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[CRÍTICA] Enola Holmes, da Netflix

Por Gus Fiaux

Chegando à Netflix nesta quinta-feira (23), Enola Holmes é um projeto bem interessante do serviço de streaming. A história se baseia na franquia de livros homônima de Nancy Springer, focada na irmã adolescente do detetive mais famoso do mundo – o que já rendeu algumas polêmicas por aí.

Estrelado por Millie Bobby Brown, Henry Cavill, Sam ClaflinHelena Bonham Carter, o filme promete fazer suas próprias subversões à mitologia de Sherlock Holmes – mas na verdade, a Netflix pode ter acabado de encontrar sua próxima galinha dos ovos de ouro… e nesta crítica, explicaremos o motivo!

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Ficha Técnica

Título: Enola Holmes

 

Direção: Harry Bradbeer

 

Roteiro: Jack Thorne

 

Ano: 2020

 

Data de lançamento: 23 de setembro (Netflix)

 

Duração: 123 minutos

 

Sinopse: Quando Enola Holmes – a irmã adolescente de Sherlock – descobre que sua mãe está desaparecida, ela parte em uma missão para encontrá-la. Mas quando sua jornada a envolve em um mistério relacionado a um jovem lorde fugitivo, Enola se torna uma detetive, superando seu famoso irmão conforme desenrola uma conspiração que ameaça o curso da história.

Enola Holmes: O começo de uma nova saga infanto-juvenil?

Há meses, circulam rumores de que a Netflix está desesperada à procura de alguma saga ou franquia para adaptar e transformar em um fenômeno como Harry Potter ou Crepúsculo. Com a ascensão dos universos compartilhados e filmes de super-heróis, esse é um plano bem compreensível e justificável, ainda mais em Hollywood onde impera a competição. E com Enola Holmes, o serviço de streaming parece ter encontrado exatamente o que buscava.

Quando o projeto foi anunciado, muitos olharam com as sobrancelhas erguidas – afinal de contas, o que poderia se esperar de um filme sobre a irmã adolescente de Sherlock Holmes, o lendário investigador criado por Sir Arthur Conan Doyle e que já protagonizou um infindável número de filmes, séries de TV, jogos e diversos outros projetos literários. Pois bem, o filme finalmente está entre nós, e é uma grata surpresa da plataforma digital.

Aqui, logo somos apresentados à titular Enola Holmes, uma garota esperta e atrevida, com um espírito vívido e aventureiro, que um dia descobre que sua mãe simplesmente desapareceu, deixando um rastro tênue e misterioso. Logo, ela precisa lidar com a chegada de seus irmãos mais velhos, Sherlock Mycroft, que parecem ter outros planos e não estão tão interessados em descobrir mais sobre o desaparecimento da própria mãe.

É surpreendente o quanto o filme acerta em cheio desde a escalação de seu elenco. Millie Bobby Brown dá vida a Enola Holmes, criando uma personagem intrigante e que está num constante processo de crescimento, uma heroína infanto-juvenil que não deve nada a grandes nomes como Katniss Everdeen ou Hermione Granger. A atriz mostra aqui todo o seu carisma e talento, deixando para trás o estigma da Eleven de Stranger Things.

O elenco coadjuvante não é menos surpreendente. Henry Cavill faz um Sherlock Holmes muito britânico – e isso é um baita de um elogio, se é que vocês me entendem. Longe da afetação costumeira do personagem, Cavill transforma o detetive em uma figura humana e real, com seus próprios medos e anseios (e que nem sempre está certo). A ligação entre ele e Millie é instantânea, e os dois parecem de fato irmãos separados por uma grande lacuna de idade.

Sam Claflin, por sua vez, abraça a caricatura construindo um Mycroft que beira o vilanesco, um grande empecilho na jornada de Enola. Helena Bonham Carter aparece pouco, mas rouba a cena todas as vezes como a matriarca da família Holmes. Em destaque, ainda temos Fiona Shaw, Frances de la Tour, Susie Wokoma Louis Partridge, todos muito competentes em seus papéis.

