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Afinal, o cinema vai morrer?

Por Gus Fiaux

2020 tem se provado um ano bem difícil e complexo. Não bastasse o mundo imerso em uma crise sociopolítica e econômica, temos que lidar com uma das maiores provações dos últimos anos, graças à pandemia do COVID-19, cujos efeitos ainda estão se alastrando sem sinal de uma melhora (ao menos, não enquanto não tivermos uma vacina). Porém, esses eventos também estão fazendo com que tenhamos uma nova perspectiva sobre a nossa forma de consumir cultura e entretenimento.

Nos últimos anos, muito se fala em guerra dos streamings e na queda do cinema, algo que até agora parecia bem bobo e ridículo. Afinal de contas, a experiência cinematográfica existe há mais de um século e assim como a TV não a destruiu, não seria o streaming que colocaria um fim nisso. Mas tudo está mudando em tempos de pandemia e de isolamento social. Estúdios estão percebendo que, para manter seus lucros, é preciso fugir do tradicionalismo das salas de cinema e abraçar a tecnologia – e isso pode trazer consequências significativas para a nona arte.

Desde março, as produções cinematográficas foram profundamente afetadas pelo Coronavírus. Estúdios, vendo as iniciativas de isolamento social e a necessidade de fechar salas de cinema, decidiram empurrar diversos longas em seus calendários, adiando-os para 2021 ou até mesmo deixando-os sem uma data de lançamento definida, o que contornaria esse período de grande incerteza na nossa história enquanto sociedade.

Claro que, de lá para cá, muitas alternativas foram consideradas. Filmes foram lançados direto no streaming, a começar por Trolls 2 – que inclusive formou uma guerra entre redes exibidoras e a Universal -, enquanto alguns diretores pressionaram ao máximo para a reabertura dos cinemas – como Christopher Nolan com seu Tenet, filme que, levando em conta seu custo, ainda saiu dando prejuízo para a Warner.

Porém, estamos vendo também um caminho razoavelmente diferente sendo tomado por grandes estúdios, e que pode ter um impacto significativo nos próximos anos: o lançamento misto para streaming e para os cinemas. Talvez, o caso mais recente e famoso disso seja Mulher-Maravilha 1984, que já foi anunciado para o fim do ano, ganhando estreia simultânea nas salas de cinema e no HBO Max, o serviço de streaming da Warner.

Essa é uma decisão bem interessante porque traz um elemento crucial e que cai muito bem com o público: a possibilidade de escolha. Basicamente, quem está acostumado ou gosta da experiência cinematográfica, e está vivendo em um lugar onde o combate ao COVID-19 é levado a sério, vai poder ter a decisão de ver o filme na mídia tradicional (ou seja, os cinemas) ou no streaming.

Essa é uma iniciativa interessante e que certamente será considerada pelos grandes estúdios (como já foi noticiado pela própria Disney). O que isso quer dizer, a longo prazo, é que mesmo depois que a pandemia for contida, ainda podemos ter um modelo de exibição misto. E essa decisão é bem sábia por uma variedade de motivos, por exemplo, o controle da pirataria através do uso de canais oficiais de streaming, o alcance da mídia para fora dos grandes centros urbanos onde o cinema ainda não chegou e até mesmo a fomentação de mais produções focadas na mídia digital.

Além disso, é uma ideia que permite o resgate de um modelo cinematográfico que parecia estar em extinção: os filmes de médio orçamento. Se, nos últimos anos, estamos mais do que acostumados com grandes produções de super-heróis que custam centenas de milhões de dólares, o mercado indie continua vivendo quase como guerrilha. Por outro lado, grandes diretores estão perdendo autonomia no mundo em que super-heróis são a única forma de entretenimento válida.

Com o modelo do streaming, essa ideia cai por terra. Basta ver como a Netflix se tornou um lar respeitado para diretores de renome – como Martin Scorsese, Spike Lee e Noah Baumbach -, que conseguem angariar um médio orçamento para produzirem filmes que estão cada vez mais sendo soterrados pelos blockbusters no cinema. Isso é uma decisão espetacular que já está sendo seguida por outras plataformas, como o HBO Max e a Apple TV+.

Além disso, os grandes estúdios estão vendo na pele como a decisão de lançar filmes em streaming ou em VOD não afeta o lucro das vendas. Quer um exemplo? Os Novos Mutantes fez um número razoável nas bilheterias, mas se tornou um sucesso em vendas digitais. Ainda mais em tempos como esses, é a prova de que o público consumidor está mais do que interessado em consumir esses produtos no conforto de seu lar.

Tudo isso nos faz prestar muita atenção à forma como os estúdios andam manejando seus lançamentos. A Disney, esperta como sempre, já provou que sabre criar ainda mais lucro dessa situação, criando um espaço especial no seu serviço de streaming, onde lançamentos aguardados podem ser comprados por dinheiro adicional – a exemplo de seu grande lançamento de 2020, o remake live-action de Mulan.

E o que isso deixa de lição para o futuro? Ainda é difícil saber, mas muitas coisas podem acabar saindo disso. Se essa situação ainda durar por muito tempo, faz sentido que lançamentos monumentais como Viúva Negra e, quem sabe, até mesmo O Esquadrão Suicida sejam lançados diretamente em streaming ou até mesmo em um modelo misto, mesclando lançamento nos cinemas e nas plataformas digitais.

Isso significa que é o fim do cinema como conhecemos? Obviamente que não. Nas décadas de 50 e 60, a televisão apresentava uma ameaça maior à soberania das telonas. O que temos agora é um novo começo e a chance de explorar novos modelos de exibição, além da oportunidade de dar ao público a decisão sobre qual forma ele quer consumir os produtos oferecidos.

Claro que isso envolve algumas outras questões – como a própria guerra do streaming em si -, mas por ora é o que basta sabermos. Se isso vai afetar nossas vidas diretamente, é difícil de dizer agora, até porque o Brasil tem uma série de regulamentos bem diferentes dos Estados Unidos. Mas certamente é algo interessante a ser estudado e percebido ao longo dos próximos anos…

Abaixo, veja 10 séries animadas que poderiam ser revividas em plataformas de streaming:

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sobre o autor Gus Fiaux

Formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Crítico, roteirista e mago nas horas vagas. Wouldst thou like to live deliciously? || @gus_fiaux