bilheteria. Já em 2004, Fraser interpretou Rick em Crash: No Limite, drama de Paul Haggis que recebeu seis indicações ao Oscar 2005 – e, inclusive, venceu na categoria de Melhor Filme (uma das vitórias mais questionadas da história da premiação).

O último grande papel de Brendan Fraser em um blockbuster foi como o protagonista de Viagem ao Centro da Terra, filme de 2008 que adapta o clássico de Júlio Verne. Mas quando o longa chegou aos cinemas, o ator já estava se afastando dos holofotes.

Por que Brendan Fraser saiu de cena?

Como é comum que estrelas de Hollywood passem por quedas após a ascensão, poucos realmente se questionaram se havia um motivo maior para o sumiço de Brendan Fraser. Mas em 2018 foi o próprio ator que revelou que, sim, seu afastamento foi motivado por um problema que enfrentou. Durante o auge do movimento Time’s Up, em que muitas atrizes expuseram casos de assédio sexual na indústria audiovisual, Fraser revelou que havia sido assediado em 2003.

Em entrevista à revista GQ, o ator afirmou que foi abusado por Philip Berk, o então-presidente da Hollywood Foreign Press Association (HFPA) – a organização por trás do Globo de Ouro. O relato de Fraser é bastante perturbador, e detalha como ele foi violado pelo executivo durante um evento em Beverly Hills, no meio de uma sala movimentada. O ator conseguiu escapar do abusador, mas foi um ponto traumático em sua vida: “Me senti enjoado e impotente, como se tivesse algo preso em minha garganta. Estava prestes a começar a chorar.

Em 2018, durante entrevistas para a minissérie Trust, Brendan Fraser revelou os traumas que o afastaram de Hollywood

Na época, Fraser decidiu não comentar o ocorrido publicamente, por medo de ficar marcado. Infelizmente, casos de assédio sexual são traumas recorrentes nas vidas e carreiras de muitas atrizes de Hollywood, mas também ocorrem com homens, que dificilmente falam sobre ocorrências do tipo. Outro ator que demorou muito para falar de algo do tipo foi Terry Crews (Todo Mundo Odeia o Chris, Brooklyn Nine-Nine), que também revelou ter sido assediado durante as conversas levantadas pelo Time’s Up.

Para Brendan Fraser, o trauma foi devastador. A HFPA reconheceu o incidente ao ponto de supostamente proibir que Philip Berk fique na mesma sala que o ator, mas não o suficiente para realmente tomar alguma atitude. Para referência, Berk só foi expulso da organização em abril de 2021, dois anos após o relato público de Fraser – e quase 18 anos depois de ter assediado o ator. O motivo da expulsão foi o assédio? Não, mas sim e-mails racistas do executivo.

O estrago já havia sido feito, como relatou Brendan Fraser na entrevista:

Eu fiquei deprimido. Me culpava e me sentia miserável, pois estava falando para mim mesmo: ‘Ah, isso não foi nada. O cara só te apalpou’. Isso pesou em mim durante aquele verão, e nem me lembro no que fui trabalhar em seguida. […] Isso fez eu me excluir, me sentir recluso dos demais.

Com essa experiência amarga em Hollywood, a confiança do ator ficou abalada. Na mesma entrevista, ele conta como perder o papel do Superman, em um filme dirigido por Brett Ratner (Dragão Vermelho) que nunca viu a luz do dia, lhe quebrou, como se ele não fosse bom o bastante. Fraser então decidiu sair de cena para focar em sua família, em especial no mais velho de seus três filhos, Griffin Arthur Fraser, que é parte do espectro autista.

O retorno triunfal de Brendan Fraser

Sim, é Brendan Fraser por baixo da lataria do Homem-Robô em Patrulha do Destino!

Foi só nos últimos anos que Brendan Fraser decidiu que era hora de dar mais uma chance para Hollywood. Em 2018, no mesmo ano em que abriu o jogo sobre suas péssimas experiências na indústria, o ator foi escalado para Trust, minissérie de Danny Boyle (Trainspotting) no FX. A trama é baseada em uma história real, e acompanha a investigação do sequestro do herdeiro John Paul Getty III pela máfia italiana. Ao invés do alívio cômico, Fraser interpreta Fletcher Chace, o investigador do caso, que não só é engajado na sua busca como também frequentemente dá longos monólogos que quebram a quarta parede e discutem diretamente com o espectador.

Mostrando que também não perdeu o bom humor que lhe consagrou, em 2019 o ator se juntou ao elenco de Patrulha do Destino, a irônica série da DC Universe sobre a equipe de heróis desajustados. Na série, hoje exibida e produzida pela HBO Max, Brendan Fraser vive o Homem-Robô, um ciborgue sarcástico e de cabeça esquentada.

Mas nessa nova fase de sua carreira, Brendan Fraser parece mais atraído pelos papéis dramáticos. Pouco após ter sua performance como Doug Jones em Nem Um Passo em Falso elogiada pelos críticos, o ator foi escalado para dois projetos bastante ambiciosos, de realizadores ousados. Ele viverá o protagonista de The Whale, o próximo filme de Darren Aronofsky (Cisne Negro, Mãe!), e também se juntou ao elenco de Killers of the Flower Moon, o novo filme de Martin Scorsese (Taxi Driver, O Irlandês).

Com destaque em Nem Um Passo em Falso, filme de Steven Soderbergh, Brendan Fraser mostra que quer mais papéis dramáticos na nova fase de sua carreira

O mais impressionante de tudo é como nada afetou o enorme carisma de Brendan Fraser. O ator colocou todas as suas dores e mágoas em público, comentou as difíceis decisões que precisou tomar em sua vida, e lavou a alma antes de voltar de cabeça para a atuação. Mais uma vez, os próximos anos de sua carreira são altamente promissores, mas dessa vez ele conta com o apoio do público, que entende sua complicada trajetória.

Recentemente, durante uma entrevista para Nem Um Passo em Falso, Brendan Fraser ouviu da entrevistadora que há uma enorme legião de fãs na internet entusiasmados com o seu retorno, e que valorizam sua honestidade ao tratar de seus traumas. A reação do ator, em um misto de bom humor e vulnerabilidade, foi um sorriso, um aceno com o chapéu, e segurar as lágrimas de emoção.

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sobre o autor Arthur Eloi

Repórter entusiasta de filmes ruins, jogos de tiro e de horror em todas as suas formas. Dá notas duvidosas para obras questionáveis • @ArthurEloi117