O filme elabora uma mecânica bem divertida e ritmada ao desenvolver simultaneamente dois casos – o sumiço da mãe de Enola e o mistério envolvendo as constantes tentativas de assassinato do jovem Lorde Tewksbury (vivido por Partridge). É justamente nessa construção que podemos ver um pouco da evolução de Enola, seja como membro da Família Holmes, como detetive ou até mesmo como uma jovem mulher.

Aliás, é justamente nos momentos em que o filme assume os riscos de contar histórias mais densas – considerando toda a onda recente de boicotes e egos feridos pela internet – que Enola Holmes se torna algo a mais que um lançamento passageiro da Netflix. Aos poucos, o longa discute temas como o voto feminino, o prelúdio da luta das sufragistas e até mesmo as intrigas políticas na Inglaterra vitoriana.

Ao mesmo tempo que é didático – há uma cena em que podemos ver Edith (a personagem de Susie Wokoma) falando com Sherlock sobre os motivos que fazem com que ele sinta-se entediado ao discutir política, um dos pontos altos do longa -, Enola Holmes também sabe fazer isso de uma forma sutil e nunca deixando de lado o posto de entretenimento para toda a família.

E é justamente nesse aspecto que a Netflix acabou de tropeçar em uma mina de ouro. Deixe-me explicar: o filme é baseado no livro Enola Holmes e o Caso do Marquês Desaparecido, o primeiro de uma série de seis livros escritos por Nancy Springer, cada qual contando uma aventura nova da detetive, enquanto personagens clássicos como Sherlock, Mycroft e o Inspetor Lestrade se torna figuras orbitais nas aventuras da garota.

Pois bem, Enola Holmes tem tudo para ser apenas o primeiro de uma vasta franquia, que faria justamente o que a Netflix tenciona fazer: criar um fenômeno à altura de Jogos Vorazes, Percy Jackson ou Harry Potter. Tudo isso embrulhado em filmes que não demandam muitos efeitos visuais e ainda conquistam o público com um estilo doce e elétrico como o de Maria Antonieta e as aventuras familiares como as de O Enigma da Pirâmide. 

O primeiro passo nessa direção já foi dado, especialmente com a escalação de dois nomes tão grandes quanto Millie Bobby Brown Henry Cavill – duas figuras que certamente retornariam para mais filmes. É uma fórmula nítida de sucesso, que finalmente pode trazer de volta as grandes franquias infanto-juvenis que fizeram tanto sucesso na primeira década deste século.

Claro que, até lá, há muito ainda que pode ser melhorado – e se uma continuação realmente acontecer, eu realmente espero que os cineastas deem uma maneirada nas sequências de quebra de quarta parede ou até mesmo uma polida um pouco maior no roteiro, evitando sequências um pouco redundantes e repetitivas. Ainda assim, o longa de 2020 é um acerto que pode abrir as portas para mais uma franquia original da Netflix.

Em suma, Enola Holmes é um filme bem divertido e até mesmo surpreendente. Se você for um adolescente ou jovem adulto, certamente vai gostar de se aventurar por caminhos familiares, ainda que com uma nova roupagem. E se você for mais velho e tiver a cabeça aberta, vai perceber um filme que discute questões importantes com muita leveza e sutileza.

Uma coisa é certa: com a nova detetive, a Netflix tem a faca e o queijo na mão. Resta apenas saber se o serviço de streaming será esperto o suficiente para decifrar o enigma e fazer o raio cair no mesmo lugar com uma sequência que mantenha a franquia a altura deste primeiro filme. Mas até isso acontecer, temos um excelente e promissor começo.

A seguir, relembre os 10 maiores detetives da ficção:

Enola Holmes está disponível na Netflix.

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux